Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2017

A música eletrônica

é uma das formas não verbais que tenho de me sentir identificada. Ela me dá a sensação de estar se movimentando da mesma forma que meus pensamentos, parece ter a mesma dinâmica das diferentes esferas da minha conexão.  É quase como se eu pudesse ver as pecinhas dos meus insights se movendo dentro da minha cabeça. Às vezes calma, às vezes em tensão, expectativa, crescente, clímax, um movimento que nunca cessa, que inclui, que exclui, que vai, volta, mescla passado e futuro, mescla realidade e seu inverso. É como uma representação melódica do próprio fluxo de pensamento.

A culpa

Hoje a culpa avançou para um estágio em que já não tem exatamente uma forma. É a culpa despersonificada, desvinculada de suas origens, o sentimento em si, acionado mediante certos estímulos que procuro evitar. Talvez esta culpa específica permaneça indefinidamente na sala do inconsciente junto com as outras, anteriores, simultâneas e futuras, que eventualmente também vão se desassociar de suas causas originais. Talvez todas as culpas estejam destinadas a perderem suas formas em algum momento para se mesclarem em uma única substância – a culpa primordial, a mãe de todas as culpas. A culpa que tem a ver com o embate entre os instintos e a renúncia. Que tem a ver com o buscar experiências sem critério, sem contemplação paciente dos fatos.

A tensão primordial

Eu operei todas as mudanças necessárias nos últimos tempos porque não suportava mais me deixar afetar pelas tensões alheias. Agora, me vejo exatamente onde eu (sentia que) deveria estar: pronta para trabalhar com as minhas tensões, livre de interferências – ou, ao menos, das interferências que inevitavelmente transbordavam em mim e impediam que eu pudesse divisar, identificar e futucar minhas próprias tensões. Não sei ao certo quais são elas, em que consistem, mas aqui estou, sozinha comigo, diante de todos os elementos que estiveram vagando no meu inconsciente enquanto eu trabalhava com foco nas questões externas, práticas e materiais da minha vida. Agora, as tensões me observam, sem nada que se interponha entre nós. 
O que estou encontrando agora são as minhas tensões mais profundas? Haverá questões ainda mais profundas que estas? Para acessá-las, o que mais devo sacrificar? Se esta é a última camada de tensões, o que haverá depois delas? Ou será que estas tensões são insolúveis? E…

Nesta espiral de abundantes mudanças

vez ou outra temo a sensação de incoerência da minha própria vida. Para não me deixar abalar, procuro visualizar a linha que conecta tudo, cada recorte, o elo entre as cadeias de certezinhas. Não importa que minha linha seja toda remendada, com distintas cores, tamanhos e texturas: o importante é que ela exista e que eu seja capaz de ressignificá-la de tempos em tempos.

A experiência como linguagem

Andei pensando que a minha necessidade de experiência está intrinsecamente – mas não apenas – relacionada com a necessidade de produção de sentido, que, por sua vez, se relaciona com a maneira como articulo as diferentes linguagens. Como seres sociais, temos a língua, a linguagem verbal como meio privilegiado de comunicação, mas há também outras linguagens, mais sensíveis, por meio das quais podemos estar no mundo. Sinto que meu desejo mais profundo, o que está no cerne de tudo ou o que inconscientemente pauta as minhas ações, é expandir as redes que intermedeiam a minha relação com o mundo, sofisticar o meu estar-no-mundo. A experiência seria então uma linguagem em si, a linguagem do meu corpo, um sistema próprio; o processo de transformação dos sinais em signos se dá pela experiência mesma. 
Sofisticar quer dizer aprimorar, refinar, e não ampliar, expandir. Sejamos honestas (eu comigo mesma): não adianta falar apenas do que está funcionando (a ampliação) – o importante e que deve s…

Este lugar existe e fica com a porta fechada dentro de mim

Falar dele é abrir a porta e observar, a uma distância segura, as culpas que dançam uma dança maligna ao longo de um labirinto. Falar deste lugar é olhar para ele sem me perder lá dentro. Entrar, no entanto, é cruzar o limite seguro entre o eu de todos os dias e o eu que fica preso neste labirinto. Hoje eu entrei. Eu entrei e a porta se fechou atrás de mim. Hoje eu olho as culpas bem de perto, dentro de seus olhos de pupilas dilatadas. Elas me tocam, me alisam, me abusam, me abraçam, me prendem, dançam comigo à força, me obrigam a sentir a materialidade de seus corpos, me obrigam a lembrar que elas existem e que basta abrir a porta e entrar para sentir com cada célula do meu corpo que elas estão lá, o tempo todo. Todas as culpas se reúnem no labirinto, todas, desde a minha mais tenra idade até o instante presente. Algumas já nem posso reconhecer mais, seja porque são muito antigas, seja porque não são tão fortes a ponto de sobreviverem numa materialidade concreta por muito tempo. Out…

Mais uma noite que vou dormir e não te escrevi

Mais uma noite que enterro a cabeça no travesseiro sufocada no dilema entre te dizer que não te esqueci apesar de todas as tentativas e saber que mais uma vez te buscar é inadequado, mais uma noite chegando à conclusão de que não sou exatamente quem pensava que era, que não estou no controle de nada, que não sou tão forte quanto eu pensava, que sou frágil, vulnerável, que sei que amanhã vou erguer a cabeça e vida que segue mas que quando chegar a noite mais uma noite eu vou deitar e lembrar de você e da vida que não vivemos juntas e dos planos que finalmente saíram das conversas de WhatsApp e que pareceram tão perto de se realizarem, as promessas nas quais acreditei e não acreditei ao mesmo tempo, que pareciam tão perto e tão longe ao mesmo tempo, perto porque você me olhava e me tocava enquanto me explicava passo a passo o que ia fazer para que pudéssemos ficar juntas, mais uma noite eu deito e lembro daquela tarde de inverno você assoprando um dente de leão e me dizia tudo o que eu…