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Disciplina é liberdade

Eu deveria não apenas voltar a escrever, por maior que seja a desconfiança em relação à minha própria escrita, como impor uma disciplina nessa prática. Eu me considero moderadamente disciplinada com, por exemplo, os estudos, o trabalho, a alimentação, os exercícios físicos. Mas quando se trata de trabalhar, de desenvolver a minha arte, por mais que eu saiba que deveria praticá-la diariamente, não consigo ter um método, uma organização. Eu sei que para chegar lá, devo trilhar um caminho, mas é como se, no fundo, eu esperasse chegar lá por milagre. Ah, não, eu não vou chegar lá por milagre. Eu devo me lembrar do Kerouac e seus diários de produção, e seguir seu exemplo. Estabelecer uma meta de palavras diárias ou algo assim. Estabelecer metas é tão mundo corporativo que eu tenho até tremeliques. Eu tenho em mente um livro de contos que, inclusive, já iniciei, mas por falta de responsabilidade artística está parado há semanas, aguardando em estado de... Inércia. Uma infinidade de ideias que tive para inserir nele já se perderam, porque não as registrei, nem mesmo numa notinha de celular. Onde eu espero chegar dessa forma? Eu sei, eu sei, eu simplesmente não consigo acreditar na minha literatura. Eu acredito em mim, na minha vida, nas minhas escolhas, na minha fé, mas no que escrevo... É praticamente impossível. Por que é que permaneço tão incapaz de executar o traslado do meu espírito?

E isso já vem de anos, desde que decidi que queria escrever. Por quê? Nunca estive satisfeita com meus escritos por um tempo considerável. Palavras que por um instante pareceram refletir com perfeição as impressões internas de repente tornam-se odiosas, tornam-se abominavelmente banais: eu simplesmente não consigo me desprender da banalidade: ela pega em mim como um troço pegajoso, como um chiclete que gruda no cabelo e que, quanto mais eu tento tirar, pior fica a situação. Não apenas o meu vocabulário, que por vezes pode até me surpreender, mas pelas ideias, eu não consigo dar uma forma às ideias, uma forma original, uma forma convincente. Eu não consigo dar forma! Às vezes a sensação que tenho é que o único material possível para mim é essa interminável discussão sobre a impossibilidade de escrever. Vasculhando escritos antigos, muito do que encontro é essa mesma rabugice literária. Literária? Recentemente parida do curso de Letras, sinto que cometo uma blasfêmia ao chamar qualquer coisa que escrevo de literatura. Não encontro lugar para mim. Antes eu tinha a sensação de que não havia lugar para mim no mundo, o mundo prático, sabe?, mas agora estou mais bem resolvida quanto a isso e sim, eu tenho um lugar no mundo, eu tenho o poder de contruí-lo com meus próprios tijolinhos. Mas meu lugar na literatura, este eu não consigo encontrar. Não é tão preocupante quanto pode parecer à primeira vista: já tive momentos muito mais angustiantes por simplesmente não conseguir escrever ou por escrever qualquer coisa que não satisfazia minhas expectativas artísticas e intelectuais. E justamente essa falta de preocupação me preocupa: por que é que agora me parece tão natural me entregar a uma rotina de absorção, absorção de filmes, documentários, livros, debates, cursos, manifestações espirituais, música e tudo o mais... A questão é que em algum momento eu vou ter que regurgitar tudo isso. Quando? E por que é que eu TENHO QUE? Quem me disse que eu devo fazer isso? Bom, tem um lado meu que cobra essa responsabilidade com o mundo. Eu não sei se conseguiria passar o resto da minha vida nesse movimento unilateral de assimilação. Eu me sinto impelida a FAZER algo. A devolver. A botar de volta, melhorado. A segunda questão é não saber se esse caminho é realmente a literatura. Se eu estivesse predestinada a ser escritora, será que alimentaria tantas dúvidas, tanta desconfiança? Se esse fosse o caminho, eu não deveria simplesmente sentar aqui e escrever, escrever contos, romances, críticas, ao invés de mais um desabafo que não vai me levar a nada? E bem, note que estou me contradizendo, porque comecei este desabafo justamente para ver se consigo botar minha mente para funcionar em termos artísticos, para ver se me sai algo esculpido, para ver se de repente desta tela eu pulo para outra com alguma ideia de forma. Será que eu tenho uma missão? Não me inclino muito a acreditar em missão, mas será que minha vida fluiria ainda mais fácil se eu tivesse um lugar determinado para ir? Será que achar que devo ser escritora é uma maneira que encontro de me estabelecer uma missão e, portanto, ter um lugar predefinido para ir? Bem, minha vida está fluindo bem, sinto que estou dando passos acertados, que estou cuidando do que precisa ser cuidado, na maior parte do tempo sinto uma leveza, uma confiança, estou nos meus dias de esperança, apenas ameaçados por uma sensação de ansiedade que bate à porta, de vez em quando. Lembro-me de no ano passado ter vivido dias de extrema agonia, pela ansiedade, que me paralisava, eu tinha pensamentos terríveis, sensações entorpecedoras, e hoje pareço ter afinal tomado as rédeas de mim mesma. Claro que não tenho o controle total, é claro, mas tenho integrado experiências que sinto que me deixam cada vez mais consistente. É engraçado pensar em consistência e ao mesmo tempo em flexibilidade, consistência remete a algo duro, imutável, firme, rígido, mas a verdade é que encontro consistência de ser na flexibilidade. É pela resiliência que quero viajar e viajar pelo mundo, ser colocada de frente às mais diversas e intricadas situações para resolver problemas e desenvolver regiões minhas que não quero que atrofiem, exatamente como acontece com o corpo: foi só fazendo dança, yoga, pilates e alongamento que descobri a infinidade de músculos que compõem o meu corpo, muitos dos quais eu simplesmente ignorava a existência. Pensar no tanto de coisas aí pelo universo cuja existência eu simplesmente ignoro me dá um certo desespero: é por isso que quero viajar. Ontem fui ao homeopata pela primeira vez e ele me fez uma série de perguntas. Uma delas foi: quais são seus medos? Demorei para responder porque sinceramente não sei dizer, assim de prontidão, quais são meus medos, mas eu poderia ter respondido: seguir a vida ignorando a existência de coisas, dentro e fora de mim. Que medo que eu tenho de conhecer pouco, de saber pouco, de sentir pouco, de entender pouco... É, que medo que eu tenho da escassez de coisas que não posso tocar. O homeopata me perguntou se eu tenho mágoas, eu respondi que não, mas vou ter uma imensa mágoa comigo mesma se um dia eu simplesmente desistir de explorar o mundo, o universo, a vida, suas múltiplas possibilidades... O que eu gostei nos diários do Kerouac foi a impressão de que ele superou as suspeitas literárias que me atormentam, quando penso sobre, por mais oscilações que o tenham balançado, ele me parece ter sempre acreditado no que escrevia. Eu acredito no que escrevo? É isso que devo buscar? Eu sei que em termos de conteúdo, em termos de substância, sim. Mas e a forma, meu Deus, e a forma? Como eu fujo do lugar-comum, do clichê? Apesar da minha formação e das coisas pelas quais me interesso, muitas não muito populares, tudo o que eu produzo parece mais do mesmo. E isso é o meu crivo crítico particular quem diz. Mas, também, quem mais poderia consultar? Se atualmente tenho pouquíssimo material minimamente consistente para apresentar. A partir de quando vou acreditar no que faço? Aliás, devo continuar fazendo? Será que existe outra manifestação artística com a qual eu possa me expressar mais livremente? Alguma arte que não me incute tantas dúvidas. Ou será que é justamente essa dúvida que alimenta qualquer arte que seja? Pois tampouco confio na certeza. Que será que espero, algum sinal, algum sinal divino a me dizer que é isso mesmo? A revisão e a tradução técnicas não são exatamente um substituto artístico para a literatura, apesar de tudo elas me mantém estável, eu não me pego perguntando "sou revisora? sou tradutora?"; eu simplesmente executo e sei que ali há um trabalho de revisão e ali há um trabalho de tradução. Mas, quando escrevo, não posso dizer: há ali uma obra literária. Será que quatro anos e meio de graduação e eu não entendi nada? O que eu deveria entender? Se reconheço uma série de deficiências na minha formação, e vou atrás de tirar o atraso, e ainda assim me sinto tão intelectualmente pobre... É um bom sinal? ~Só sei que nada sei~? E não apenas quanto à arte, quanto à literatura. Tem horas que eu sinto que não sei nada, absolutamente nada de nada. E nem poderia saber? O cérebro tem espaço para tudo que eu gostaria de aprender? Fisiologicamente seria possível alcançar um mínimo ideal de conhecimento? Eu entendo, de fato, o que vejo, leio e absorvo? Existe uma maneira correta de absorver? E se tiver, quem foi o infeliz que determinou que há uma maneira correta de entender? Não pode haver. Um dia usei o termo "racional" de forma equivocada e me senti mal por isso. Há uma forma correta de utilizar as palavras, caramba. Mas as palavras... Primeiro que elas não encerram um significado fechado. E segundo que, ao arrancá-las do paradigma da língua e levá-las para o âmbito da fala, todo um trabalho subjetivo foi feito aí. Bem, pode ter sido um trabalho objetivo no sentido de racionalizar um sentimento, uma ideia, por meio da linguagem, mas a escolha desta e não de outra palavra reflete inevitavelmente a influência da subjetividade. Saber ou não usar a palavra no contexto ideal já disse muito sobre mim... E naquele momento eu me senti inclinada a estudar o dicionário, estudar bem estudadinho, afinal, fiquei envergonhada por eu, graduada em Letras, errar o emprego de uma palavra, e ainda por cima uma palavra tão corriqueira como "racional". Eu havia dito "racional" no sentido de destituído de religiosidade ou espiritualidade e, espera aí, foi um equívoco e tanto, levando em consideração minhas últimas transformações. Existe racionalidade na espiritualidade sim, e parece que eu dei a entender que espiritualidade era algo disparatado, sem embasamento ou... Sei lá o que eu dei entender, mas sei que não me expressei bem. Eu acho que eu não me expresso bem, por mais que eu tente. Eu não sei bem por que comecei a escrever isto, espero descobrir em breve. Lenta, eu sou extremamente lenta para a maioria das coisas, sabia? Meu metabolismo é lento, minha aprendizagem é lenta, eu vivo como que num ritmo que não é o do mundo que me cerca. Acho que eu vivo no ritmo da natureza, se ela tiver um ritmo. É preciso plantar, adubar, regar, esperar o sol e a chuva, e ter paciência, muita paciência. Talvez... Eu tenha aprendido a aceitar meu próprio ritmo. E uma das minhas ambiguidades inerentes é ser lenta não apenas num mundo acelerado, mas também num sonho de futuro que envolve um sem número de elementos que não vão acompanhar a lentidão da minha caminhada. A não ser que o palestrante que minha amiga ouviu tenha razão: ele disse que a nossa é uma geração que pode viver até 150 anos. 150 anos, cara!? Eu realmente não sei se tenho disposição para viver tudo isso, né, mas digamos que a ciência e a medicina progridam a esse ponto, espero que até lá ciência e espiritualidade possam caminhar juntas. A ideia de eternidade antes me assustava um bocado, porque me sentia mental e fisicamente cansada demais para pensar que a vida jamais acabaria. Mas hoje, mais saudável, mais disposta, mais viva, acho que eu toparia um pouquinho de eternidade, sim. Com tanto tempo disponível, talvez um dia eu finalmente ultrapassasse essa linha que me separa de fazer verdadeira literatura. Ou será que, sabendo que tenho o infinito em minhas mãos, eu continuaria procrastinando, ad infinitum? É engraçada a sensação de que o tempo não existe, de que você pode voltar ao passado ou pular ao futuro com um simples querer - ou, mesmo, sem querer. É a sua mente que te leva. Que peças prega a mente, hein? Cuidado com o que você está acessando, mulher! Nossa, tem tanta coisa escondida seria possível esgotar o inconsciente se passasse uns anos presa, sem acesso a absolutamente nada? Ao acaso descobri um som maravilhoso, estava nos relacionados de Tycho, ouço agora enquanto escrevo e me estimula. The Glitch Mob. Mas o que eu queria mesmo era deitar uma taça de vinho, deitar na cama e escutar de fones, com o volume no máximo. Talvez viajasse para outra dimensão. Esta é a minha questão: como viajar sem um meio de transporte, né, cara? Só com muita prática, muita paciência, muita disciplina. Assim que terminar minha purificação do Reiki, vou dar início a práticas de meditação, isso sim. O pior é pensar que a maior parte da minha vida eu passei sem o menor interesse nos mistérios. Fazia chacota da metafísica. Grande científica que sou, claro. Por que é que eu sinto que: ainda bem que saí dessa!..? Porque fluo assim, mais expansivamente. Nunca me expandi tanto. Não estou com o livro aqui agora, mas há um trecho dos diários do Kerouac em que ele diz sobre um outro cara "ele não é meu tipo de escritor, mas é meu tipo de pessoa". Eu não sou o meu tipo de escritora, mas sabe o que é sentir que você é exatamente o seu tipo de pessoa? É fenomenal, você vive sem o peso de ser quem se é. E quanto ao termo "purificação", palavra que acabei integrando inconscientemente ao meu vocabulário para me referir a esse ritual do Reiki, não estou de acordo. Purificação me remete a moral, a expiação de pecados... Li em alguma apostila de Reiki que não existe energia boa nem energia ruim, apenas energia bem ou mal conduzida. Então é muito mais um trabalho de habilidade de condução do que de limpeza. Conduzir para dentro de mim o que eu quero, e para fora de mim o que eu não quero. O sagrado também se faz do profano, sem o profano não perpetuaríamos o sagrado, mesmo se pensarmos que os espíritos vivem para além do corpo carnal, não haveria noção de sagrado se tudo fosse sagrado. Não faria sentido, pois o sagrado não teria ao que se opor. Dizer purificação dá uma impressão errônea de que estou buscando alguma espécie de integridade moral, e não é nada disso. Estou apenas num momento de reorganizar as energias circulantes dentro deste corpo... O sujo também é legal. Então uma ou outra imundície ainda vai restar dentro de mim, porque eu conduzi dessa maneira. Tá longe de ser um período de higienização. É, teve um dia que eu pensei que precisava me limpar, me expurgar, eu estava disposta até mesmo a vomitar para ver se tirava a coisa ruim de dentro de mim, mas então, com os olhos fixos na vela acesa, me dei conta de que a sombra acompanha a luz. A sombra acompanha a luz. Ainda preciso configurar melhor essas noções protocartesianas (oi, Euler!). Comecei tudo isto para dizer que: eu tenho tanto para dizer! Esta cabecinha aqui não para de trabalhar. Eu gostaria de poder escrever com o meu sangue. Queria que as minhas palavras tivessem o meu dna. Queria levar para o plano da linguagem os mistérios do meu plano etéreo. Que trabalhinho mais filho da puta! De repente, apesar de tudo, eu me sinto como em 1984, com a expressão cada vez mais limitada, mais enxuta. Como se cortassem vocábulos do meu paradigma e, na hora de escrever, eu não tivesse de onde tirar palavras para dar forma às substâncias... Agora eu finalmente entendi: quando eu era sedentária e decidi que queria me exercitar, tive que começar aos poucos. Não adiantaria pegar pesado, porque eu desistiria logo. Então, aos poucos, fui acostumando meu corpo aos movimentos, até chegar no ponto em que sinto necessidade de me mexer, e me alongar, e tudo... E eu estou literariamente sedentária. Esta é a finalidade deste amontoado: começar a me mexer, devagar, a redescobrir os músculos do meu corpo criativo, a fazer o sangue circular. É isso. E este texto vai durar até eu afinal estar preparada para sair correndo, a toda velocidade. É isso!