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Não referencialidade, contornos, recortes

Depois de alguns (poucos) dias enclausurada em casa e absorta na análise da minha cosmologia, saí para beber com LCL e seus amigos e foi um baque. 

O primeiro impacto, na verdade, foi antes do “carrete”, quando eu e LCL sentamos na grama do Parque Forestal para fumar um. Acessei uma vez mais aquele lugar dentro de mim que me atormenta com paranoias sobre a maneira como estou me portando, a interminável dúvida sobre se estou agindo estranho, se estou quieta demais ou se estou falando bobagem. Eu não sei bem se meu ingresso nessa sala de perturbações psíquicas quando fumo se deve ao contexto em que estou no momento, à qualidade ou espécie da erva ou a alguma predisposição minha. A última hipótese acredito que seja a mais improvável, porque ontem eu vinha de um estado de espírito bastante equilibrado, embora vigoroso por causa das ideias e vontade de criar que ando sentindo, então a princípio não faria sentido a maconha intensificar sensações perturbadoras já presentes em mim. Talvez tenha a ver com o contexto e com o conceito de não referencialidade, pois, puxando na memória, as vezes em que me senti tão paranoica foram as que fumei sozinha em casa, em 2015, quando D estava de preceito, e depois quando fumei com pessoas desconhecidas ou que haviam chegado à minha vida muito recentemente.  Pelo que me lembre, não tive essa sensação nenhuma vez fumando apenas com D ou com L, por exemplo, ou mais recentemente em San Pedro com A e V, porque já havíamos avançado um bocado no vínculo de amizade. Será isso, então...? Acessar o não referencial com pessoas que também não são meus referenciais é tão inquietante porque me deixa excessivamente à deriva? Afinal, não há nada em que me agarrar, apenas a esperança de que o efeito passe logo e eu volte a sentir os meus contornos. De todo modo, o fato mesmo de estar consciente disso enquanto acontecia tornou a experiência menos traumática, e eu pude acionar recursos para me sentir um pouco mais confortável.  

O segundo impacto, e que se relaciona fortemente com o primeiro, é o desconforto social que sinto quando saio com gente desconhecida. A experiência de me encontrar com pessoas pela primeira vez em um país que não é o meu, falando um idioma que também não é o meu, com o histórico que tenho de timidez, a minha expressão corporal pouco desenvolvida, ainda bastante reprimida apesar de todos os esforços em sentido contrário... Ainda é um desafio bastante desconcertante. 

Apesar de só poder dar sentido à minha vida vivendo à deriva, sem quase nada que seja demasiadamente seguro ou estável, é evidente que não posso roçar a outra extremidade. Algo que compreendi este ano foi a importância das raízes, de alguma estrutura, de alguma organização, de alguma familiaridade. Ser totalmente desgarrada, para mim, é como tomar dois ácidos, é viajar tão forte que não existe um suporte seguro onde eu possa me agarrar e observar o que está acontecendo, absorver, refletir, entender, e até mesmo desentender e desmontar para montar novamente quantas vezes forem necessárias. Eu preciso sempre de alguma lucidez – que só é possível dentro de um espaço de referencialidade – para poder executar esse trabalho de formular hipóteses, confirmá-las, refutá-las e, com isso, poder aplicar mudanças necessárias na vida prática, em especial no campo dos relacionamentos. 

O terceiro impacto, portanto, foi este: eu estou vivenciando dias de total conexão comigo mesma, aconchegada nas minhas raízes, e totalmente à vontade ao explorar as possibilidades deste recorte de vida, da mesma maneira que explorei ao máximo os sentires e as potencialidades de quando estava perdidamente apaixonada por L. É por isso também que tenho que dizer a V que não se preocupe com a possibilidade de eu querer ficar sozinha, de forma até obstinada, e acabar desperdiçando uma possível paixão. Cada recorte de vida tem suas potencialidades e agora eu estou justamente no processo de viver ao máximo a experiência de estar sozinha e estar absolutamente à vontade com esse estado, e estar sozinha me permite ver melhor os meus contornos dentro desse exercício de definir a minha individualidade depois de haver me fundido tanto às últimas paixões que vivi. E tudo isto, é claro, não impede que eu esteja aberta a alguma possível paixão que valha a pena; daí eu apenas mudaria o recorte, ou melhor, tentaria harmonizar o novo recorte com o anterior.