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Relato de uma analfabeta política



Eu era uma analfabeta política. Política, para mim, era um palavrão. Até um tempinho atrás, eu não sabia quem eram os candidatos a presidente das eleições deste ano. Todas as vezes que votei, nas eleições anteriores, foi sem ter estudado o panorama político atual e com o sentimento de que nada estava fazendo efetivamente além de contribuir para um sistema falido, corrupto e sem esperanças, que nos dá a ilusão de estar participando ativamente de um processo democrático quando, na realidade, apenas perpetuamos uma condição que não temos poder de alterar. Ou seja, nunca acreditei que o que acontece na vida política do meu país fosse ser reflexo do meu voto. Sempre tive a sensação de que política não é para mim, porque parece distante e inacessível. Sempre tive a convicção de que, quando deixasse esta vida, o mundo estaria ainda pior e mais brutal do que quando cheguei a ele. E também cheguei à conclusão de que renunciar à vida política conscientemente já constituía em si uma posição política - no que, de fato, ainda creio. Porque não é por meio da política que pretendo empreender ações que impactem a coletividade. Tenho outros planos que me soam mais palpáveis e satisfatórios do que participar de movimentos estudantis, partidos, sindicatos. Não pense que estou desmerecendo tais atividades; apenas, por ora, não me vejo funcionando nesses ambientes.

E por que é que o jovem no Brasil não se interessa por política? 

Talvez porque partilhem da mesma impressão minha: é inacessível. Talvez porque vejam os debates e concluam que todos prometem demais e realizam de menos. Talvez porque acreditem que todos são corruptos e nenhum é apto para solucionar os conflitos sociais, econômicos, étnicos e ambientais de nosso país. E mesmo aqueles que apresentam propostas interessantes e têm um passado considerado limpo talvez um dia sejam forçados a entrar no universo de maracutaias políticas para chegar ou se manter no poder. É como se não houvesse saída, afinal, segundo o relatório da organização Transparência Internacional sobre a percepção de corrupção ao redor do mundo, divulgado em 2013, o Brasil ocupa o 72º lugar entre 177 países analisados.¹ Diante da realidade diária de escândalos de desvio de verbas e outros escarcéus políticos, é quase impossível confiar na máquina do Estado. 

Outro ponto que considero importante é que não lembro de ter havido na escola um ensino político efetivo. Aprendemos história, Guerra Fria, capitalismo x comunismo, mas não se ensina como funciona o processo eleitoral, o papel dos partidos políticos, o preenchimento das vagas para os cargos do executivo e das cadeiras legislativas. Há quem defenda a volta da disciplina Educação Moral e Cívica nas escolas, mas esta foi instituída em plena ditadura militar e nada tem a ver com o que proponho aqui, pois visava fortalecer a unidade nacional e aprimorar o caráter com base na moral e na dedicação à família e à pátria. Não - o que acredito é que deveria haver um curso de Iniciação Política que mostrasse aos jovens o que de fato representa o seu voto, como funcionam os sistemas partidários, quais os planos de ação de cada partido e o que implicam. Inclusive, mostrar quais manobras políticas dão abertura para que a corrupção, uma das maiores preocupações da sociedade, se efetive, e a partir daí que atitudes poderíamos tomar para evitá-la. Seria importante não apenas incitar a população a exercer seu direito/dever democrático indo às urnas "votar consciente", mas oferecer, desde a educação básica, um ensino que nos informe sobre como funcionam os mecanismos do poder, tão distantes do cidadão comum. Um argumento contra? A apologia que os professores poderiam fazer a este ou aquele partido, a esta ou aquela ideologia. 

Votar consciente é o conselho mais abstrato que alguém pode receber no Brasil, porque em geral ficamos perdidos entre os mais de trinta partidos legalizados no país e suas inúmeras promessas. Não me parece que escolher um candidato por seu passado limpo ou por ações empreendidas na comunidade a que você pertence signifique votar consciente. Acho que deve haver, antes, uma reflexão bastante aguda sobre o que opinamos em relação a cada principal questão discutida pelos candidatos. Vou dar um exemplo.

O tal do Pastor Everaldo defende com unhas e dentes os valores da família conforme está na constituição brasileira. Entre esses valores, podemos citar: casamento unicamente entre homem e mulher; proibição do aborto sem necessidade de plebiscito; criminalização das drogas; e restabelecimento da ordem e autoridade do policial e redução da maioridade penal no intuito de reduzir a violência que vem atacando a "família brasileira". No universo do Pastor Everaldo, o cidadão honesto e trabalhador está enclausurado dentro de casa, dominado pelo medo e a insegurança, enquanto as ruas são controladas pelos bandidos. A solução, então, é prender delinquentes e drogados enquanto a família -  lembrando que família, para ele, só se faz entre homem e mulher - respira aliviada e vive sua vida honesta. 

Bem, esses tais valores da família atentam gravemente contra os direitos humanos. O direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo. O direito da comunidade LGBT de ter uma vida como qualquer outro cidadão, sem direitos a mais nem a menos que um heterossexual. Já os direitos humanos não ferem os valores da família, pois se você é contra o aborto, então não aborte; se você é contra casamento homoafetivo, então não se case com um homossexual; se você é contra as drogas, então não use drogas. É simples. 

É claro que não é simples. Mas veja bem, proibir o casamento gay ou a adoção de crianças por casais gay, como propõe o Pastor Everaldo, inibe a formação de inúmeras novas famílias. E o senhor Pastor não adora famílias? Adora, mas famílias tradicionais... E o que é ser tradicional em pleno 2014?

Além do mais, proibir não faz com que as coisas deixem de existir. Mulheres vão abortar, gays vão se casar e pessoas vão se drogar, você querendo ou não, e você será obrigado a conviver com isso, sempre, sendo proibido ou permitido. O problema é que a proibição e a criminalização retraem importantes discussões que deveriam ser levadas a cabo, ao invés de simplesmente empreender uma guerra contra as drogas, contra os gays e contra o aborto. Já sabemos que, por esse caminho, nada de positivo foi alcançado. 

Os três principais candidatos à presidência, Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves, pouco ou nada falam sobre direitos humanos e descriminalização das drogas, focando-se principalmente em discutir planos econômicos e sociais, os quais, muitas vezes, são de difícil compreensão para o cidadão comum, que nem sempre é capaz de ver os resultados a longo prazo desta ou daquela proposta. 



Se assumirmos a generalidade de que todos os governantes são corruptos e os que não são um dia se tornarão, deixando de lado essa questão, é preciso encontrar outros critérios de escolha para "votar consciente". Votar consciente requer estudo, análise, reflexão, pensamento crítico. E não apenas estudar temas estritamente políticos. É estudar o mundo. É ter tato, sensibilidade, inteligência emocional. É levar em conta a alteridade. É sair, pouco a pouco, do status de analfabeto político. E dá uma puta preguiça se aprofundar nas coisas desse jeito, não é? Eu sei.



¹ Fonte