19 de abril de 2014

O nome e a natureza da literatura comparada - René Wellek


René Wellek,
crítico literário
René Wellek dá partida ao seu ensaio propondo-se a distinguir os significados da expressão “literatura comparada” por meio da lexicografia e semântica histórica.  Pretende, portanto, fazer um panorama das características e dificuldades dessa disciplina, assumindo uma perspectiva ampla e sem perder o rigor metodológico. Seus elementos fundamentais são: crítica, história e teoria. 

O autor posiciona-se contra o causalismo da literatura, define a literatura comparada como estudo de qualquer literatura de uma perspectiva internacional e defende que a literatura comparada não se limita a um único método e que não se divorcia história literária de crítica literária. 

- Comparative: derivado do latim comparativus. 

- Bispo Robert Lowth (1753) sobre o ideal do estudo comparativo: “Devemos ler tudo com os olhos deles [isto é, dos antigos hebreus]: avaliar tudo por suas opiniões; devemos esforçar-nos ao máximo para ler hebraico como os hebreus teriam lido. Devemos agir como os astrônomos com relação a esse ramo de sua ciência, que é chamado comparativo, os quais, para formar uma ideia mais perfeita do sistema geral e suas diferentes partes, se imaginam como se estivessem passando através de todo o universo e explorando-o, migrando de um planeta para outro e tornando-se, por algum tempo, habitantes de cada um deles”. 

- Literatura comparada: ocorre pela primeira vez em 1848 numa carta de Matthew Arnold: “Quão evidente é agora, ainda que a atenção às literaturas comparadas nos últimos cinquenta anos pudesse tê-lo ensinado a qualquer um, que a Inglaterra está, num certo sentido, muito aquém do Continente”. 

- Literatura comparada: encontrava resistência na Inglaterra porque o termo “literatura” havia perdido seu significado anterior de “conhecimento ou estudo de literatura” e havia passado a significar “produção literária em geral” ou “conjunto de escritos de um período, país ou região”. 

- Literatura como produção ou conjunto de escritos: primeira ocorrência em 1812. Uso muito cedo nacionalizado e localizado, no século XVIII. Seu significado estreitou-se para nomear o que hoje chamaríamos de “literatura da imaginação”, poesia e prosa imaginativa, ficcional. 

- Voltaire sobre littérature: eloquência, poetas, e livros de moralidade e divertimento. 

- Processo de nacionalização/estetização da palavra: 1784 por A. de Giorgi-Bertolà.

- Philarète Chasles (1847): “Tenho pouco apreço pela palavra ‘literatura’, que me parece não significar coisa alguma; é o resultado de adulação intelectual”. A palavra lhe parece ligada à tradição greco-romana de retórica. É “algo que nem é filosofia, nem história, nem erudição, nem crítica – algo que não sei o que é: vago, impalpável e enganoso”. 
- Literature: difícil distinguir > cultura literária x conjunto de escritos.

- A mudança de significado do termo “literatura” atrasou a adoção da expressão “literatura comparada” em inglês, ao passo que “política comparada” era inteiramente aceitável, bem como “gramática comparada”. 

- França: littérature > por longo tempo significou estudo literário. Voltaire (1764-72): literatura como “um conhecimento das obras de gosto, ligeiras noções de história, poesia, eloquência e crítica”, e a distingue da “belle littèrature”, que se relaciona a “objetos de beleza, a poesia, a eloquência e a história bem escrita”. 

- 1816: compiladores Noël e Laplace publicam uma série de antologias de literatura clássica, francesa e inglesa, tendo por título “Cours de littèrature comparée”, jamais usado antes. 

- 1840: Quem torna o termo corrente na França é Abel-François Villemain. Pela primeira vez na universidade francesa, se fez uma tentativa de “análise comparada” de várias literaturas modernas. Depois de Villemain, a expressão passou a ser usada com relativa frequência.

- Literatura mundial: Goethe (1827): uma só literatura mundial, unificada, na qual as diferenças entre as literaturas individuais desapareciam. Em um rascunho, igual literatura europeia a mundial.  Atualmente literatura mundial pode significar simplesmente toda a literatura, ou uma lista de excelentes obras de muitas línguas. Uso ainda passível de discussão.

- Literatura comparada: suscita debates quanto a sua abrangência e métodos exatos. 

- Van-Tieghem: “O objeto da literatura comparada é, essencialmente, o estudo de diversas literaturas em suas inter-relações”. 

- Guyard: “história de relações literárias internacionais”. 

- Carré: “uma ramificação da história literária; é o estudo de relações espirituais internacionais (...)”. 

- É impossível traçar uma linha divisória entre literatura comparada e literatura geral. 

- Literatura comparada: lida com o comércio exterior entre literaturas e, em decorrência, com fragmentos de produção literária. O método de comparação não é específico da literatura comparada. 

- Remak: “o estudo da literatura além dos limites de um país específico, e o estudo das relações entre a literatura, de um lado, e, de outro, as outras áreas de saber e de crença, tais como as artes, a filosofia, a história, as ciências sociais, a ciência, a religião, etc.”.

- Finalmente, propôs-se a ideia de que a literatura comparada pode ser mais bem defendida e definida por sua perspectiva e espírito, ao invés de sê-lo por qualquer setorização circunscrita no interior da literatura. Ela estudará qualquer literatura de uma perspectiva internacional, com uma consciência da unidade de tida a criação e experiência literárias. Assim, literatura comparada é idêntica ao estudo de literatura independente de fronteiras linguísticas, étnicas e políticas. Não pode limitar-se a um único método: em seu discurso, descrição, caracterização, interpretação, narração, explanação, avaliação usam-se tanto quanto comparação. Não pode a literatura comparada ficar confinada à história literária, excluindo a crítica e a literatura contemporânea. A crítica não se pode divorciar da história, uma vez que não existem fatos neutros em literatura. O simples ato de fazer uma escolha entre milhões de livros impressos é um ato crítico, e a escolha dos traços ou aspectos sob os quais um livro pode ser tratado é igualmente um ato de crítica e julgamento. As três principais ramificações do estudo de literatura – história, teoria e crítica – implicam-se mutuamente, do mesmo modo que o estudo de uma literatura nacional não pode ser separado do estudo da totalidade da literatura.

- O que o autor advoga é um distanciamento dos conceitos mecanicistas, fatualistas, herdados do século XIX, em benefício da verdadeira crítica. Crítica significa uma preocupação com valores e qualidades, e assim necessita da história da crítica para tal compreensão, e, finalmente, significa uma perspectiva internacional que contemple um ideal distante de história e erudição literária universal. 

A CRISE DA LITERATURA COMPARADA
René Wellek

O autor inicia seu ensaio apontando a crise que o nosso mundo passa desde 1914, crise esta que afetou a erudição literária, dilacerada por conflitos de métodos. Considera que o campo do estudo está em precário estado, incapaz de estabelecer um objeto de estudos distinto e uma metodologia específica, e tece uma série de críticas contra a concepção de diversos estudiosos.

A despeito da dificuldade de discernir literatura “comparada” de literatura “geral”, a literatura comparada, para Wellek, “tem o imenso mérito de combater o falso isolamento das histórias literárias nacionais”. 

O autor critica a definição de Van Tieghem considerando que “a tentativa de comprimir a ‘Literatura comparada’ em um estudo do ‘comércio externo’ de literaturas é decerto infeliz”, porque se interessaria por exterioridades, escritores de segunda ordem, traduções, livros de viagens. 

Wellek segue ainda desmistificando os métodos fracassados da literatura comparada, chamados por ele de tropeços, defendendo que as obras de arte são mais do que somas de fontes e influências: “são conjuntos em que a matéria-prima provinda de qualquer parte deixa de ser matéria inerte e é assimilada numa nova estrutura”. 

Assim, afirma que “a literatura comparada surgiu como reação contra o estreito nacionalismo de muita cultura do século XIX, como um protesto contra o isolacionismo de muitos historiadores das literaturas francesa, alemã, italiana, inglesa etc. Foi cultivada muitas vezes por homens que se mantinham na encruzilhada das nações ou, pelo menos, nas fronteiras de uma nação”, num desejo de servir como mediador e conciliador entre nações. 

“Esta motivação basicamente patriótica de muitos estudos de literatura comparada na França, na Alemanha, na Itália, e assim por diante, levou a um estranho sistema de estruturação mercantil cultural, a um desejo de acumular créditos para uma nação, provando tantas influências como possíveis sobre outras nações ou, mais sutilmente, provando que sua nação assimilou e ‘compreendeu’ um mestre estrangeiro mais perfeitamente que qualquer outra”. 

Tal demarcação artificial de temas e metodologia, conceito mecanicista de fontes e influências, motivação por nacionalismo cultural parece, ao autor, sintomas da crise da literatura comparada. Por isso, propõe uma reorientação total nessas três direções. Não deve haver a demarcação artificial entre literatura “comparada” e “geral”, pois literatura “comparada” tornou-se um termo estabelecido para qualquer estudo de literatura que transcenda os limites de uma literatura nacional. 

Wellek defende que a verdadeira erudição literária ocupa-se de valores e qualidades, e uma obra de arte não pode ser analisada, caracterizada e avaliada sem recorrer-se a princípios críticos. Pondera: “Em cultura e teoria literária, a crítica e a história colaboram para realizar sua tarefa central: descrição, interpretação e avaliação de uma obra de arte ou de qualquer grupo de obras de arte”. 

O autor defende que a erudição literária deve determinar estudar a literatura como um assunto distinto de outras atividades e produções do homem, sendo a própria obra de arte literária o foco necessário, examinando-se suas relações com a psicologia do autor ou com a sociologia de sua sociedade. Afirma: “A obra de arte (...) pode ser concebida como uma estrutura estratificada de sinais e significados, totalmente distinta dos processos mentais do autor na época da composição e consequentemente das influências que possam ter formado seu pensamento. (...) O que se chama geralmente de ‘conteúdo’ ou ‘ideia’ em uma obra de arte está incorporado à estrutura dela como parte de seu ‘mundo’ de significados projetados”. 

Por fim, o autor considera certa a concepção holística, aquela que vê a obra como uma totalidade diversificada, uma estrutura de signos, que implicam e exigem significados e valores. 

Fichamento e trechos com base em
WELLEK, R. "A crise da literatura comparada". In: COnceitos de crítica. São Paulo: Cultrix, s/d.
__________. "O nome e a natureza da literatura comparada". In: COUTINHO, E. e CARVALHAR, T. F. Literatura comparada: textos fundadores. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

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