19 de fevereiro de 2014

Influência europeia no Brasil dos séculos XIX e XX

A reflexão proposta por Roberto Schwarz em “As ideias fora do lugar” foca-se especialmente no antagonismo observado entre a sociedade brasileira escravista e agrária do século XIX e a ideologia mais valorizada da época: o liberalismo europeu. O Brasil, recém-emancipado, era ainda um país dividido em latifúndios que dependiam essencialmente do trabalho escravo e do mercado externo. Suas instituições, ainda que proclamassem as teorias do estado burguês moderno, eram regidas pelo clientelismo e as relações de favor. Assim, convém concordar que “no Brasil as ideias estavam fora de centro, em relação ao seu uso europeu”. (SCHWARZ, 2008)

O sistema liberal apontava uma espécie de “superioridade” da Europa, propagando ideias como a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei, o universalismo, o espírito público e racionalista da Ilustração. Tais fundamentos, entretanto, eram na Europa apenas um disfarce para a exploração do trabalho, enquanto que, no Brasil, a prática do escravismo era explícita e até mesmo instituída pela Constituição Brasileira de 1824. 

O sistema político no Brasil, como máquina do colonialismo, não permitiu grandes transformações na ordem social como na Europa, ainda que o país procurasse acompanhar à distância a ideologia da independência. Eram ideias impraticáveis e, ao mesmo tempo, indispensáveis, tanto que acabaram por pesar no Abolicionismo. Aliás, nossa própria emancipação em relação à metrópole havia sido baseada nas ideias liberais francesas, inglesas e americanas, ideias que compunham nossa identidade nacional.

Tendo em vista que nossa sociedade agrícola do século XIX dependia do mercado externo, o comércio internacional continuamente estimulava o raciocínio econômico burguês no Brasil. No entanto, tal conjunto ideológico se choca com a escravidão, que não apresenta especialização do trabalho e imobiliza mais capital do que os trabalhadores livres. A produção escravista dependia mais da autoridade do que da eficácia. A escravidão, portanto, bate de frente com as ideias liberais, que visam ao lucro, desmentindo-as e tornando-as incoerentes no contexto nacional. 

É importante salientar o predomínio do favor nesse período, entendido como o “mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm” (SCHWARZ, 2008), o qual pratica a dependência da pessoa, remuneração e serviços pessoais. Deslocam, assim, as ideias liberais, as quais postulam justo o contrário: a autonomia da pessoa, a cultura desinteressada, a ética do trabalho.

Outro exemplo notável do disparate entre a ideologia europeia e o contexto nacional é um trecho da revista Marmota na Corte, que denuncia a superficialidade da transformação arquitetônica no país. As paredes eram erguidas com trabalho escravo e sobre estas se aplicavam pinturas com motivos greco-romanos, realidade que correspondia apenas a Europa, e não ao Brasil. Assim, os estratos sociais mais abastados recriavam, dentro do sistema de produção agrícola e escravista, ambientes artificiais com características urbanas e europeias. Também podia acontecer de um senhor de terras trocar seus escravos por trabalhadores europeus.

No âmbito da literatura, é válido notar que “a figura caricata do ocidentalizante, francófilo ou germanófilo, de nome frequentemente alegórico e ridículo, os ideólogos do progresso, do liberalismo, da razão, eram tudo formas de trazer à cena a modernização que acompanha o Capital.” (SCHWARZ, 2008)

O texto de Perrone-Moisés, “Galofilia e galofobia na cultural brasileira”, afunila nossos estudos e nos leva a uma reflexão sobre a influência especificamente francesa na cultura brasileira a partir do século XVIII. A autora trabalha com a ideia de uma espécie de relação amorosa entre Brasil e França - relação que não deixa de ser desigual e assimétrica, marcada por tensões e conflitos, tanto no âmbito da diplomacia como entre intelectuais e artistas. Perrone-Moisés analisa também o duplo movimento, recepção e recusa da influência francesa, nas relações Brasil-França. 

As chamadas ideias francesas estão intimamente ligadas aos movimentos a favor da Independência, já que, na teoria, estão associadas à noção de justiça. Mas as leituras francesas eram restritas aos letrados e tiveram um papel meramente ideológico.

A vinda da Missão Francesa após a chegada da corte ao Rio de Janeiro em 1808 é vista muitas vezes como marco inicial da influência francesa no âmbito das artes – o que não ocorreu de forma tranquila, já que se chocava com os princípios barrocos da Colônia, fazendo brotar, portanto, um duplo movimento de admiração e hostilidade. 

A despeito disso, a cultura francófona já estava de certo modo disseminada pela colônia. Não só havia numerosos franceses instalados no Rio como ainda os portugueses eram também contaminados pela influência francesa. Por um lado, as “trocas simbólicas no campo do comércio e dos serviços” estimulavam o progresso, e, por outro, acabavam por fazer nascer também uma desconfiança por parte de alguns colonos devido à concorrência comercial. 

A autora considera o romantismo literário como o momento idílico das relações Brasil-França. A França, modelo de país da liberdade, das Luzes e da própria ideia de nação era vista com bons olhos pela jovem nação brasileira. O próprio movimento de voltar-se para a natureza selvagem, os índios e os valores locais, por parte dos românticos brasileiros, teve influência francesa. Assim, o nacionalismo romântico em alguma medida visava provar que o Brasil também tinha antepassados nobres e uma natureza ainda mais bela que a europeia. 

De acordo com Antonio Candido, a geração romântica tinha por objetivo construir uma literatura nacional, mesclando fatores locais com sugestões externas. O perigo do nacionalismo, no entanto, reside no fato de que implica não apenas a afirmação do “si mesmo”, mas também a rejeição do outro. “Assim, desde esse primeiro momento romântico, aparecem sinais de resistência à influência europeia, e à fascinação francesa em particular”. (PERRONE-MOISÉS, 2007). 

É no fim do século XIX que a influência francesa se torna mais significativa para a elite e no âmbito intelectual. A Academia Brasileira de Letras, por exemplo, foi criada e fundada como uma cópia fiel da Academia Francesa, e o centro da cidade do Rio foi urbanizado com base nos modelos parisienses. Por outro lado, havia também uma luta contra a influência da língua francesa, combatendo galicismos e defendendo o purismo linguístico. Ademais, a europeização que a cidade sofria implicava na expulsão dos menos abastados para as periferias, um sério problema de implicações sociais. 

A discussão que nasceu desse embate foi entre a busca por assemelhar-se o máximo possível da cultura francesa e a reflexão sobre a validade ou não de buscar-se essa semelhança, já que a influência não era mais relacionada ao âmbito intelectual e artístico, e sim a aspectos mais superficiais como a imitação dos cafés, teatros, cardápios, romances, jeitos de se vestir – o que beirava o ridículo. 

Se, por um lado, havia reações nacionalistas a essa subordinação ao modelo francês como o romance Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, por outro, acreditava-se que a influência francesa era inevitável e até mesmo benéfica, numa República criada sob a égide do positivismo. 

Já nos anos 20 do século XX, notamos um embate entre as ideias de Oswald de Andrade, inspirado nas vanguardas parisienses, e Mário de Andrade, que buscava incansavelmente a identidade brasileira. Monteiro Lobato foi outro escritor que expressou opiniões galófobas, posicionando-se contrário à influência francesa exclusiva. No âmbito da literatura, essa oposição ilustra bem a relação “amorosa” problemática entre Brasil e França proposta pela autora. Com as publicações clássicas de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, a discussão instalou-se no terreno da cultura. 

A partir dos anos 60, “o projeto de uma união política dos países latino-americanos provoca reações contrárias às influências estrangeiras” (PERRONE-MOISÉS, 2007). Com o desenrolar dos anos, a influência francesa foi perdendo a força que teve durante mais de dois séculos. Inclusive, a língua francesa, que era ensinada nas escolas, foi retirada do ensino secundário. A influência estrangeira no Brasil, no entanto, “migrou” para a cultura norte-americana. Assim, vai chegando ao fim o a “história de amor” entre Brasil e França. ®

Leituras

PERRONE-MOISÉS, Leyla. “Galofilia e galofobia na cultura brasileira”. In: Vira e mexe nacionalismo: paradoxos do nacionalismo literário. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 50-80.

SCHWARZ, Roberto. “As ideias fora do lugar”. In: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Editora 34, 2008, p. 11-31.