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Sobre criar com fotos: uma possibilidade

Quando comecei esta viagem, um dos elementos do meu discurso era que não queria ser mais uma mochileira que larga tudo para sair viajando pelo mundo. A ideia de mochilar, de ser “nômade digital” está banalizada, idealizada, romantizada; mas, por outro lado, definitivamente não tenho muito do que me queixar em relação à minha sorte nesse percurso todo, então de certo modo romantizei um pouco sim a minha viagem. No fim das contas, acabei sendo mais uma mochileira que larga tudo e sai viajando por aí, postando fotos bacanas em lugares bonitos nas redes sociais, de forma bastante rasa.

No fundo, sei que preciso de mais, sei que preciso criar, que preciso transformar as experiências vividas em algo mais profundo como de fato as vivi. Estou a todo momento chegando a novas semiconclusões e agora, por fim, tive uma fagulha de ideia de como poderia traduzir esses insights em algum tipo de (e agora muito cuidado com esta palavra) arte.

A minha crescente necessidade de criar nasce de uma insatisfação (e eu morro de vergonha de confessar que estou insatisfeita com algo, já que tenho tudo que quero), de um não suprimento das minhas necessidades mais profundas ao apenas vivenciar as experiências e não fazer delas algo mais palpável. Eu não tenho claro palpável para quem, por isso, não tenho claro quem quero que seja meu público diante de qualquer coisa que eu venha a criar. Não sei se quero que sejam meus amigos, minha família, artistas, aspirantes a artistas ou intelectuais das humanidades.

O que sim posso identificar claramente é a necessidade de ser aceita em alguma instância, de ser reconhecida não apenas como alguém que 1) tem a coragem de renunciar à estabilidade e sair viajando sem data para terminar; 2) consegue manter-se bem nesse estilo de vida que escolheu; 3) disfruta da liberdade de estar viajando e de ter como maior preocupação “para onde devo ir no próximo verão?”; 4) apesar de todos os itens anteriores, está ciente de que nada é justo neste mundo e de que dispõe de um privilégio sem tamanho por poder se autorrealizar; 5) apesar de ter essa consciência, é capaz de manter-se firme em seu propósito, mas que também 1) sabe que essa viagem pode não ser só uma viagem, mas algo muito maior, com ressonâncias muito mais significativas do que apenas o ato de viajar em si; 2) tem meio caminho andado no sentido de ter clareza dos seus próprios processos; 3) tem recursos valiosos para produzir e transformar seus processos em algo palpável, como sua sensibilidade, sua formação e sua capacidade de expressar-se pela escrita.

Bom, como material reunido ao longo do meu trajeto, tenho vídeos, fotos e alguns escritos. Com os vídeos já estou trabalhando, mas de forma bastante descontraída, já que não tenho disposição e motivação para estudar mais sobre edição de vídeos, não quero investir meu tempo nisso, por isso estou apostando na espontaneidade das minhas produções. Com os escritos, o plano é escrever um novo livro – na verdade, continuar um que já tinha iniciado em 2013. Já com as fotos, que é o tema deste esboço, a ideia é escolher uma foto-chave de cada lugar pelo qual passei e trabalhar com alguns materiais que me chamam a atenção. Como ainda não comecei a testar, está tudo um pouco abstrato na minha cabeça, mas inicialmente o plano inicial é usar: papel celofane; papel pardo; aquarela;  mapas; recortes de revistas; materiais orgânicos; fotos da viagem.

Os primeiros materiais não sei bem ao certo porque os escolhi, é mais algo da ordem da intuição e resolvi apostar nisso. Acredito que só depois que tudo estiver na mesa e o trabalho efetivamente começar é que vou conseguir chegar à conclusão (ou à semiconclusão, rs) de que foi uma boa escolha. Se não for, começo de novo.

Já com as fotos a ideia é passar algo que vá mais além do aparente. De repente trabalhar com texturas, com padrões, com movimentos que se repetem, e a partir daí associar esses elementos com algo que me impactou nesse lugar. Com isso, posso puxar para uma reflexão mais profunda, que pode ter a ver com algum aspecto sociocultural do lugar, com meus processos internos ou mesmo com ambos.

Nesse sentido – e pensei nisto agora – sinto que tenho muito mais facilidade para desenvolver temas e reflexões sobre meus processos internos que são engatilhados por elementos externos que capto nos ambientes; no entanto, existe uma espécie de cobrança em mim de ampliar tudo que produzo, de aprender a caminhar do particular para o universal, afinal, esta é uma das maneiras de entender o que seja a arte. A minha desconfiança com a minha capacidade de fazer arte – seja ela de qual tipo for – reside justamente aí: nesse salto do micro pro macro, perpassando questões sociais que não posso deixar de observar e sentir. Duas obras que me fizeram um grande estrago no ego foram Grande Sertão: Veredas e Cem Anos de Solidão, que são tão completas, em que a tradução do particular para o universal está tão bem desenvolvida que parece que jamais vou chegar perto de escrever uma linha sequer assim. Mas tudo bem: eu prometi para mim mesma que ia finalmente sair dessa espiral interminável de falar sobre o quanto queria poder fazer essa tradução para iniciar uma nova etapa da vida em que começo a produzir e a tentar e a testar, em que vou parar com essa ladainha repetitiva e fazer algo de fato porque é isto que admiro nas pessoas e é isto, portanto, que quero para mim.

É possível que não haja nenhum inconveniente em que minha (nova possibilidade de) arte seja mais voltada para os processos internos, até porque tais processos são sempre motivados por elementos externos e estes, por sua vez, não deixam de roçar as questões socioculturais que tanto parecem importar a alguma dimensão minha, a dimensão que me cobra essa consciência.

Terminada essa digressão, voltemos às fotos: quero desconstruí-las. E quando digo isso não me refiro (apenas) a uma ação no sentido de desconstruir algo em seu campo conceitual, mas – e principalmente – desconstruir objetos, texturas, padrões, movimentos, materialmente mesmo. Recortar fotos e reposicioná-las usando os materiais que mencionei anteriormente: esta é a ideia inicial. Sinceramente não sei quão viável será fazer isto com as fotos que já tenho, afinal, eu ainda não tinha essas ideias e meu olhar, então, não estava muito refinado para identificar esses movimentos com os quais quero trabalhar agora. No entanto, se isto funcionar com o que já tenho, será um êxito, porque aí vou poder começar a tirar as fotos dos próximos lugares já com esse olhar, e vai me facilitar muito a vida.

Vou dar um exemplo bem claro de uma ideia que tive. Na pasta de fotos de Santo Antônio da Boa Vista, tenho umas fotos bem bacanas de mangas. Poderia recortá-las e reconstruí-las com os materiais que mencionei e, também, de repente, cascas de manga desidratadas. A partir desse elemento, a manga, poderia puxar um tópico característico desse lugar: o fato de que lá as mangas são abundantes, tanto a ponto de que muitas vezes apodrecem no chão e se perdem. Havia um projeto que não foi para a frente que visava a levar à cidade oficinas que ensinariam à gente local como produzir doces com as frutas nativas; esses doces poderiam ser vendidos em cidades vizinhas e, com isso, seria possível movimentar a economia da cidade e aumentar o poder aquisitivo de seus habitantes. Do ponto de vista socioeconômico, parece genial, mas há também o outro lado da moeda: será que os habitantes da Boa Vista de fato querem ou estão preparados para todas as mudanças implicadas nessa ação “civilizatória”?

Bom, este é um dos temas que eu poderia trabalhar ao produzir sobre a Boa Vista. Assim, seria um trabalho que combinaria o visual com a escrita. Poderia ter um Instagram para publicar apenas os trabalhos visuais e, no meu blog, publicaria as fotos com o texto correspondente. Isto seria possível nos lugares em que de fato há um aspecto sociocultural para trabalhar; com relação, por exemplo, às maravilhosas praias do norte do Rio de Janeiro já não seria possível, porque não me lembro de ter tido grandes reflexões nesse sentido enquanto estava lá. Aí, nesse caso, eu poderia de fato apostar nos trabalhos a partir de processos internos. Trabalhar com as metáforas, com os jogos de linguagem, tentar voltar a escrever poesia. Por exemplo, quando criei o cenário onde me sinto protegida durante minhas sessões de Reiki, me baseei na paisagem de Arraial do Cabo, a areia branca, suave, o mar mais azul do que qualquer outro azul que eu já tenha visto, uma beleza que, dizíamos D e eu, estragaria todas as praias que veríamos depois disso.

Felizmente esboçar estas ideias está de acordo com as minhas expectativas de dar forma a algo latente em mim; parece que é por aí que finalmente vou poder fazer das minhas piras algo – bom, a primeira palavra que me veio e até cheguei a escrevê-la foi útil, mas útil não é a melhor definição. Talvez seja preciso escrever um pouco mais para tentar chegar ao cerne desta inquietude e entender o que, afinal, eu quero com tudo isso, entender por que não posso estar satisfeita com apenas estar viajando e vendo lugares lindos e conhecendo pessoas novas e etc.

Outro ponto importante é entender por que inicialmente escolhi trabalhar com recortes. Acredito que tenha a ver com o fato de que não tenho inclinação para vários tipos de manifestações artísticas, como pintura, arquitetura, escultura ou desenho, por exemplo, mas as artes plásticas me atraem e de certo modo sinto que os recortes me permitem trabalhar mais livremente com recursos já pré-elaborados. Minha (possível) arte, então, consistiria em justamente recompor, reposicionar, reconstruir esses recursos a partir da experiência vivida, meu olhar sobre essa experiência, a consequente reflexão e, por fim, a criação, que seria a última etapa desse processo. Com isso, eu poderia criar– e aqui também tenho dificuldade de escolher a palavra adequada – um artefato? um produto? um objeto? uma obra? que refletisse, que finalmente traduzisse visualmente o meu processo de viver, experimentar, observar, refletir e criar.

Contudo – e isto também me ocorreu agora, enquanto escrevo – desde que me surgiu, a ideia de uma (possível) arte visual já veio combinada com a escrita, seja no âmbito da literatura (tentar escrever uma poesia) ou em algo mais informacional (escrever sobre o lance das mangas em Boa Vista). Isto se deve à minha insegurança de surfar por um campo sobre o qual tenho tão pouco domínio como as artes plásticas e a prévia certeza de que uma produção exclusivamente visual não caberia em si, não seria o bastante, e necessitaria estar aliada a um elemento escrito para ver-se completa. Isto também tem muito a ver com a minha percepção estética do meu próprio trabalho, ou melhor, da desconfiança que tenho da minha capacidade de criar algo que esteja completo conceitual e esteticamente. É a minha mesma desconfiança em relação à escrita, e talvez o que aconteceu no meu inconsciente que me cuspiu essa ideia do nada foi a esperança de que unindo dois universos artísticos eu finalmente encontraria a perfeição que tanto almejo e da qual sempre me vi tão distante.

Cheguei a pensar em criar um novo blog para publicar apenas estes trabalhos, como se fossem algo à parte na minha vida, mas agora acredito que seja desnecessário, afinal, meu blog é um espelho de mim, dos meus ciclos e processos, e é também um repositório de todas as minhas entediantes lamentações literárias. Se este projeto funciona – e eu particularmente sinto muita esperança que sim, nem que precise tentar e retentar um milhão de vezes – será muito interessante observar o caminho percorrido desde quando eu tinha o recurso estético, mas não tinha o recurso conceitual, passando pelo momento em que os dois começaram a se unir, descrevendo a minha dificuldade de tradução e, por fim, o resultado de toda essa caminhada.


Isto porque me sinto cada vez mais avançada no intento de olhar para trás sem vergonha ou culpa de quem foi ou do que fiz, de entender que cada ciclo envolve um processo e uma semiconclusão, e que essas semiconclusões não chegaram ao fim e nunca vão chegar até que eu morra – o que vem depois eu não sei, então vamos partir do pressuposto de que não haverá novas semiconclusões após minha morte física. Cada insight, cada pira, cada semiconclusão a que chego em determinado período ou contexto da minha vida não deve ser motivo para lamentar ou sofrer, mas alimento para criar e para chegar a mais e novas semiconclusões, que, muitas vezes, podem complementar semiconclusões anteriores, mas também correm o risco de contradizê-las. Talvez ter clareza dos insights que contradizem insights anteriores seja importante para aplicar mudanças na vida prática, corrigir padrões destrutivos, sair de algum tipo de inércia. Já os insights que complementam insights anteriores são aqueles que intensificam a minha experiência de estar viva, são o que dão sentido à minha existência, a linha que conduz a minha trajetória, o cerne, a substância primordial que está presente em cada capítulo, cronológico ou não, da história da minha vida. É a partir desses insights intensificados ao longo do tempo que pretendo desenvolver isto que quero chamar de: minha arte.