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Este lugar existe e fica com a porta fechada dentro de mim

Falar dele é abrir a porta e observar, a uma distância segura, as culpas que dançam uma dança maligna ao longo de um labirinto. Falar deste lugar é olhar para ele sem me perder lá dentro. Entrar, no entanto, é cruzar o limite seguro entre o eu de todos os dias e o eu que fica preso neste labirinto. Hoje eu entrei. Eu entrei e a porta se fechou atrás de mim. Hoje eu olho as culpas bem de perto, dentro de seus olhos de pupilas dilatadas. Elas me tocam, me alisam, me abusam, me abraçam, me prendem, dançam comigo à força, me obrigam a sentir a materialidade de seus corpos, me obrigam a lembrar que elas existem e que basta abrir a porta e entrar para sentir com cada célula do meu corpo que elas estão lá, o tempo todo. Todas as culpas se reúnem no labirinto, todas, desde a minha mais tenra idade até o instante presente. Algumas já nem posso reconhecer mais, seja porque são muito antigas, seja porque não são tão fortes a ponto de sobreviverem numa materialidade concreta por muito tempo. Outras, porém, me apertam, me machucam, me sussurram segredos que eu gostaria de não conhecer. As mais fortes me arrastam diante de um enorme espelho onde posso me ver completamente nua, não nua sem roupa, nada disso: despida dos intermediadores entre o Id e o mundo que o Ego gentilmente cria para me proteger, para evitar que eu me perca neste labirinto de instintos e suas descendentes culpas. Como vim parar aqui? me pergunto enquanto encaro meu reflexo, enquanto vejo o pior de mim, a manifestação mais palpável e concreta do pior de mim. Como vim parar aqui? se até uns dias atrás eu podia muito bem abrir esta porta, olhar para dentro e não entrar, apenas saber o que existe ali, sem necessariamente sentir o que existe ali. Que grande empurrão me deu o Superego, me empurrou e ainda trancou a porta, porque eu sei onde está a saída, mas não posso sair. Eu sei que do outro lado estou eu, o eu que me encontra e me abraça docemente e me diz que está tudo bem, o eu que sabe bem o que fazer com a minha liberdade e os meus privilégios, o eu que chegou até aqui. O eu que um dia me disse que não tinha problema que eu alcançasse a minha autorrealização, desde que eu a direcionasse bem, desde que eu espalhasse o bem. O eu que permitiu que eu realizasse um a um os meus sonhos. O eu que sabe a medida exata da disciplina e da liberdade, da bondade e da coragem. O eu que se protege bem das extravagâncias do Id ou da dureza do Superego. O eu onde eu quero estar. O eu aconchegante. O eu que encontrou suas raízes. No fim das contas, acredito que o que mais devo temer é a sobreposição do Superego, pois é no momento que me conscientizo que o Superego está conduzindo minha vida que venho correndo para o labirinto. E me perco aqui, dançando com as culpas. Sem saber qual o real papel desta experiência se ao final só me sinto ferida.