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Morte: a colheita que nos resta

Sabe-se que, alcançada a velhice, vêm à tona questões como a melancolia proveniente das privações, do ócio e da solidão e, sobretudo, as inevitáveis doenças resultantes do envelhecimento natural do corpo. Medicamentos e outros recursos terapêuticos têm o papel de amenizar a debilitação física e o comprometimento da saúde ao longo do tempo, mas até que ponto compensa adiar a tão indesejada morte? Ao refletir sobre as contradições da condição humana, o filósofo Sêneca aconselha: “Considera suprema beleza consumar a vida antes da morte e espera serenamente a parte que resta do teu tempo, não pedindo nada para ti na posse de uma vida feliz, que não se torna mais feliz se for mais longa.”.

Vivemos em um tempo marcado pela supervalorização da vida biológica e seu prolongamento, já que, teoricamente, podemos contar com os inúmeros avanços da medicina. A ciência se propõe, por meio de técnicas cada vez mais aprimoradas, a estender indefinidamente a expectativa da vida humana. Por outro lado, não se compromete em absoluto com a qualidade do tempo estendido que garante com seus milagrosos remédios e tratamentos, assegurando, portanto, não mais do que uma sobrevida, uma subsistência pela qual somos incentivados a lutar com unhas e dentes, até a última “centelha de vida”.

Josué Guimarães,
escritor brasileiro
A questão da tentativa incessante de prolongamento da existência pode ser observada no romance Enquanto a noite não chega (1978), de Josué Guimarães. Conta-se a história de um casal de velhos que apenas sobrevive numa cidade abandonada, insistindo numa vida imóvel, estática... Ali o tempo se arrasta... Sua única distração é lembrar-se do passado e sua única preocupação é a necessidade de comer para manter-se de pé... Queixam-se da dor e da escassez de alimento, aguardam a morte pacientemente para recebê-la como “uma velha amiga de infância”... Mas, ainda assim, não querem entregar-se: basta observar como se empenham em economizar a comida para que dure o maior tempo possível, e como ficam atônitos ao constatar que o coveiro está só esperando que o casal morra para “dar sepultura cristã a estes filhos de Deus”. Aqui, a vida vivida de um já não é mais possível sem a vida biológica de outro: “Eu acho que, se tu morreres primeiro, eu não resisto um dia.”, afirma a velha.

No filme Amour (2012), de Michael Haneke, fica clara essa distinção entre vida como função biológica e vida vivida. A própria ciência que promete adiar a morte é justamente quem submete a personagem Anne a uma lenta e dolorosa decomposição de sua vida biológica, depois de passar por uma cirurgia mal sucedida que terminou por paralisar o lado direito de seu corpo. Eva, a filha do casal, crê que a mãe deve ser levada ao hospital ou ao asilo, onde receberia cuidados especializados e mais eficazes do que os caseiros, mas Georges, seu pai, é contra, pois quer respeitar a vontade da esposa.

Rubem Fonseca,
escritor brasileiro
É compreensível, ainda mais se pensarmos numa instituição como a descrita por Rubem Fonseca, em seu conto “Onze de Maio” (1979), um Lar cujos regulamentos elaborados por médicos e psicólogos visam garantir o “bem-estar” de seus pacientes. Entretanto, o narrador observa que os internos não vivem mais do que seis meses, e durante o tempo que permanecem ali se sentem entediados em seus cubículos; suas necessidades são “descanso e papinhas”; têm como únicas alternativas de lazer andar pelo pátio e assistir a televisão, com programas determinados pelas autoridades do Lar; comem tudo que recebem, sopas ralas inclusive, pois “se você não come, morre”. Afinal, ali, os velhos são internados para morrer. E até lá, não fazem mais do que sobreviver.

Voltando ao filme Amour, Georges é, ao fim e ao cabo, o único que se compromete até o fim com a esposa, e o preço é sua própria degradação. A deterioração da vida biológica de Anne consome também a vida vivida do marido, aumentando a tensão porque a mulher tem consciência disso e degrada-se duplamente por não poder deixá-lo livre. A tensão só se desfaz quando Georges se dá conta de que não vale a pena prolongar uma vida que já não é mais uma vida, mas uma sobrevida; é um corpo que está lutando inutilmente para manter-se funcionando, mas é também uma mente que já não reconhece seus próprios entes queridos; uma boca que necessita receber alimento, mas já não é capaz de emitir palavras compreensíveis. Sem a esposa, Georges também não tem mais do que uma vida biológica, e o processo então se encerra com a sua morte.

Quando apenas sobrevivemos e todos os nossos esforços se resumem a manter de pé nossa estrutura física, quando, enfim, levamos apenas uma vida de objeto e não mais de sujeito, somos privados de nossas vontades. Em situações como a apresentada no filme, em geral a escolha incide sobre a família, e não sobre o indivíduo enfermo, que é considerado incapaz de posicionar-se, porque doente. Muitas vezes, o paciente optaria pela morte se pudesse optar, mas prevalece essa supervalorização da vida que impede que o indivíduo tome a decisão final, e insiste-se em sua vida biológica ainda que o preço seja dias e noites de dor e angústia. Ainda quando tudo indica o inevitável fim, a ciência garante que a morte chegue vagarosa – garante que permaneçamos vivos, não necessariamente que vivamos.



Bibliografia consultada

Leituras:

FONSECA, Rubens. O cobrador. 2ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979, p. 129-155.
GUIMARÃES, Josué. Enquanto a noite não chega. Porto Alegre: L&PM, 2009.
SÊNECA. Aprendendo a viver. Porto Alegre: L&PM, 2008.
           
Obra cinematográfica:

AMOUR. Direção: Michael Hakene. 2012. 127 minutos.

  Apoio teórico:      

ABREU, Antônio Suárez. A Arte de Argumentar: Gerenciando Razão e Emoção. – 8. ed. Ateliê Editorial: São Paulo, 2009, p. 11-35.
CARNIELLI, Walter; EPSTEIN, Richard L. Pensamento Crítico: O poder da lógica e da argumentação. São Paulo: Rideel, 2011, p. 333-371.
MEYER, Bernard. A arte de argumentar. Tradução Ivone C. Benedetti. São Paulo: WMF, 2008, p. 141-168.

SAYEG-SIQUEIRA, João Hilton. Organização do texto dissertativo. São Paulo: Selinunte, 1995, p. 44-83.

(Produção de texto argumentativo - trabalho final da disciplina Tópicos em Teorias do Texto)