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Questões de forma - Roberto Schwarz

Em as Ideias fora do lugar, vimos que Schwarz analisou a disparidade histórica entre a sociedade brasileira do século XIX e as ideias do liberalismo europeu, defendidas desde o Iluminismo, como a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei, a noção de universalismo e a autonomia do sujeito.

No contexto europeu, a ideologia era a aparência que ocultava a essência, a saber, a exploração do trabalho e a luta de classes. Já no Brasil, a ideologia não oculta nada: não há divisão de classes, escravo não é trabalhador, é propriedade. Com nossa configuração escravocrata, estávamos fora dessa lei universal. 

As ideias por trás da independência (liberalismo europeu) não condiziam com a realidade brasileira, agrícola, latifundiária, escravocrata. O trabalho escravo e o latifúndio, que eram formas ultrapassadas de produção, deixam de ser eficientes: são dispendiosos e opostos à lógica capitalista. 

O que regia a sociedade do século XIX, composta por latifundiários, escravos e homens livres, era a relação de favor, a face mais “simpática” da escravidão. O favor era vantajoso para latifundiários e para homens livres dependentes, que temiam ser escravos. 

No entanto, como país dependente, era impossível não receber a ideologia europeia da época. As ideias liberais, indescartáveis mas impraticáveis, acabavam reforçando o mecanismo do favor, baseando-se na razão racional. Ademais, a Corte trouxe mudança de costumes e reproduzia a vida europeia, criando ambientes com características urbanas. 

Machado de Assis foi mestre em representar a condição enigmática da sociedade brasileira. Como jornalista combativo, sua vida representa o desacordo, o desajuste dessa sociedade que acompanhava as modas e maneiras europeias, mas sem o contexto, sem as transformações sociais que aconteciam na Europa, provocando um “torcicolo cultural”, marcado pela tensão modernidade x tradição ancorada na servidão. 

Agora, em Questões de forma, veremos o esforço de identificar uma fisionomia de classe no narrador de Brás Cubas. A volubilidade que marca o narrador é um dispositivo técnico de desfaçatez de classe. O próprio Brás Cubas é o alvo da sátira machadiana. 

Memórias Póstumas marca o fim de um ciclo da literatura brasileira. Enquanto os românticos buscavam o dado local no externo e os naturalistas, nas classes baixas, Machado o fazia no interno, na elite encasacada. 
Roberto Schwarz

FICHAMENTO:
QUESTÕES DE FORMA
Roberto Schwarz

- Vai observar o nervo artístico de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Composição escorregadia, fruição comodista, descontinuidade elegante, formulações requintadas, forma cujo perigo está na derrapagem metafísica. 

- Identificação da fisionomia de classe do narrador: a pertinência da prosa, do elenco de caracteres e da composição em geral. Os meios artísticos de que o narrador se vale passam por uma especificação correspondente, que lhes evidencia o inesperado papel de combate. 

- Brás Cubas: sua volubilidade, à primeira vista um recurso literário, muda de feição quando examinamos de perto o seu desempenho. O narrador é parte facciosa (parcial) da história, e seus procedimentos formais ficam privados de isenção, exibindo algo de manobras ad hoc. Brás Cubas atribui o seu estilo – contravenções morais e literárias, a altura filosófica – à superioridade dos mortos sobre os vivos. 

- A relação entre o comportamento narrativo e o quadro social é virtual, e depende exclusivamente da percepção do leitor. Uma conduta ligada às sequelas da colonização evolui no palco da cultura geral da época e atua com especialidade sobre a convenção literária ela mesma. Neste ambiente inusitado e rarefeito, o modo de ser de Brás fica mais difícil de identificar à primeira vista, o que, vencida a estranheza, não deve impedir a crítica de perceber o caráter social de suas infrações. Trata-se literalmente da universalização dos esquemas de conduta da classe dominante brasileira, ou seja, da construção de seus efeitos sobre as grandes linhas da civilização contemporânea, para além do contexto empírico imediato. 

- O desacerto entre as relações sociais do país e os quadros ideológicos do mundo burguês, transformados por isso mesmo em generalidades retóricas, não era invenção do escritor: cabia à vida cultural atestar a vinculação europeia e moderna da elite.

- Brás Cubas: tipo social encarado em perspectiva impiedosa. Longe de ser uma alma rara, oposta à mediocridade ambiente, BC é a vulgaridade em pessoa, e a multiplicação dos meandros anímicos serve mais que tudo para lhe tornar estapafúrdias as presunções. Digamos então que as Memórias combinam um certo recorte estiticista do real – inusitado e audacioso na desconformidade com o utilitarismo burguês – uma psicologia analítica impermeável ao privilégio, e um arcabouço de ficção realista, onde o conflito social redefine e põe no lugar a totalidade das pretensões subjetivas. 

- A disposição arbitrária sobre a realidade e as regras de sua representação converge com a reação antinaturalista em curso na Europa. E de fato, a magnificação do capricho nas Memórias algo contém do elitismo bufo, da irresponsabilidade assumida e nobilitada, do culto ao diletantismo e ao próprio eu, em espírito antissocial, que faziam parte do esteticismo nascente. 

- Como interpretar as palavras de um narrador mal-intencionado, cuja volubilidade se governa por conveniências e inconveniências de uma posição de classe?

- Massacres de junho de 48: valor de revelação histórica: burguesia percebera que os seus recursos intelectuais e morais, forjados em nome do Homem, isto é, contra o feudalismo, agora se haviam voltado contra ela própria e serviam a seu novo inimigo.

- A crise dos significados comuns concorreu para a objetividade sui generis da forma moderna. Para enfrentar o primado da desinteligência social, horizonte epistemológico novo, que dificultava o papel do narrador e lhe tornava problemática a desenvoltura opinativa, os romancistas mais consequentes trataram de inventar soluções técnicas a que não se pudesse objetar parcialidade. Entre os pressupostos do novo dispositivo literário está a falência de ideias ou intenções consideradas em abstrato. 
Flaubert: esforço metódico da impessoalidade. A impassibilidade flaubertiana se alimenta de isenção científica, mas também de ódio ao burguês e, em igual dose, de desprezo pela impotência do mesmo ódio.
Zola: tentativa de dar padrão científico à ficção.
Henry James: reconhecimento dos problemas ligados ao ponto de vista. 
Denominador comum: primado do procedimento sobre as opiniões. A objetividade do dispositivo técnico permite ao artista saltar por sobre a própria sombra, uma vez que o novo estatuto das opiniões, autorais inclusive, não admite adesão direta. 

- Ao novo patamar do enfrentamento de classes respondem novos tipos de forma literária, onde nada escapa à redefinição pelo nexo imanente, em chave de ambiguidade sistematizada e figuração enigmática da história contemporânea. 

- A forma proporciona a experiência do mundo contemporâneo, e faz as vezes da realidade, cujo processo moderno, aliás, também se realiza à revelia e pelas costas de seus sujeitos. 

- Longe de introduzirem a irrelevância das opiniões, os caprichos machadianos deliberadamente reificam a liberdade narrativa e a subordinam ao sistema de constrangimentos que rebaixo o seu mundo narrado. Analogamente, os jogos com o leitor não se destinam a construir, mas a destruir a hipótese de um entendimento esclarecido com o público, entendimento substituído por uma espécie de cumplicidade agressivamente acanalhada, cujo substrato condicionador está na consciência dolorosa das iniquidades sociais do país.

- A sistematização do impasse moral da elite brasileira, condenada a uma como que ilegalidade estrutural, permitia a Machado a retomada não-esteticista do esteticismo emergente, o qual justamente ensaiava e estilizava o novo assalto às garantis civis burguesas. 

- Escravismo e clientelismo não são fixados apenas pelo lado óbvio, do atraso, mas também pelo lado perturbador e mais substantivo de sua afinidade com a tendência nova. Esta “modernidade”, que se poderia prestar para álibi de classe, no universo machadiano entretanto não alimenta ilusões: ela só lhe aumenta a miséria, pois, sem elogiar o atraso, desqualifica o progresso de que aquele faz parte. 

- A intermediação do capricho faz que nada nas Memórias seja o que parece à primeira vista. Este deslocamento geral, manifestação de divergência entre a forma e os significados comuns, alinha o livro no campo moderno. 

- Ao colocar na posição de sujeito narrativo o tipo social de Brás Cubas – o verdadeiro alvo da sátira – Machado tomava um rumo perverso e desnorteante. Camuflada pela primeira pessoa do singular, que a ninguém ocorreria usar em prejuízo próprio e com propósito inflamante, a imitação ferina dos comportamentos da elite criava um quadro de alta mistificação: cabe ao leitor descobrir que não está diante de um exemplo de autoexame e requintada franqueza, mas de uma denúncia devastadora.

- A sobrevivência do molde colonial em meio a condições modernas tanto explica o mundo apartado, alheio à civilização contemporânea e às suas categorias, como explica o apetite que estas despertam e o toque de descrédito que as acompanha. Nesse sentido, o desajuste estrutural das Memórias reproduzia contradições objetivas. A volubilidade de Brás Cubas opera, a título pessoal, a universalização de nexos que a escravidão e o mandonismo impedem na prática. O denominar do elenco está no contraste entre a face pública, marcada pelo ar de Corte e modernidade, e os traços em que se vê ou adivinha a Colônia. Os dois Brasis estão justapostos no interior das personagens, heterogêneas por construção. Diversamente dos naturalistas, que vão buscar a nota local nas classes inferiores ou em regiões longínquas do país, Machado a localizava em nossa elite encasacada. 

- O narrador volúvel é técnica literária, é sinal da futilidade humana, é indício de especificidade histórica, e é uma representação em ato do movimento da consciência, cujos repentes vão compondo o mundo – vasto, mas sempre interior. 

- A melancolia, o tédio, o desgaste, a desagregação e o nada – as famosas especialidades machadianas – formam o desdobramento involuntário, no próprio ser do narrador, da sequência de arbitrariedades socialmente balizadas que lhe constituem a narração. 

- Machado compunha um romance em sintonia rigorosa com o momento social, mas isto mediante renúncia aos procedimentos intelectuais e artísticos elaborados com este fim pela corrente da consciência histórica. Escreve um romance realista com soluções literárias anti-realistas, configurando o peso da realidade nacional fora do âmbito de suas explicações em voga. Ficava evitada, assim, ao mesmo tempo que retratada, a aplicação imprópria da terminologia europeia recente à sociedade local.  Ao escrever um romance “do seu tempo e do seu país” com recursos do século anterior, Machado bloqueava a fusão romântica do indivíduo no coletivo e na tendência história, barbaridade moderna e regressiva explicitamente visada na crítica ao Humanitismo, para o qual a dor individual não existe. A forma latente se manifesta pela desqualificação da forma de primeiro plano, reconsiderada à luz da matéria romanesca. 

- Machado não inventou a técnica do narrador volúvel, de que entretanto se aproprio com discernimento propriamente genial, a que se prende a complexidade dos romances da segunda fase. Sob o signo da volubilidade do narrador estava montado um dispositivo literário onde o estatuto do indivíduo, da lei, o espírito científico, a tradição beletrista e os argumentos filosóficos gravitam fora do eixo consagrado, mas conforme a disciplina de uma formação social.

Trechos retirados de

SCHWARZ, Roberto. "As ideias fora do lugar". In:: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades/ 34, 2000.
_________________."Questões de forma". In: Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades/ 34, 2000.