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Foi apenas um sonho

Foi apenas um sonho a ideia de ir para Paris encontrar um sentido para a vida. A divergência de prioridades fez com que, mais uma vez, April fosse relegada à condição de dona de casa. No fim das contas, quem tomou a decisão definitiva e dispôs o futuro, sem espaço para discordância, foi o homem. Frank é que continuaria ocupando o lugar de chefe de família na hierarquia. Frank é que traria o sustento para casa. 

Além disso, entre a liberdade e a segurança, Frank escolheu a segurança. A estabilidade de um emprego fixo, com um salário alto e reconhecimento profissional. O conforto de viver num bairro melhor. A comodidade do conhecido. A segurança de continuar sentindo-se homem. O homem da casa. O homem provedor. O homem que dá a cartada final. O preço dessa segurança patriarcal e econômica é abrir mão do novo, da nova disposição de papéis, do salto para o desconhecido que os dois estavam prontos para dar, até  Frank receber uma tentadora oferta de promoção na empresa em que sempre trabalhou. Desempenhando uma função da qual nunca gostou, é claro. Seu trabalho é maçante, é brochante, mas, a partir da promoção, a recompensa financeira parece ser o suficiente para uma vida feliz. Parece.

Apenas para Frank, pois para April não faz diferença. Ela já havia se dado conta de que o problema não era somente a condição social da família, mas o fato de que tanto ela como Frank estavam subestimando possíveis potências dentro de si. Não precisavam parar de viver só porque tiveram filhos. Ou levar uma vida mediocremente banal. April estava disposta a inverter os papéis, a trabalhar como secretária em Paris para que Frank tivesse tempo e oportunidade de descobrir sua verdadeira essência. E April finalmente teria um papel ativo nessa relação. Ela não vê problema algum em sustentar a família enquanto Frank fica em casa, lendo e refletindo sobre como trabalhar com o que realmente gosta, porque para ela o mais importante era que ambos encontrassem um sentido maior em viver, para além do corriqueiro processo: ter um emprego, casar, ter filhos e uma casa bonita. Muito a frente de seu tempo, April sabe que isso jamais satisfaria sua necessidade de sentir o sangue correndo nas veias, e pensou que seu marido compartilhasse da mesma necessidade. Até certa altura do filme, o casal dá a impressão de estar de acordo sobre tentar o diferente, sobre deslocar-se para um outro espaço, para uma nova realidade em que a meta não se limitaria a manter uma vida segura, mas explorar as múltiplas possibilidades que estão latentes entre as camadas da realidade, apenas esperando uma chance para se manifestarem. Mas agora April está sozinha nessa.

No início do filme, April participa de uma peça teatral que não obtém êxito e sente-se profundamente frustrada. Depois disso, nada mais se fala sobre ser atriz, nem como ela foi parar ali, e a personagem passa o resto da trama cuidando da casa, da comida e dos filhos. Talvez isso mostre que sempre residiu nela uma força criativa que quer gritar e extrapolar os limites de seu corpo, mas que, com a vida doméstica, fica enclausurada, impossibilitada de se concretizar. O sonho de sair de seu país, empreender essa imensa mudança, e passar a trabalhar fora, alterando o paradigma e assumindo um papel operante na vida, lhe fazia ter esperanças de que essa potência viesse a eclodir. 

No entanto, em nome da estabilidade financeira e manutenção do seu papel de homem, Frank opta por permanecer no "vazio sem esperança" de suas vidas ao aceitar a promoção profissional. O personagem mais lúcido do filme, que é considerado "louco", captou o abismo que há entre viver um vazio sem esperança e viver um vazio com esperança. É curioso como pessoas que enxergam com clareza e captam ambiguidades são comumente consideradas insanas. E enviadas para hospícios.

April teve a possibilidade de ser atriz e interpretar uma vida que não era a sua, e depois a possibilidade de ir para um país que não era o seu e desempenhar um papel que também nunca havia sido o seu. Essas grandes mudanças que às vezes sofremos na vida são importantes geradoras de energia: energia para sonhar, acreditar, fazer e, principalmente, ser. Mas, em ambas as situações, April foi frustrada e enviada de volta ao seu "lugar". Só que é impossível sobreviver sob tamanha impotência. A única solução é a morte. Não apenas a sua morte, mas também do ser-potência que carrega dentro de si. O filho, fruto da fertilidade, símbolo da criação, do novo, é morto como sinal de que a esperança foi apenas um sonho...

"É preciso ter força de caráter para se viver a vida que se sonha..."


Título: Revolutionary Road (Original)
Ano produção:  2008
Dirigido por: Sam Mendes
Estreia: 30 de Janeiro de 2009 (Brasil) 
Duração: 119 minutos
Classificação: 14 - Não recomendado para menores de 14 anos
Gênero: Drama, Romance
Países de Origem: Estados Unidos da América