Avançar para o conteúdo principal

Nação e reflexão - Paulo Arantes

O ensaio estudado abaixo é a teoria de Benedict Anderson aplicada ao Brasil por Paulo Arantes, analisando a relação colonial da perspectiva internacional. Para Anderson, é o nacionalismo que cria as nações, que seriam um artefato constructo, imaginado. Gellner teria sido o primeiro a pensar na ideia de nação com invenção, criação. Anderson aperfeiçoou a ideia, sugerindo que teria sido criada nas colônias e ex-colônias. A partir da independência americana, as colônias passaram a se separar e a formar nações. Assim, o sistema colonial teria sido um dos fatores explicativos para a ideia moderna e burguesa de nação. Os movimentos pela independência nas colônias foram feitos pelas elites, o que marca seu caráter ambíguo, pois se opõem à metrópole, mas continuam subjugado índios e africanos. De um lado, o creollo sente-se irmanado com o subalterno; de outro, segue explorando-o.

NAÇÃO E REFLEXÃO

Paulo Arantes

Imaginação nacional

- O nacionalismo não deveria ser explicado pela alegada existência de “nações”, mas sim o contrário, e bem ao contrário do que comumente se entende como o despertar da consciência nacional: o nacionalismo não acorda uma nação entorpecida por uma alienação secular, ele simplesmente inventa a nação que antes não existia.

- Trata-se da resolução do problema da legitimidade numa sociedade industrial, cuja tendência niveladora – em princípio, as desigualdades óbvias de uma sociedade tradicional não são mais toleradas – pede homogeneidade social e cultural: é a necessidade moderna de homogeneidade que gera o nacionalismo, e não o contrário.

- Funcionalidade econômica e industrial do nacionalismo e da nação como artefato, e o processo de difusão da civilização industrial por obra de unidades nacionais: essa industrialização imperativa alastra-se por uma economia-mundo cuja lei é o desenvolvimento desigual.

- O nacionalismo é fundamentalmente a consequência da tensão gerada pelo desenvolvimento desigual numa economia mundial unificada, como resposta política a uma situação de “atraso” que se tornou tão inaceitável quanto a desigualdade de princípio numa sociedade industrial particular.

- O nacionalismo não se origina das nações, mas as faz nascer.

- Brasil: “nacionalismo” muito peculiar a que devemos nosso nascimento como nação, paradoxalmente anacrônico na sua estrita funcionalidade para um sistema produtivo carecido de uma arrancada salvadora. 

- A gênese do moderno Estado nacional europeu corresponde na América, no momento da decomposição do Antigo Sistema Colonial, uma criação deliberada de formas organizacionais e estruturas ideológicas de legitimação que pudessem ser reconhecidas como “nações”, de acordo com as formações metropolitanas bem-sucedidas nas concorrências com as formas rivais, como os impérios ou as redes transnacionais de cidades mercantis. 

Benedict Anderson
- Roteiro de busca de um futuro para a imaginação nacional.

- Como foram “inventadas” as nações de proprietários coloniais que emergiram em meio às rebeliões que sacudiram a luta pela hegemonia no Atlântico a partir da Independência americana em 1776? E inventadas precocemente, pois foram as comunidades creollas da América que desenvolveram, bem antes da maior parte da Europa, uma concepção enfática de nation-ness.

- Definição de nação como comunidade política imaginada, sem desconsiderar a evidência histórica da desigualdade de classe e da exploração econômica que caracteriza a cristalização moderna da forma-nação.

- Forma nacional assumida pelos movimentos de independência na América espanhola e, por extensão, portuguesa: óbvios interesses econômicos em jogo, bem como o papel igualmente fundamental do liberalismo e Iluminismo na composição do arsenal ideológico mobilizado contra o Antigo Regime.

- No caso da América portuguesa, pode-se dizer que a independência foi feita para melhor assegurar a continuidade da escravidão.

- Províncias coloniais na América hispânica, abrangendo grandes populações oprimidas que nem sequer falavam o espanhol, metamorfosearam-se em nações de creollos, que deliberadamente redefiniram tais populações como compatriotas, ao mesmo tempo em que tratavam como inimigo estrangeiro a mesma Espanha à qual estavam ligadas por um sem-número de laços.

- Por que a fragmentação do império colonial tornou-se politicamente viável e emocionalmente plausível? Trata-se de como saber como tais unidades político-administrativas, a um tempo praças comerciais e polos da territorialização da força de trabalho, puderam passar a ser vistas como “pátrias”, verificar como tais espaços acabaram “criando significados”: 
- Absolutismo > Permutabilidade interna de homens e documentos > funcionários peregrinos (não têm “pátria” com qualquer valor intrínseco) > consciência de permutabilidade > peregrinação de funcionários creollos > consciência emergente de conexão. 
- Personagens que contribuem para que as extensões territoriais das peregrinações pudessem ser imaginadas como nações / matrizes da imaginação nacional:
I. Imprensa: os mais antigos jornais continham notícias comerciais, ordenações políticas coloniais, etc., criando uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheiros. A consciência de conexão emerge reforçada da justaposição, visualizável na página de um jornal, de elementos heteróclitos a um tempo nivelados pela forma mercantil e realçados pela significação inédita da circunstância que os congrega. 
- O decisivo nessa primeira invenção de nação é o “mundo imaginado de leitores”. 
- As temporalidades paralelas e simultâneas têm a ver com o tipo de consumo exigido pelo jornal. 
- Se determinada localidade, depois de ser notícia durante dias seguidos, subitamente desaparece por meses a fio, nem por um momento os leitores pensarão que ela simplesmente desapareceu, mas que em algum lugar fora daquelas páginas impressas continua a existir e por isso aguardam sua reaparição naquelas mesmas páginas. 
- Este navio, este bispo, esta noiva, estes preços, uma composição que, longe de nivelar e compartimentar, parece articular uma experiência coletiva de comunicação em que o nexo pode muito bem ser duas formas sociais modernas, a mercadoria e a burocracia. 
- Não sendo possível conceber uma burguesia analfabeta, será permitido ver nessa classe discutidora e leitora de jornais, a única durante um bom período, a inventora patenteada da marca nacional, desde que se entenda a nação como produto da imaginação de uma “coalizão de leitores”, e precisamente uma coalizão de classe. 
- Cerimônia coletiva de leitura de um jornal: “O leitor de jornal, vendo réplicas exatas do seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos de transporte coletivo, no salão de barbeiro, em casa, sente-se permanentemente tranquilo a respeito, diante do fato de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiano”. Leitor que “imagina” a realidade a partir do que está impresso no mesmo jornal. Ficção capaz de “deslizar silenciosa e continuamente para dentro da realidade, criando aquela notável segurança de comunidade anônima que é a marca garantida das nações modernas”. 
II. Romance: como instrumento privilegiado de descoberta do país e de interpretação social, quando a ex-colônia recentemente emancipada também estava carecida não só de se tornar politicamente viável, mas igualmente “emocionalmente plausível” (Antonio Candido). 
- Cor local: registro da vocação histórica e sociológica do romance literário, atendendo à demanda “nacional” de criar a expressão nova de um país novo. 
- Era do romance + nation making: contemporâneos. Romance como um instrumento de apresentação de simultaneidades. 

Comunidades reflexionantes

- Setton-Watson: “uma nação existe quando um número significativo de pessoas de uma comunidade considera que constituem uma nação e se comportam em consequência disso”. 
- Benedict Anderson: comunidade imaginada: nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, nem os encontrarão, nem seque ouvirão falar deles, embora na mente de cada uma esteja viva a imagem de sua comunhão. O essencial de uma comunidade imaginada está na referência ao Outro desconhecido
- O nacionalismo não é uma ideologia, mas um sistema cultural amplo
- A ideia ficcional de um organismo sociológico que se move pelo calendário do tempo homogêneo e vazio apresenta uma analogia precisa com a ideia de nação, que também é concebida [imaginada] como uma comunidade compacta que se move firmemente através da história. 
- O livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno e que, assim sendo, o jornal não passa de uma forma extrema do livro, um livro vendido em escala imensa, porém de popularidade efêmera. Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. Daí o paradoxo do leitor solitário, que se reproduz e resolve analogamente na cerimônia de massa de consumo diário do jornal e no isolamento absoluto em que avidamente o leitor se apropria do sentido de um romance. A leitura de um romance se desenrola bem no fundo da cabeça, “em silenciosa intimidade”, e no entanto, cada leitor não seria senão a comunidade de leitores “solitários”

Conclusões

- Peregrinações coloniais e senso comunitário do ato de ler: práticas não planejadas que tornaram possível “pensar” a nação. 
- Origem burguesa da ideia de nação: a imaginação nacional nasceu da ruminação de peregrinos e leitores recrutados entre as novas classes proprietárias. A coesão de classe da burguesia, estando fundada numa abstração como o processo de valorização do capital, precisa ser tanto mais imaginada quanto não era nem um pouco concreta, levando em conta o parâmetro anterior. 

*** 

Transcrição de trechos de:
ARANTES, Paulo. “Nação e reflexão”. In ABDALA JR., Benjamin & CARA, Salete de Almeida. Moderna de Nascença: figurações críticas do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006.

Veja mais aqui!