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Devagar e sempre

Abri o arquivo em que está o feto do meu novo livro, dei uma passada de olhos e nada aconteceu. Ainda não é hora de correr? Existem momentos de epifania em que ideias fantásticas pululam na mente, mas não estou em condições materiais de escrever. E quando estou em condições materiais de escrever, as ideias evaporam. Gostaria de diluir as minhas experiências, os insights. Diluir. Como, por exemplo, a desintegração do ego. A morte psicológica. Diluir essa sensação perturbadora na minha literatura. Como? Eu acho que na minha literatura tem que haver a minha essência. Hoje mesmo um colega de trabalho perdeu um amigo querido em um assalto, no meio da madrugada. Ele me disse: poderia ter sido eu, você, qualquer um. É esta forte impressão uma das que eu gostaria de transmutar. Ou como quando o ex-namorado de uma colega se suicidou. Ou como quando um casal morreu queimado dentro de um carro devido a um acidente com cabos de energia, perto da minha casa. Que impacto que sofro pela morte de pessoas que sequer conheci, apesar de, no fundo, não poder dizer que temo a morte. Pode parecer presunçoso, mas não tenho medo de morrer. Não agora. 

Acho que é porque me sinto no auge da minha vida. Uma pessoa, quando se sente no auge de sua vida, talvez prescinda do medo de morrer, porque é como se já tivesse encontrado o que veio procurar. A questão é pensar na morte quando pouco ou nada se alcançou. É pensar que tantas coisas terão sido deixadas incompletas, interrompidas. Será isto uma evolução da minha inteligência emocional/espiritual? Alcançar um estado de alma que sequer receia desaparecer de um dia para o outro? Ou talvez o que eu tenha estabelecido como ideia de conquista. Há cada vez menos itens na minha lista de desejo que sejam materiais. E só luto tanto por dinheiro para a minha viagem tão desejada porque um mínimo eu preciso ter para sair do lugar, certo? Ainda assim, há quem diga que é possível viajar sem um puto. Como não estou tão certa disso, continuo na batalha pecuniária do dia a dia. O amigo do meu colega morreu e possivelmente está sendo enterrado neste exato momento enquanto escrevo. Se é que ele vai ser enterrado. Sou a favor da doação de órgãos e cremação do restante. Um dia acho que não vai ter espaço para enterrar tanta gente, para habitar tanta gente, para doutrinar tanta gente, para transportar tanta gente. Uma vez, quando era criança, tive uma constatação e comentei com a minha avó: tem tanta gente no mundo, né, vó? E ela disse: sim, pois é... E eu tive uma ideia: e se matasse um pouco dessas pessoas? Porque daqui a pouco não vai mais caber no planeta, né. Esse pensamento infantil de genocídio me atormenta até hoje. São poucas as memórias do passado que voltam me arranhando; esse é um deles. Mas o amigo do meu colega que morreu num assalto esta madrugada - será que tinha medo de morrer? E não estou dizendo sentir vontade de morrer - eu não quero morrer, eu simplesmente não tenho medo. Talvez tenha medo de morrer sofrendo, lentamente, agonizando, mas este continuaria não sendo medo da morte, e sim da angústia. Teria o amigo do meu colega realizado alguns sonhos, algumas conquistas? Que será que ele deixou inacabado? Me sinto um pouco invasiva pensando na morte de um sujeito que sequer conheci. Morte é um negócio tão íntimo.