Avançar para o conteúdo principal

Área de deslazer


Quando me mudei para o Tatuapé, bairro da zona leste de São Paulo, há aproximadamente 15 anos, não havia metade dos edifícios que existem agora. Tem um prédio sendo construído na minha rua, quase em frente à minha casa, há mais de dois anos, se não me engano. Todo esse tempo, é barulho de obra, poeira, caminhão... Como em uma porção de ruas da região. 

Na esquina da minha rua, inclusive, todos os finais de semana pessoas trabalham segurando placas para indicar a venda de apartamentos em um prédio que está sendo construído há, o quê? uns três anos. Pelo jeito as vendas não andam bem.

Hoje de manhã observei um prédio de esquina aqui perto. O dia estava bem ensolarado, o céu azulíssimo, e uma funcionária limpava a piscina deserta. Além de não chegar um pingo de sol ali, a menos de dois metros do muro da piscina havia a carcaça de um novo prédio sendo construído. O cenário desolador das obras em andamento. O perigo da queda de objetos. O cinza do cimento, da poeira, uma escuridão. A piscina do prédio pronto parecia fazer parte de um mundo em ruínas. Não seria honesto chamá-la de área de lazer.

Antes de morar neste sobrado, vivi por 13 anos em um condomínio de três edifícios, cada um com 16 andares e 4 apartamentos por andar. Por um lado, foi muito bom porque durante parte da minha infância e da minha adolescência tive à minha disposição uma área de lazer que incluía quadra, playground, pista de cooper, piscina, salão de jogos, 3 salões de festas e sala de ginástica. E muitos amiguinhos. Pude brincar e correr bastante sem me preocupar, e sem preocupar meus pais, com a questão da segurança, porque lá dentro sempre tivemos a estranha sensação de estar em um universo à parte, onde nenhum elemento nocivo poderia chegar. Porém, era só colocar o pé para fora do prédio que o mundo real nos engolia. Uma série de assaltos aconteceram exatamente em frente à portaria do condomínio. A sensação de segurança esmorecia parcialmente a partir do momento que se pisava na calçada.

A piscina do condomínio ficava exatamente entre dois prédios. E ao redor do condomínio havia mais prédios, de modo que o sol só iluminava a área de lazer entre as 11h e 13h, mais ou menos. No resto do dia, os prédios impediam a chegada da luz e do calor do sol. A piscina estava quase sempre enregelante. A despeito disso, eu era criança e adorava nadar mesmo assim. Não fazia muita diferença.

Estar na área de lazer do condomínio onde morei era viver num verdadeiro Big Brother. 192 varandas e 960 janelas, mais as dezenas de câmeras por todo o espaço compartilhado, podiam me observar enquanto eu fazia uma caminhada entre o hall do meu prédio e a portaria. 

Mas nada como a segurança de morar em um prédio com tanta segurança, não é mesmo!?

Nos primeiros dias morando em uma casa, eu sentia um pouco de medo. Qualquer barulho era motivo para estremecer e ir olhar se nenhum intruso estava na casa. Mas com o tempo o receio foi passando. Hoje consigo descer as escadas e ir até a cozinha no escuro, ou mesmo até o quintal, sem a sensação de que a qualquer instante vou esbarrar num invasor. 

Felizmente ainda nenhum prédio foi capaz de obstruir o sol que ilumina o meu quintal. Sei que a condição atual é extremamente frágil. Há alguns espaços horizontais ao redor que de súbito podem começar a se verticalizar. Inclusive pode acontecer do próprio sobrado onde vivo ser alvo do lucro de uma construtora. 

Enquanto isso não acontece, aproveito a minha área de lazer que, apesar de reduzida e "perigosa" em relação aos condomínios gradeados e monitorados, me permite ver o céu, sentir o sol e não me sentir dentro de 1984