11 de setembro de 2014

Impotência

Recentemente assisti a um filme comovente chamado O escafandro e a borboleta. O nome já me intrigava há tempos no Netflix, na categoria Estrangeiros, mas só decidi ver depois de encontrá-lo na lista dos 1001 filmes que você deve ver antes de morrer. Aí dei uma chance.

A história é a de um editor de revista famoso e rico, que sofre um acidente cerebral numa condição raríssima chamada Síndrome do Encarceramento, em que a pessoa tem todos os movimentos do corpo paralisados, exceto os olhos. E a atividade cerebral continua normalmente! Então o cara enxerga, ouve, pensa, lembra, raciocina, cria, mas não pode falar nem mover um músculo. Nada. Que sensação de impotência! O filme é maravilhoso, tem uma fotografia invejável (y yó qué sé para fazer análise cinematográfica?), e quando o protagonista decide escrever um livro (!) utilizando um método de comunicação muito peculiar, meus olhos encheram de lágrimas. É assim: a moça, cuja especialidade esqueci o nome, vai falando as letras do alfabeto, porém em ordem de frequência de uso, e o protagonista vai piscando nas letras que quer escrever. 


Acabei me lembrando também daquele filme, Intocáveis (2011), que segue a mesma linha de drama, e refleti: ah, bacana, mas e se o cara que fica numa condição dessas não tem... grana? Porque nos dois filmes os protagonistas são milionários e têm condições de contratar enfermeiros, fisioterapeutas e toda a sorte de especialistas da saúde, 24h disponíveis para cuidá-los e paparicá-los. A história de um paralítico pobre: não me lembro de ter visto nas telinhas. Alguém tem alguma indicação? 

Atualmente estou lendo Angústia, do Graciliano Ramos, um romance escrito na prisão nos anos 30. O ambiente literário é de escassez, sujidade, miséria - é outra história.

A gente passa a vida surfando nessas ambiguidades, não é?

De um lado eu assisto a um filme desses e me comovo, o filme flui livremente, no final eu choro e então minha vida continua. Mas ler algo no naipe de Angústia, lento, áspero, seco como uma lixa deslizando no meu espírito, a vontade muitas vezes é a de fechar o livro...


"Tive um deslumbramento. O homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Esta convicção afastou qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pessoas que aparecessem ali seriam figurinhas insignificantes, todos os moradores da cidade eram figurinhas insignificantes.

Tinham-me enganado. Em trinta em cinco anos haviam-me convencido de que só me podia mexer pela vontade dos outros. Os mergulhos que meu pai me dava no Poço da Pedra, a palmatória de Mestre Antônio Justino, os berros do sargento, a grosseria do chefe da revisão, a impertinência macia do diretor, tudo virou fumaça."

E quando a impotência não é física, mas social? E quando o cara, de fato, só pode se mexer pela vontade dos outros?

Ainda não consegui terminar de ler Angústia.

O nome faz jus.

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