Avançar para o conteúdo principal

Uma espiã na casa do amor - Anaïs Nin

Anaïs Nin,
escritora nascida na França
Imagine um livro que você pensou ter escolhido ao acaso.

Eu estava na Festa do Livro da USP, edição 2013, e, como de costume, fui fazer compras na tenda da L&PM como quem compra cacarecos numa loja de R$ 1,99 só pelo preço, sem saber se vai realmente usar um dia.

(Mas é claro que pretendo ler todos meus livros um dia... Inclusive, os da L&PM acabam sendo sempre os primeiros na fila.)

Então estava lá, já havia pego Nietzsche, Kerouac, Schopenhauer... E vi Anaïs Nin. Havia um único título da autora disponível na editora. Eu já tinha ouvido falar, acho que nunca dei muita bola... Mais de uma pessoa já havia dito que talvez eu gostasse, mas, sabe?, tinha tanta coisa pra ler antes...

E porque achei que dessa vez a L&PM estava fraca de livros, acabei pegando Uma espiã na casa do amor. VAI QUE.



Confesso que, a julgar pelas primeiras páginas, o livro me pareceu só mais uma entre tantas versões de Madame Bovary. Mas, conforme fui avançando na leitura, meus olhos começaram a brilhar... Fui tomada por aquela sensação - um pouco juvenil, não nego - de identificação e reconhecimento. De não sou a única no mundo. Agora faz sentido. Eu poderia ter dito isso. Agora entendo o processo pelo qual tenho passado. Uma impressão que Madame Bovary, nem de longe, pôde me causar, apesar de sua inegável importância na literatura universal.

Não apenas me sentia profundamente conectada à Sabina como ainda me encantava com o trabalho sutil e sensibilíssimo com a linguagem. Nenhuma cena de tirar o fôlego, nenhum ponto alto nas ações, mas uma narração tão lírica de coisas que eu podia entender tão bem.

Sem sombra de dúvida, não foi mero acaso...

" - É verdade. No entanto, você não teria me chamado se fosse inocente. A culpa é o único fardo que os seres humanos não conseguem suportar sozinhos. Assim que um crime é cometido, há uma chamada telefônica ou uma confissão a estranhos.
- Não houve crime nenhum.
- Só existe um alívio: confessar, ser apanhado, investigado, punido. Esse é o ideal de todo criminoso. Mas não é tão simples assim. Apenas a metade do Eu quer expiar a culpa, para se libertar de ser tormentos. A outra metade da pessoa quer continuar a ser livre. Assim, apenas a metade do Eu se rende, clamando 'agarre-me', enquanto a outra metade cria obstáculos, dificuldades; procura escapar. É um flerte com a justiça. Se a justiça for ágil, seguirá o indício com a ajuda do criminoso. Caso contrário, o criminoso se encarregará da própria expiação.
- Isso é pior?
- Acho que sim. Penso que somos juízes mais severos dos nossos próprios atos do que os juízes profissionais. Julgamos nossos pensamentos, nossas intenções, nossas imprecações secretas, nossos ódios secretos, não apenas nossos atos."


"Lentamente, o que ela compôs com o novo dia foi seu próprio foco, a fim de reconciliar corpo e alma. Isso foi feito com esforço, como se todas as dissoluções e dispersões do seu eu na noite anterior fossem difíceis de reagrupar. Ela era como uma atriz que deve compor um rosto, uma atitude para enfrentar o dia."

"Um caos interior, semelhante àqueles vulcões secretos que, de repente, erguem os sulcos nítidos de um campo pacificamente arado, aguardava, por trás de todas as desordens do rosto, cabelo e roupa, uma fissura por onde explodir."

"A imobilidade sempre lhe trouxera essa imagem, a imagem da morte, e era isso que a impelia a se levantar e buscar atividade. O repouso, para ela, assemelhava-se à morte."

"Até esse momento, ela experimentara apenas uma simples rebelião contra as vidas que a cercavam, mas então começou a ver as formas e cores de outras vidas, reinos muito mais profundos, estranhos e remotos a serem descobertos, e percebeu que sua recusa à vida comum tinha um propósito: despachá-la qual foguete em direção a outras formas de existência. A rebelião era apenas a fricção elétrica acumulando uma carga de energia que a lançaria ao espaço. 
Compreendeu por que se irritava quando as pessoas falavam da vida como sendo uma. Tinha certeza de miríades de vida dentro de si. Seu sentido de tempo alterou-se. Sentiu vividamente e com aflição a brevidade do período físico da vida. A morte encontrava-se terrivelmente próxima, e as jornadas em direção a ela eram vertiginosas, mas somente quando levava em consideração as vidas à sua volta, aceitando-lhe os horários, relógios, medições. Tudo que faziam contraía o tempo. As pessoas falavam de um nascimento, uma infância, uma adolescência, um romance, um casamento, uma maturidade, um envelhecimento, uma morte e, então, transmitiam o ciclo monótono a seus filhos. Mas Sabina, ativada pelos raios lunares, sentia germinar dentro de si o poder de entender o tempo nas ramificações de uma miríade de vidas e amantes, para expandir a jornada ao infinito, fazendo imensas e voluptuosas voltas como cortesã depositária de múltiplos desejos. As sementes de muitas vidas, lugares, de muitas mulheres dentro de si foram fecundadas pelos raios lunares, porque vinham dessa vida noturna ilimitada, que geralmente percebemos apenas em nossos sonhos, os quais contêm raízes que se estendem a todas as magnificências do passado, transmitindo os ricos sedimentos ao presente, projetando-os ao futuro.
Observando a lua, ela adquiriu a certeza da expansão do tempo pela profundeza da emoção, extensão e infinita multiplicidade da experiência."

"E sua zona neutra, o momento em que não pertencia a ninguém, quando recompunha de novo seu eu dispersado. O momento do não amando, não desejando. O momento em que alçava vôo, se o homem tivesse admirado uma outra mulher que passasse, ou falasse durante muito tempo sobre um antigo amor, as pequenas ofensas, as pequenas feridas, um estado de espírito de indiferença, uma pequena deslealdade, uma pequena infidelidade, tudo isso eram advertências sobre possíveis erros maiores, a serem neutralizados por uma deslealdade igual, maior ou total, de sua parte, o mais esplêndido dos antídotos, preparado com antecipação para emergências últimas. Ela estava acumulando um suprimento de traições, de modo a que, quando o choque viesse, ela estivesse preparada: 'Não fui apanhada sem saber, a armadilha não se fechou sobre a minha ingenuidade, sobre a minha tola credulidade. Eu já havia traído. Para estar sempre à frente, um pouco à frente das esperadas traições da vida. Para estar ali em primeiro lugar e, assim, preparada...'"

"Certas estradas trilhadas emocionalmente apareciam também no mapa do coração como que se afastando do centro e, no final, levavam ao exílio."

"Nenhum lugar, nenhum ser humano poderia suportar ser olhado pelo olho crítico do absoluto, como se fosse um obstáculo à chegada a um lugar ou pessoa de maior valor criado pela imaginação. Era essa influência maligna que ela exercia em cada quarto, quando se perguntava: 'Fui feita para viver aqui para sempre?'. Essa era a influência maligna, a aplicação do irrevogável, a fixação infinita em um lugar ou relacionamento. Isso o envelhecia prematuramente, acelerava o processo de decadência pelo envelhecimento. Um raio químico da morte, esse concentrado de tempo, infligindo o medo do entorpecimento como um raio consumidor, deteriorando à alta velocidade de cem anos por minuto."

"Os fingimentos, as fugas e os artifícios pareciam-lhe, em seus estados de espírito bem-humorados, esforços alegres e galantes para proteger a todos das crueldades da existência, pelas quais ela não era responsável. O juízo e a boa ação eram empregados para tais fins justificáveis: proteger os seres humanos das verdades insuportáveis.
Mas nenhum dos que ouviam jamais compartilhou seu divertimento súbito: em seus olhares ela lia condenações. Sua gargalhada parecia um sacrilégio, um escárnio de algo que deveria ser considerado trágico. Sabina podia ver em seus olhos o desejo de que ela caísse desse trapézio incandescente no qual passeava com o auxílio de delicadas sombrinhas japonesas de papel, pois nenhum partícipe de culpa tinha o direito a tal habilidade e viver apenas de seu poder de equilíbrio sobre os rigores da vida que ditavam uma escolha, de acordo com seus tabus em relação às múltiplas escolhas. Ninguém dividiria com ela essa ironia e jocosidade contra a rigidez da própria vida; ninguém iria aplaudir quando ela fosse bem-sucedida por causa de sua engenhosidade em derrotar as limitações da vida."

"Os sentidos criavam leitos de rio de respostas, formados em parte pelos sedimentos, pelo desperdício, o alagamento da experiência original. Uma semelhança parcial poderia excitar o que restara do amor extirpado de maneira imperfeita, que não morreu de morte natural."

"Mas quando queria terminar um papel, tornar-se ela própria de novo, a outra se sentia imensamente traída, e não apenas lutava contra a alteração, como também ficava furiosa com ela. Quando um papel se estabelecia em um relacionamento, era quase impossível alterá-lo. E mesmo que fosse bem-sucedida, quando chegava o momento de retornar à verdadeira Sabina, onde estava ela? Caso se rebelasse contra o papel com relação a Donald, se colocasse de novo o disco do Pássaro de fogo, o tambor dos sentidos, as línguas de fogo, e negasse a mãe dentro de si, estaria então retornando à verdadeira Sabina?"

"A selvagem bússola a cujas oscilações ela sempre obedecera, propiciando o tumulto e o movimento em lugar da direção, quebrou-se de repente, de tal como que ela já não experimentava o alívio das vazantes, enchentes e dispersões.
Sentia-se perdida. A dispersão tornara-se vasta demais, extensa demais. Um dardo de dor cortou a forma nebulosa, Sabina movera-se sempre com tanta rapidez que toda dor passara prontamente como que através de uma peneira, deixando uma mágoa parecida à de uma criança, logo esquecida, logo substituída por outro interesse. Ela nunca conhecera uma pausa. (...)
Perdera-se a si mesma em algum lugar ao longo da fronteira entre suas invenções, histórias e fantasias e seu verdadeiro eu. Os limites tornaram-se turvos, as trilhas se apagaram; ela caminhara em direção ao caos puro, e não um caos que a levava como o galope de cavaleiros românticos nas óperas e lendas, mas que de repente revelava os adereços teatrais: um cavalo de papier-mâché."

"Aquele que tem como objetivo a vitória ainda não amou!"