22 de agosto de 2014

Dois Saramagos e dois filmes alemães

Aparentemente sem conexão, né?

No início desta semana, terminei de ler O ensaio sobre a lucidez (que se seguiu ao Ensaio sobre a cegueira), e também vi dois filmes alemães, A onda e A vida dos outros, este segundo com uma estrutura razoavelmente semelhante à do Ensaio sobre a lucidez. Ainda estou um pouco atordoada das ideias com essas quatro obras de arte.


A onda: Rainer Wegner, professor de ensino médio, deve ensinar seus alunos sobre autocracia. Devido ao desinteresse deles, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder. Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhe o lema “força pela disciplina” e dá ao movimento o nome de A Onda. Em pouco tempo, os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e A Onda já saiu de seu controle. Baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967. (fonte: filmow.com)


A vida dos outros: Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, sendo por muitos considerado o modelo perfeito de cidadão para o país, já que não contesta o governo nem seu regime político. Apesar disto o ministro Bruno Hempf (Thomas Thieme) acha por bem acompanhar seus passos, para descobrir se Dreyman tem algo a esconder. Ele passa esta tarefa para Anton Grubitz (Ulrich Tukur), que a princípio não vê nada de errado com Dreyman mas é alertado por Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), seu subordinado, de que ele deveria ser vigiado. Grubitz passa a tarefa a Wiesler, que monta uma estrutura em que Dreyman e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), são vigiados 24 horas. Simultaneamente o ministro Hempf se interessa por Christa-Maria, passando a chantageá-la em troca de favores sexuais. (fonte: filmow.com)


E aí você pode me perguntar (e dizer você é uma força de expressão, porque sei que não tenho leitores asssssíduos aqui, e quem me indaga sou eu mesma): cadê a reflexão? Absorvi tanto, e na minha cabeça tantas conexões foram feitas, tanto esclarecimento floresceu, tanta, uou!, luz se acendeu, mas francamente padeço de uma inabilidade inexplicável (inexplicável, já que acabei de formar em Letras, o curso das humanas que trabalha incansavelmente com a linguagem!) em transformar as informações num discurso interessante que seja capaz de fazer parir as ideias incríveis que tive enquanto assistia a esses filmes ou lia a esses livros. Eu simplesmente não consigo escrever nada que não soe lamentavelmente clichê, lugar-comum, todas as minhas elucidações parecem tão óbvias, banalidades, nada que alguém aqui ou ali já não tenha pensado antes.

Sim, e o que eu espero, afinal? Ser a primeira a extrair dessas obras descobertas fantásticas? Não, não é bem isso... Eu gostaria era de saber discorrer sobre elas de forma minimamente original. É quando me deparo com expressões artísticas impactantes que me vejo reduzida ao nada. Sequer consigo dizer o que pensei sobre elas sem tropeçar e cair na armadilha da trivialidade. Não nasci para ser escritora, tampouco para ser crítica... Até mesmo os trabalhos do último semestre da graduação, que fiz com mais empenho e reflexão do que nunca, tiveram o reconhecimento que julguei que mereciam.

Então eu fico nesse movimento de captar e assimilar a genialidade alheia sem conseguir dar um cuspezinho que seja de uma ideia própria e original. Cato um trecho daqui e outro dali, saboreio até não poder mais transcrevendo para o meu blog as citações que mais tiveram significado neste momento da minha vida. Sempre, sempre na esperança de que um dia eu possa dar um rumo promissor para toda essa informação. Não quero ser eternamente uma colecionadora de trechos. Quero legar meus próprios trechos para a eternidade.

É engraçado finalmente desabafar aqui, como se fosse um lugar secreto, mas não o é. Qualquer um pode acessá-lo e, no entanto, aposto como ninguém chegará até aqui. É como deixar meu diário aberto em um lugar público e ninguém parar para ler. Devo achar isso positivo?

Atualmente estou lendo os Diários de Jack Kerouac e foi esse livro que me deu inspiração para começar a escrever mais aqui, o que quer que seja. Acho que está faltando eu registrar as minhas impressões de vez em quando, ao invés de apenas jogar as coisas aqui sem a minha marquinha. Por mais, e como isso acaba com meu ego (rs), por mais banais que soem as minhas palavras.

O filme A onda já tinha sido recomendado pelo meu amigo Waleson, e eu havia (me perdoe!) esquecido. Mas um dia encontrei-o “por acaso” no Netflix, gostei da sinopse e decidi ver. De cara me fez lembrar do gênero Sociedade dos poetas mortos de filme, faz tempo que assisti, mas tem esse lance de um professor distinto e capaz de captar a atenção dos alunos com algum aspecto didático inovador em relação aos demais professores, e que, cativando-os, os faz rever seus conceitos e comportamentos; só que, no final, algo acaba saindo mal. Porque, convenhamos, mudar é um pouco enlouquecedor. Descobrir que o mundo, pasme!, pode assumir outras facetas além das quais você já está acostumado. (continua...)