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A mostrar mensagens de Junho, 2018

#5 Sempre concluindo a mesma conclusão: eu não vou chegar lá.

Não existe um . Existem vários lás. Chegando a um desses lás – porque isto sim é possível – abrem-se então inúmeras possibilidades de lás que, por sua vez, abarcam em si mais incontáveis possibilidades de lás. É impossível estacionar em um , isto implicaria estar morta. Uma vez que estou viva e não pretendo estar morta neste instante, o jogo é ir de em fazendo de conta que não quero o conforto de acreditar que existe um em que seja possível estacionar sem pensar nos outros lás que vão se abrir; é ir de em alcançando sempre o melhor aonde puder chegar. E os outros lás que me aguardem, chegarei .

#4 Mais do que ler o poema, experimentar o poema.

Sentir o poema. Copiar o poema no meu caderno, trabalhar sobre o poema, brincar com o poema, jogar com o poema e com os versos e as palavras e as sílabas e as letras que compõem o poema. Decorar os entornos do poema. Passar a mão no poema que eu copiei, o poema que não é meu, mas que minhas próprias mãos escreveram. Tocar o poema com a ponta dos dedos, com a superfície da pele, com a epiderme, marcar minha impressão digital no poema. Rir sobre o poema, chorar sobre o poema, fechar os olhos para o poema e vê-lo se formar nesta profunda tela preta que se abre diante de mim quando meus olhos estão fechados. Ali o poema se escreve novamente. O poema holográfico se desfaz quando abro os olhos, mas continua sob meu rosto que está sobre o caderno onde copiei o poema, que não é de minha autoria, mas que, no entanto, agora é meu porque o possuí.

#3 Algumas esperas poderiam ser para sempre esperas.

Algumas esperas são mais gostosas do que a coisa esperada em si. Às vezes a coisa esperada estraga a espera. Algumas esperas poderiam continuar sendo esperas mesmo quando a coisa esperada já se consumou. Nesse caso continuaríamos a esperar a coisa que já aconteceu ou chegou pelo simples fato de a espera conter em si todos os elementos que esperamos que a coisa em si contenha, mas que apenas a espera pode conter. A espera, porém, não é uma farsa, não é uma ilusão. A espera e todos os seus elementos existem. A espera é tem uma existência e uma autonomia tão concretas quanto a coisa esperada em si. Acontece que a espera e a coisa esperada às vezes perdem a relação entre si. A espera é uma coisa; a coisa esperada é outra coisa. Mas a espera tem uma existência própria – e aí, pensando sob esse viés, se torna possível que a coisa esperada jamais estrague a espera, e a espera continue sendo para sempre espera.

#2 E se eu juntar várias coisas que nunca terminei?

Se pegar todos os projetos inacabados, desde aqueles em fase de concepção dentro da minha cabecinha que nunca chegaram a conhecer o mundo fora dela até aqueles efetivamente iniciados, efetivamente colocados no mundo material, mas que não foram concluídos? Se eu juntar retalhos de coisas que comecei e não terminei, sejam quais forem, terei algo acabado? Afinal, o que é algo acabado? O que é concluir, finalizar, terminar, encerrar, arrematar? Um projeto chega a realmente estar consumado algum dia? Como é que se sabe que algo está pronto? Qual a hora certa de colocar o ponto final? O que marca, afinal, o ponto final?

#1 A certeza é um bicho que me pica de vez em quando.

Tem um ferrão pontiagudo, me pega quando eu menos espero, me espeta a bunda e vai embora voando e zunindo, zombando de mim. Me deixa lá, sozinha, com o veneno da certeza me percorrendo o corpo de cima a baixo. Passo dias com a certeza no sangue, acordo com certeza, durmo com certeza, caminho pelas ruas com passos firmes de certeza, o queixo erguido de certeza, o olhar adiante com certeza. “Que bicho que te picou, hein?”, me perguntam. “A certeza não dói”, eu respondo, com a certeza cintilando nos dentes. Durante o período em que circula a certeza através do meu sangue, tenho um horizonte estável ao longe para o qual olhar todos os dias. Acordo, abro a janela, o horizonte está lá, exatamente no mesmo lugar, tão imóvel, tão paradinho que posso tocá-lo com a ponta dos dedos sem perdê-lo. O problema é que: depois de uns dias, meu corpo vai expurgando o veneno da certeza. Não pode com ele conviver. Depois de suar, urinar, defecar, assoar o nariz inúmeras vezes, a certeza já não faz mais p…