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A tensão primordial

Eu operei todas as mudanças necessárias nos últimos tempos porque não suportava mais me deixar afetar pelas tensões alheias. Agora, me vejo exatamente onde eu (sentia que) deveria estar: pronta para trabalhar com as minhas tensões, livre de interferências – ou, ao menos, das interferências que inevitavelmente transbordavam em mim e impediam que eu pudesse divisar, identificar e futucar minhas próprias tensões. Não sei ao certo quais são elas, em que consistem, mas aqui estou, sozinha comigo, diante de todos os elementos que estiveram vagando no meu inconsciente enquanto eu trabalhava com foco nas questões externas, práticas e materiais da minha vida. Agora, as tensões me observam, sem nada que se interponha entre nós. 

O que estou encontrando agora são as minhas tensões mais profundas? Haverá questões ainda mais profundas que estas? Para acessá-las, o que mais devo sacrificar? Se esta é a última camada de tensões, o que haverá depois delas? Ou será que estas tensões são insolúveis? E as próximas também? Será que são estas tensões que devem servir de material para a produção de uma arte efetiva? Existirá arte efetiva? Será que, para sentir que finalmente atingi algo a que possa chamar de literatura, é sobre estas tensões que devo me debruçar? 

Estarão estas tensões presentes em todas as pessoas, bastando apenas que escavemos sempre mais e mais o inconsciente para encontrá-las? Ou será que corro perigo por estar aqui? Será que chegar até aqui e me manter aqui tempo suficiente para entendê-las e transformá-las em literatura é irreconciliável com a vida física? Será que se eu passar tempo demais aqui serei incapaz de interagir socialmente? 

Mas já que estou aqui, algo devo fazer a respeito. Escrever é fazer algo a respeito? Ou será que existe alguma outra ação no mundo físico que me ajudaria a amenizar estas tensões? Se existe, eu devo buscá-la? Será que permaneço ainda num nível básico de percepção e entendimento por considerar que estas tensões podem se configurar como potenciais matérias para um eventual processo criativo? Será que, se eu encontrar uma solução para estas tensões, estarei desperdiçando uma riqueza que poucos podem acessar? Devo fazer algo com esta riqueza? Devo escrever? Escrever ameniza as tensões ou me ajuda a direcionar bem as riquezas que estou acessando? Escrever será uma forma de amenizar UMA destas tensões? E as outras? Devo amenizá-las? 

E se eu um dia vier a resolver estas tensões, acessarei novas tensões e ainda mais profundas? Porque estas de agora são fortes o bastante para me causar assombro. Será que devo me acostumar a elas? Será que ter chegado a estas tensões significa que resolvi as tensões anteriores ou que apenas me acostumei a elas? O trabalho com as tensões deve ser diacrônico ou sincrônico? Será que a saída é me acostumar a estas tensões para avançar para um nível mais profundo de tensões? Mas, se estas tensões me levaram a pensar inclusive em morte, como poderei suportar tensões ainda mais densas? E estas tensões estarão presentes independentemente de como eu conduzir minha vida prática no mundo? Será que é realmente possível aplacar certas tensões presentes me recolhendo por um tempo e evitando incluir novas tensões no meu já vasto repertório de tensões? Ou será que a vida é um acúmulo interminável de tensões, independentemente de como eu proceder na vida prática? Será que acumular tensões é algum transtorno que desenvolvi? Ou será que as tensões são as mesmas que todas as pessoas no mundo sofrem, e eu apenas tenho um sistema distinto de explorá-las, significá-las e expressá-las? Tudo isto se trata somente de como eu construo os meus signos, e não das experiências em si? 

Bom, mas é possível que as próprias experiências me deem a amplitude necessária para trabalhar e manifestar palpavelmente as tensões empregando signos cada vez mais apurados. Ou será só ilusão a sensação de estar apurando os signos? Assim como era ilusão a sensação de apurar as experiências... Será possível apurar os signos ainda que não seja capaz de apurar as experiências? Ou apurar os signos passa necessariamente pela tarefa de apurar as experiências? Ou as experiências são apuradas à medida que sou capaz de ordenar e refinar os signos? É evidente que consegui ampliar meu repertório sensorial e perceptivo de modo a estar no mundo e sentir o mundo a partir de mais sistemas simbólicos, que sou capaz de desvendar signos com dimensões mais profundas. A minha questão é se sou capaz de criar signos que expressem tão fidedignamente quanto se é possível a minha impressão das coisas. 

E se eu tiver entendido tudo mal? E se não for nada disso? E se a minha concepção das coisas após a impressão das coisas corresponde a um nível tão particular, tão micro que diante do macro nada representa? E se eu realmente não tiver nada a dizer? Pois se as minhas experiências expressas por meio dos signos que estou apta a criar não forem universais o bastante para que causem uma identificação, de que servem? Ou, se forem tão inespecíficas, tão pública e universalmente compartilhadas, que nada têm a acrescentar? 

Dentro da prisão do meu anonimato, de que servem as minhas experiências? Sem a autoridade de uma posição que me valide socialmente, o que têm as minhas experiências e os meus signos de diferente das experiências e dos signos alheios? Nada. Estive buscando a experiência com todo apetite, com todo desespero, em oposição a uma suposta carência de experiência, e apesar de alcançar este espaço onde me aguarda uma vastidão de possibilidades de experiência, as tensões permanecem – ou se renovam, se reciclam, se substituem, se complexificam – confesso que não sei bem. 

Será que, uma vez encontrado o signo ideal, a perfeita tradução da linguagem dos sentires, terei aplacado a maior das tensões? Será que todas as minhas tensões estão, de algum modo, sujeitas a esta tensão primordial – a tensão sobre como transformar as experiências no signo ideal? E que este signo ideal seja socialmente reconhecido e aceito? A tensão, então, reside essencialmente em que ainda não tenha encontrado o signo ideal, ou que o meu signo não seja socialmente reconhecido e aceito? Ainda mais além: supondo que se reconheça socialmente que meu signo merece ser validado, terei aplacado as tensões quando a minha narrativa a maior parte das vezes se vê enredada nesta tensão primordial? Tensão que, convenhamos, não interessa a um público muito abrangente. 

Talvez se eu continuar tentando, se eu continuar insistindo, e buscar explorar as filhas desta tensão-mãe, se eu puder identificar com tanta clareza as filhas da tensão-mãe e criar signos tão próximos do ideal quanto os que crio quando me debruço sobre a tensão primordial... Basta saber identificar com tanta lucidez a natureza das tensões descendentes. 

Mas e se não houver lucidez alguma na maneira como sinto e concebo o mundo? E se esta suposta clareza das coisas, dos meus processos, não passar de um mero mecanismo de defesa? Defesa contra a insustentável leveza do ser, contra o insuportável peso de não ser, contra o susto de ser e não ser, contra a angústia de ser mais ou menos, contra o horror de deixar de ser, contra a insegurança de nunca vir a ser. É absolutamente possível que a minha ânsia por ordenar as impressões e transformá-las em signos ideais tenha muito mais a ver com uma necessidade intrínseca de dar sentido às experiências (de encontrar o fio que conecta tudo) do que realmente com alguma propensão a produzir arte de verdade. Mas será possível a um artista desenvolver sua arte desvinculado de suas próprias experiências e necessidades de significação? 

Será que estamos todos em busca do fio que conecta tudo? Existirá tal disparate? Uma tensão primordial, uma fibra que esteja presente no tecido do fio que liga os vários recortes de vida? O acesso ao não referencial nos ajudará nesta busca da tensão primordial? Se passar tempo demais em espaços referenciais nos afasta de nossas tensões primordiais, o que significará passar tempo demais em espaços não referenciais? Significa estarmos perigosamente próximos de nosso cerne? O cerne numa planta é composto de células mortas e não tem função de armazenar nem de transportar água e nutrientes. Será isto que torna nosso cerne tão assustador? Porque é feito de células mortas e, biologicamente, não tem função alguma? É por isso que seu acesso tem tantos obstáculos? Obstáculos que podem ser transpostos por meio de recursos como, por exemplo, as substâncias químicas. É para o cerne que nos encaminhamos quando consumimos as substâncias alucinógenas? 

É para o cerne que me encaminho enquanto viajo e me afasto dos referenciais? Viver e suportar viver é encontrar a perfeita conjunção entre o cerne, as raízes e o mundo ao redor? O desequilíbrio entre todos estes elementos será o que Freud chama “o mal-estar na civilização/cultura”? Será a minha ideia de raízes uma construção social? Uma crença coletiva de que valores como a família e a estabilidade a ela associada são cruciais à existência? Será que tal construção social se fundamenta em experiências empíricas de indivíduos que cortaram suas raízes e qualquer relação de familiaridade e não puderam sobreviver apenas de seu cerne? Afinal, o cerne é composto de células mortas e não tem nenhum papel biológico relevante...  

E ainda que viajar e explorar outros mecanismos de acesso ao não referencial me aproximem da minha tensão primordial, do meu cerne, isto não quer dizer que, ao transformar esta experiência em signo, eu o queira fazer de modo prescritivo. Não! A minha ânsia por significar é fundamentalmente descritiva, nunca prescritiva. Afinal, a vida é um código disponível para a coletividade, e as experiências que escolhemos viver, por sua vez, são atos singulares, são variedades das quais dispomos como sujeitos, com nossas subjetividades, nossas organizações básicas de ideias e sentires. [...]