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A experiência como linguagem

Andei pensando que a minha necessidade de experiência está intrinsecamente – mas não apenas – relacionada com a necessidade de produção de sentido, que, por sua vez, se relaciona com a maneira como articulo as diferentes linguagens. Como seres sociais, temos a língua, a linguagem verbal como meio privilegiado de comunicação, mas há também outras linguagens, mais sensíveis, por meio das quais podemos estar no mundo. Sinto que meu desejo mais profundo, o que está no cerne de tudo ou o que inconscientemente pauta as minhas ações, é expandir as redes que intermedeiam a minha relação com o mundo, sofisticar o meu estar-no-mundo. A experiência seria então uma linguagem em si, a linguagem do meu corpo, um sistema próprio; o processo de transformação dos sinais em signos se dá pela experiência mesma. 

Sofisticar quer dizer aprimorar, refinar, e não ampliar, expandir. Sejamos honestas (eu comigo mesma): não adianta falar apenas do que está funcionando (a ampliação) – o importante e que deve ser trabalhado é o que não está funcionando (a sofisticação). E talvez, nesse sentido, escrever seja meu estudo semiótico desta linguagem a que chamo experiência. A observação das minhas experiências – vistas como a minha linguagem – comportando-se como sistemas vivos, que se reproduzem, se readaptam e se regeneram. 

A minha viagem atual é um campo fértil para que a experiência possa se reproduzir. No entanto, preciso estar atenta a que tipo de sentido quero que se produza. Quais são as verdades que quero que floresçam quando as sementes começarem a brotar? Não preciso trabalhar com todo gênero de verdade. Ainda que a liberdade de viajar ou a liberdade no geral me dê a ilusão de que tudo é possível, um fato é inegável: o tempo é curto e os recursos são finitos. Por isso, se a experiência é a minha linguagem, é importante ter mais ou menos definido o meu sistema simbólico. Se eu sou o signo, é importante checar se o significado corresponde ao significante – e vice-versa. 

A propósito, quem deve se adequar a quem? O significado ao significante ou o significante ao significado? Esta é uma questão importante, já que causa muitas inquietudes. O eu como conceito deve se adequar à minha manifestação material ou o componente material do meu ser deve se adequar à minha representação mental? Os desejos-de-ser dentro de mim devem determinar o meu ser-no-mundo, ou o meu ser-no-mundo (que parece concentrar mais energia) é que deve remanejar os desejos-de-ser dentro de mim? Tendo a crer na segunda opção, já que, em todas as vezes que fui capaz de ajustar o significante ao significado, a sensação de recompensa foi plena. Deve ser porque ajustar o significante ao significado dá muito mais trabalho, ao passo que ajustar o significado ao significante é basicamente estar à deriva e deixar os processos seguirem seu fluxo, sem interferência. 

É preciso interferir. Seria esta a resposta? Ou mais bem a semi-resposta a esta semi-pergunta. Interferir requer trabalho, gasto de energia. Resta saber se se trata de uma energia renovável ou não. [...]