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Trechos de O gênio e a deusa - Aldous Huxley

"- O mal a ficção - disse John Rivers - é que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido.
- Nunca? - contestei.
- Talvez do ponto de vista de Deus - concedeu ele. - Do nosso, nunca. A ficção tem unidade, a ficção tem estilo. A realidade não possui nem uma coisa nem outra. Em seu estado bruto, a existência é sempre um infernal emaranhado de coisas (...) O critério da realidade é a sua incongruência intrínseca."

"Se quisermos viver cada instante tal como ele se apresenta, temos de morrer para todos os outros instantes."

"Morrer é uma arte, e na nossa idade deveríamos estar a aprendê-la. É bom ter visto alguém que realmente o soube. Helen soube morrer porque soube viver - soube viver no lugar e no momento presente, para maior glória de Deus. E isto necessariamente importa também em morrer de quando em quando, na consciência do amanha e do nosso mísero pequeno ser. No ato de viver a vida como ela deve ser vivida, Helen tinha estado morrendo em prestações diárias. Quando chegou o acerto de contas, praticamente nada mais havia a saldar."

"E onde não há resposta válida possível, não há sentido admissível na pergunta."

"Eu estava tão repleto de caridade que teria sido capaz de amar um crocodilo, teria sido capaz de amar um polvo. A gente lê todas essas ficções dos sociólogos, todas essas parvoíces eruditas dos políticos teóricos. (...) Quando, na verdade, só existe uma solução, e ela pode ser resumida em uma palavra de quatro letras, tão chocante que o próprio Marquês de Sade relutava em usá-la. - Ele a soletrou: - A-M-O-R."

"Qualquer coisa, por pior que fosse, contanto que tratasse de morte. A morte - repetiu - de preferência violenta, de preferência sob a forma de vísceras - é uma das fascinações da infância. Quase tão forte quanto a fascinação das bonecas ou dos doces, ou a de brincar com os órgãos genitais. As crianças têm necessidade da morte como meio de gozar uma nova, deliciosamente repulsiva, espécie de emoção. Não, não é bem isto. Elas a necessitam, como necessitam de outras coisas, para dar uma forma específica às emoções que já experimentaram em si. Você se lembra de como eram agudas as suas sensações, da intensidade com que você sentia tudo, quando era criança? A maravilha dos morangos com creme, o horror do peixe, o inferno do óleo de rícino! E o suplício que era ter de levantar-se e recitar diante da classe inteira! A ventura inefável de sentar-se ao lado do cocheiro, com o odor de couro e de suor de cavalo nas narinas, a estrada branca a estender-se até o infinito, os campos de trigo e de hortaliças girando lentamente, ao rodar da carriola, lentamente abrindo-se e fechando-se como enormes leques...
Quando se é criança, a mente é uma espécie de solução saturada de sentimento, uma suspensão de todos os frêmitos mas num estado latente, numa condição de indeterminação. Ora são circunstâncias externas que atuam como agente de cristalização, ora é a própria fantasia. A gente quer um tipo especial de sensação, e deliberadamente manipula o pensamento até consegui-la - um cristal resplandecente e róseo de prazer, por exemplo, um verde ou violáceo torrão de medo; pois o medo, sem dúvida, é um êxtase como outro qualquer, é uma sinistra variedade de deleite."

"Havia uma pequena colina aos fundos da casa. Do seu topo podia-se descortinar o céu inteiro, de horizonte a horizonte. Cento e oitenta graus de mistério bruto e insondável. Um bom lugar para se ficar sentado sem dizer nada. Mas, nesse tempo, eu achava ainda que tinha o dever de contribuir para a cultura do próximo. Assim, em vez de deixá-la contemplar em paz Júpiter e a Via Láctea, pus-me a desfiar a velha e batida preleção - a distância em quilômetros à estrela fixa mais próxima, o diâmetro da galáxia, a última palavra de Monte Wilson sobre as nebulosas espirais. Ruth escutava, mas não ganhou em saber. Em vez disso, caiu numa espécie de pânico metafísico. Aqueles espaços, aquelas durações, aquela inconcebível infinidade de mundos, mundos! E a gente aqui, em face do infinito e da eternidade, a quebrar a cabeça com ciência e economia doméstica, com chegar na hora, com a cor das fitas de cabelo e com as notas semanais de álgebra e de gramática latina!"

"Que abismo entre impressão e expressão! Assim é o nosso irônico destino - ter percepções shakespeareanas e descrevê-las em estilo de vendedores de automóveis, ou de colegiais, ou de mestres-escolas. Praticamos uma alquimia invertida - tocamos ouro e ele se transforma em chumbo; tocamos o puro lirismo da experiência, e ele se transforma nos equivalentes verbais de tripas e água chilra."

"Prazer... todas as espécies de prazer. O prazer do sexo,  o prazer da comida, o prazer do poder, o prazer do conforto, o prazer da posse, o prazer da crueldade. Mas, ou há um anzol dentro da isca, ou então, quando você lhe deita a mão, ela aciona um gatilho e lhe despeja em cima o monte de pedras, ou o balde de porcaria, ou o que quer que o cósmico humorista lhe haja preparado."

"Como é rudimentar e limitada a nossa linguagem! Se deixarmos de parte os correlatos fisiológicos da emoção, estaremos falseando a realidade dos fatos. Se os mencionarmos, pareceremos brutais e cínicos. Seja paixão ou atração da mariposa pela luz, seja ternura, adoração ou anseio de romance - o amor é invariavelmente acompanhado de fenômenos das terminações nervosas, da epiderme, das membranas mucosas, das glândulas e dos tecidos erécteis. Quem disser o contrário estará mentindo. Os que o afirmam são acusados de pornografia. É culpa, não cabe dúvida, da nossa filosofia de vida; e a nossa filosofia de vida é o inevitável subproduto de uma linguagem que separa em ideias realidades que são de fato e para sempre inseparáveis. Separa, e ao mesmo tempo avalia. Uma das abstrações é boa, a outra má. Não julgueis para que não sejais julgado. Mas a natureza da linguagem é tal que nos torna impossível abster-nos de julgar. O que nos falta é um sistema diferente de palavras. Palavras capazes de exprimir a associação natural das coisas. Muco-espiritual, por exemplo, ou dermatocaridade. E por que não mastonoética? Por que não viscerosofia? Mas, traduzidas, é claro, para algo diverso do obsceno hermetismo da terminologia erudita, para algo que se possa empregar na conversação corrente ou mesmo na poesia lírica."

"A libertação é a morte, é a busca da felicidade - mas somente para o enfermo, é claro, nunca para aquele que o ama. Ele não tem direito ao luxo da morte, ao livramento, por rendição, do seu quarto-masmorra. Seu dever é o de continuar lutando, mesmo quando se tornou evidente que a batalha está perdida; de continuar esperando, mesmo quando não há razões senão para desespero; de continuar orando, mesmo se Deus manifestadamente se voltou contra ela, mesmo se tem a certeza de que Ele não existe. Pode estar arrasada de dor e pressentimento, mas deve parecer alegre e serenamente confiante. Pode ter perdido a coragem, mas deve ainda inspirá-la. E enquanto isso está lidando e velando além dos limites da resistência física. Não há contemplação; tem de estar sempre presente, sempre à disposição, sempre pronta a dar de si - a continuar dando, ainda depois de completamente falida."

"A irrupção interior de algo forte e maravilhoso, de algo manifestamente maior que nós mesmos; os objetos e os fatos que, antes neutros ou francamente hostis, vêm de súbito, gratuitamente, espontaneamente, salvar-nos - são coisas reais. Podem ser observadas, podem ser experimentadas. Mas se quisermos descrevê-las, descobrimos que a única terminologia possível é a teológica. Graça, Guia, Inspiração, Providência - as palavras dizem demais, encerram em si todas as petições de princípio. Mas há ocasiões em que não podemos evitá-las."

"Graça espiritual, graça animal, graça humana - três aspectos do mesmo mistério subjacente; em ideal, todos nós deveríamos estar abertos a todos eles. Na prática, em nossa maioria, ou erguemos uma barricada contra todas as formas de graça, ou, se abrimos a porta, abrimo-la tão somente a uma delas. O que evidentemente não basta."