Avançar para o conteúdo principal

Nietzsche

Minha relação com Nietzsche é recente e dúbia. Já não é tanto uma questão de concordar ou discordar, como eu provavelmente faria se fosse antes, mas sim de selecionar em sua obra o que me interessa ou não para, assim, compor o meu fluido e em constante transformação universo de ideias e perspectivas – algo como “afinidades eletivas”. Sua leitura é, como bem pontuam alguns, dura: é preciso não só ter um repertório razoável em diversas áreas do conhecimento como ainda teimar e golpear cada enunciado a fim de quebrar os bloqueios que nos separam de uma compreensão mínima.


Isso, claro, se você não for um erudito. Eu, como aluna de Letras e, mais ainda, com uma formação deficiente desde o ensino fundamental, certamente encontrei inúmeras dificuldades. Quanto mais você lê, mais você se dá conta de que precisa ler mais para entender o que leu. Os grandes pensadores, como Nietzsche, condensam em suas obras uma infinidade de reflexões das mais diversas origens, daí a importância da interdisciplinaridade, que me parece um pouco ofuscada pelo culto à especialização. Sim, é importante afunilar os estudos e analisar os objetos em seus pormenores, mas sem nunca perder de vista o todo.

Uma das falhas na minha formação foi justamente a incapacidade de observar os fenômenos como um todo. Não saber intertextualizar, inter-relacionar, ligar disciplinas umas às outras, conectar fenômenos uns aos outros. Felizmente eu descobri a tempo que não nasci para ser útil, para servir ao mundo prático, fazer dinheiro, empreender - e fui estudar Letras, o que me permitiu, em grande medida, expandir minha mente. O meu empreendimento, na realidade, hoje consiste em desvendar o maior número de perspectivas possível, não em busca de uma verdade absoluta, mas de um autodesenvolvimento e enriquecimento pessoal baseado em experiências nas várias áreas do saber, em especial nas humanas. Daí meu interesse e profundo respeito pela psicologia, pela sociologia e pela filosofia, especificamente. E busco experiências não apenas no âmbito acadêmico, mas nos vários níveis de realidade. De realidade porque creio que não haja uma realidade, mas muitas, e dedico minha vida justamente a encontrar a chave, as ferramentas, os mecanismos para acessar todas as realidades disponíveis ao meu alcance.

Outra lacuna na minha educação, que não deixa de ser consequência direta da acima mencionada, é a dificuldade de memorização. Notas altas no colégio foram, muitas vezes, frutos da decoreba. Já nos primeiros anos da graduação, não se pode dizer que eu tenha decorado conteúdos, porque é algo realmente improvável dentro do meu curso, mas muito do que estudei se perdeu no caminho porque eu não soube absorver e relacionar com outros conhecimentos. Por um lado, sinto uma evolução notável na minha formação nos últimos meses; por outro, ainda persistem diversas dificuldades que, em situações de avaliação, me fazem questionar se efetivamente saí do lugar no que tange à intelectualidade e se verdadeiramente entendi o que é um espírito crítico.

Com tantos e tão significativos rombos no meu orçamento intelectual, é de se esperar que eu tenha abandonado a leitura de Assim falou Zaratustra na primeira tentativa. Eu absolutamente não sabia do que ele estava falando, mas a disposição de suas palavras me provocava, exercia um fascínio em meu sentido estético – como, aliás, aconteceu com tantos outros livros que li. Sempre tive uma leitura especialmente poética de qualquer texto que fosse, buscando novidade e beleza na forma, no arranjo das ideias. Nem sempre era o conteúdo que me atraía, mas a maneira como o conteúdo era organizado.

Não posso afirmar que, na segunda e exitosa tentativa de ler Assim falou Zaratustra, eu tenha absorvido todo o seu sentido, mas, por ter mais repertório, por ter tido contato com outros autores e até mesmo outras experiências entre uma tentativa e outra, desta vez a leitura se fez mais clara e proveitosa.

O meu primeiro pensamento sobre Nietzsche, antes de sequer considerar comprar uma obra sua, foi que ele era um cara que combatia o cristianismo. E só. Mais tarde vim a descobrir que, para entendê-lo, era necessário também discernir fé de religião, entender o papel, ou papéis, da filosofia, além de observar as implicações da ciência e, enfim... A lista de elementos necessários à compreensão de uma obra dele é interminável e eu, certamente, não devo ter metade do repertório necessário para absorvê-lo integralmente.

A minha intenção aqui é recortar alguns aspectos que eu particularmente considero elementares em seu pensamento. Recentemente li três de suas obras: Ecce Homo, Além do bem e do mal e Assim falou Zaratustra, e assisti à palestra abaixo da filósofa Viviane Mosé sobre Nietzsche.


Desta palestra, destaquei pontos como a noção de verdade e liberdade.

De acordo com Mosé, apesar de ter vivido entre 1844 a 1900, Nietzsche antecipou importantes questões que marcaram o pensamento dos séculos XX e XXI.

Atraído pela transformação, o filósofo apreciava o pensamento pré-socrático, fundado no devir, ou seja, na ideia de vida como fluxo contínuo, processo de transformação constante. Não havia, portanto, uma concepção clara de verdade. Esse pensamento arcaico deu a Nietzsche uma visão crítica sobre o cristianismo e sobre a modernidade.

O filósofo observou que a história do pensamento humano é a história da negação da vida, e mais: a criação e a cristalização da verdade. A civilização seria vítima de uma interpretação do mundo (socrático-platônica) que situa a ideia acima do corpo, postulando que o mundo não é apenas este em que vivemos, mas outro, determinado pelo pensamento. Tal concepção mata a pluralidade e o devir, próprios da Grécia arcaica.

A mitologia grega era um modo de interpretar o mundo. Não há um princípio originário, não existe um criador: o homem criava a interpretação do mundo por mediação da arte, não da verdade. Os mitos o auxiliavam a construir perspectivas e eram por si uma realidade, o único recurso que possuíam para interpretar o mundo.

Com a euforia moderna suscitada pelas grandes transformações do século XIX, a atenção recaiu para a ciência, deixando a religião em segundo plano. Mas, bem como no cristianismo, o homem moderno não tem seus pés fincados no presente. Se para o cristão o paraíso está na vida após a morte, para o homem moderno está no futuro, um futuro que reserva boas perspectivas, em que o pensamento, aliado à ciência, dissolverá dores. Ambos os modelos de pensamento nascem com Sócrates e Platão.

Uma questão importante para Nietzsche foi: para que e por que a verdade? A verdade não é um produto da curiosidade humana, e sim do medo da morte. É uma necessidade psicológica de estabelecer duração no mundo, já que não somos capazes de lidar com a vida como ela é. Dizer que a modernidade matou Deus significa dizer que, quando a ciência nasce, a religião perde o seu valor. Para que rezar, se um remédio pode curar? Deus fica em segundo plano. A ciência promete assegurar o futuro, mas a ideia de futuro tira o homem do devir, tanto quanto a ideia do depois da morte.

Quando ao tema da liberdade, Nietzsche crê que o homem é um ser que obedece. A primeira coisa que uma pessoa faz ao nascer é obedecer às leis da vida. Só possível viver respeitando-se às leis da vida, como, por exemplo, a lei da gravidade. No entanto, existe uma lógica na natureza – a liberdade seria, portanto a capacidade de observar essa lógica a fim de saber o momento exato em que se abre um espaço para encaixar o desejo pessoal no desejo do acontecimento, que é a soma de diversos fatores (políticos, geográficos, etc).


Além do bem e do mal

"A falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranha. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo cultiva a espécie; e a nossa inclinação básica é afirmar que os juízos mais falsos (entre os quais os juízos sintéticos a priori) nos são os mais indispensáveis, que, sem permitir a vigência das ficções lógicas, sem medir a realidade com o mundo puramente inventado do absoluto, do igual a si mesmo, o homem não poderia viver - que renunciar aos juízos falsos equivale a renunciar à vida, negar a vida. Reconhecer a inverdade como condição de vida: isto significa, sem dúvida, enfrentar de maneira perigosa os habituais sentimentos de valor; e uma filosofia que se atreve a fazê-lo se coloca, apenas por isso, além do bem e do mal."

"Vocês querem viver 'conforme a natureza'? Ó nobres estoicos, que palavras enganadoras! Imaginem um ser tal como a natureza, desmedidamente pródigo, indiferente além dos limites, sem intenção ou consideração, sem misericórdia ou justiça, fecundo, estéril e incerto ao mesmo tempo, imaginem a própria indiferença? Viver - isto não é precisamente querer ser diverso dessa natureza? Viver não é avaliar, preferir, ser injusto, ser limitado, querer ser diferente? (...) Mas esta é uma antiga, eterna história: o que ocorreu então aos estoicos sucede ainda hoje, tão logo uma filosofia começa a acreditar em si mesma. Ela sempre cria o mundo à sua imagem, não consegue evitá-lo; filosofia é esse impulso tirânico mesmo, a mais espiritual vontade de poder, de 'criação do mundo' (...)"

"Em certos casos, raros e isolados, pode ser que intervenha uma tal vontade de verdade, algum ânimo excessivo e aventureiro, uma ambição metafísica de manter um posto perdido, que afinal preferirá sempre um punhado de 'certeza' a toda uma carroça de belas possibilidades; talvez haja inclusive fanáticos puritanos da consciência, que prefiram um nada seguro a um algo incerto para deitar e morrer. Mas isto é niilismo e sinal de uma alma em desespero, mortalmente cansada, por mais que pareçam valentes os gestos de tal virtude. Entre os pensadores mais fortes, mais vitais, ainda sedentos de vida, as coisas parecem ser diferentes: ao tomar partido contra a aparência, e pronunciar já com altivez a palavra 'perspectiva', ao conceder ao próprio corpo tão pouco crédito quanto à evidência visual que diz 'a Terra está parada', deixando assim escapar entre as mãos, com aparente bom humor, a sua posse mais segura (pois em que se acredita mais firmemente agora do que no corpo?) (...)"

"(...) Está aberto o caminho para novas versões e refinamentos da hipótese de alma: e conceitos como 'alma mortal', 'alma como pluralidade do sujeito' e 'alma como estrutura social dos impulsos e afetos' querem ter, de agora em diante, direitos de cidadania na ciência. Ao pôr um fim à superstição que até agora vicejou, com luxúria quase tropical, em torno à representação da alma, é como se o novo psicólogo se lançasse em um novo ermo e uma nova desconfiança - para os velhos psicólogos, as coisas talvez fossem mais cômodas e alegres; mas afinal ele vê que precisamente por isso também está condenado à invenção - e, quem sabem?, à descoberta."

"Começa a despontar em cinco, seis cérebros, talvez, a ideia de que também a física é apenas uma interpretação e disposição do mundo (...) e não uma explicação do mundo: porém, na medida em que se apoia na crença dos sentidos, ela passa, e deverá passar durante muito tempo, por algo mais, isto é, explicação. Ela tem olhos e dedos a seu favor, tem a evidência ocular e a tangibilidade: sobre uma época de gosto fundamentalmente plebeu isto exerce um efeito fascinante, persuasivo, convincente - afinal, segue instintivamente o cânon de verdade do sensualismo eternamente popular. O que é claro, o que 'esclarece'? Primeiro, aquilo que pode ser visto e tocado - todo problema tem que ser levado até esse ponto. (...)"

"Ainda há os ingênuos observadores de si mesmos que acreditam existir 'certezas imediatas'; por exemplo, 'eu penso', ou, como era superstição de Schopenhauer, 'eu quero': como se aqui o conhecimento apreendesse seu objeto puro e nu, como 'coisa em si', e nem de parte do sujeito nem de parte do objeto ocorresse uma falsificação. Repetirei mil vezes, porém, que 'certeza imediata', assim como 'conhecimento absoluto' e 'coisa em si', envolve uma contradição no adjetivo: deveríamos nos livrar, de uma vez por todas, da sedução das palavras!"

"A causa sui [causa de si mesmo] é a maior autocontradição até agora imaginada, uma espécie de violentação e desnatureza lógica: mas o extravagante orgulho do homem conseguiu se enredar, de maneira profunda e terrível, precisamente nesse absurdo. O anseio de 'livre-arbítrio', na superlativa acepção metafísica que infelizmente persiste nos semieducados, o anseio de carregar a responsabilidade última pelas próprias ações, dela desobrigando Deus, mundo, ancestrais, acaso, sociedade, é nada menos que o de ser justamente essa causa sui (...) deve-se utilizar a 'causa', o 'efeito', somente como puros conceitos, isto é, como ficções convencionais para fins de designação, de entendimento, não de explicação. (...) Somos nós apenas que criamos as causas, a sucessão, a reciprocidade, a relatividade, a coação, o número, a lei, a liberdade, o motivo, a finalidade; e ao introduzir e entremesclar nas coisas esse mundo de signos, como algo 'em si', agimos como sempre fizemos, ou seja, mitologicamente. (...) em geral a 'não liberdade de arbítrio' é vista como problema por dois lados inteiramente opostos, mas sempre de maneira profundamente pessoal: uns não querem por preço algum abandonar sua 'responsabilidade', a fé em si, o direito pessoal ao seu mérito  (...) os outros, pelo contrário, não desejam se responsabilizar por nada, ser culpados de nada, e, a partir de um autodesprezo interior, querem depositar o fardo de si mesmos em algum outro lugar."

"A força dos preconceitos morais penetrou profundamente no mundo mais espiritual, aparentemente mais frio e mais livre de pressupostos - de maneira inevitavelmente nociva, inibidora, ofuscante, deturpadora. Uma autêntica fisiopsicologia tem de lutar com resistências inconscientes no coração do investigador, tem 'o coração' contra si: já uma teoria do condicionamento mútuo dos impulsos 'bons' e 'maus' desperta, como uma mais sutil imoralidade, aversão e desgosto numa consciência ainda forte e animada - e ainda mais uma toeira na qual os impulsos bons derivam dos maus. Supondo, porém, que alguém tome os afetos de ódio, inveja, cupidez, ânsia de domínio, como afetos que condicionam a vida, como algo que tem de estar presente, por princípio e de modo essencial, na economia global da vida, e em consequência deve ser realçado, se a vida é para ser realçada - esse alguém sofrerá com tal orientação do seu julgamento como quem sofre de enjoo do mar."

"Independência é algo para bem poucos: - é prerrogativa dos fortes. E quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, ainda que com todo o direito, demonstra que provavelmente não é apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele penetra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo; dos quais um dos maiores é que ninguém pode ver como e onde se extravia, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência."

"Existem alturas da alma, de onde mesmo a tragédia deixa de ser trágica; e, se as dores do mundo fossem juntadas numa só, quem poderia ousar dizer que a visão dela nos iria necessariamente seduzir e obrigar à compaixão, e desse modo à duplicação da dor?... O que serve de alimento ou de bálsamo para o tipo superior de homem, deve ser quase veneno para um tipo bem diverso e menor. (...) Há livros que têm valor inverso para a alma e a saúde, a depender de quem os utiliza, se uma alma ignóbil, uma baixa força vital, ou uma superior e mais potente (...)"

"Durante a era mais longa da história humana - a chamada era pré-histórica - o valor ou não valor de uma ação era deduzido de suas consequências: não se considerava a ação em si nem a sua origem, mas (...) era a força retroativa do sucesso ou do fracasso que levava os homens a pensar bem ou mal de uma ação. Chamemos esse período de pré-moral da humanidade: o imperativo 'conhece-te a ti mesmo!' ainda não era conhecido. Nos últimos dez milênios, contudo, em largas regiões da Terra chegou-se gradualmente ao ponto em que é a origem da ação, e não mais as consequências, que determina o seu valor: um grande acontecimento no seu todo, um considerável refinamento do olhar e da medida, a repercussão inconsciente do predomínio de valores aristocráticos e da crença da 'origem', a marca de um período que se pode denominar moral no senso estrito: com isso fez-se a primeira tentativa de autoconhecimento. Em vez das consequências, a origem: que inversão de perspectiva! (...) a origem de uma ação foi interpretada, no sentido mais determinado, como origem a partir de uma intenção; concordou-se em acreditar que o valor de uma ação reside no valor de sua intenção. A intenção como origem e pré-história de uma ação: sob a ótica desse preconceito é que, quase até os dias de hoje, sempre se louvou, condenou, julgou e também se filosofou moralmente."