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Infância - Graciliano Ramos

Eu nunca havia lido nada do Graciliano Ramos além de Vidas Secas. Por mais que o clássico estivesse entre os meus romances favoritos, as outras obras do autor não me haviam despertado tanto interesse a ponto de colocá-las no começo da fila dos incontáveis livro que me aguardam a leitura. 

Mas neste semestre me matriculei na disciplina de Literatura Infantil e, para a minha surpresa, havia duas obras de GR que podiam ser analisadas no trabalho final: A terra dos meninos pelados e Infância. Eu não sabia que GR tinha se aventurado pelo mundo infantil, e optei por trabalhar com esses dois romances. 

Infância não é propriamente literatura infantil, mas uma autobiografia do autor, elaborada com uma  agudeza de sensibilidade que, para mim, deixa Vidas Secas no chinelo. GR retorna ao passado e resgata questões de sua própria infância, ou melhor, questões que permeiam, é claro que com variações, a infância de todo adulto. 

O primeiro contato com a morte, com a noção de justiça, com as relações de poder, com as diferenças sociais, a sexualidade, a alfabetização, a religião... Enfim, o olhar da criança, ingênuo, confuso e questionador, é trazido à tona na narração de eventos pontuais, que poderiam ser lidos separadamente sem muito prejuízo, pois a linearidade do romance é um pouco frouxa. Mas nem por isso menos genial. Afinal, quando paramos para lembrar e contar histórias do passado, os fatos vêm intercambiados, não em sua ordem real. 

Recomendo porque revela um trabalho estético na reconstituição da infância realmente fascinante e impecável. A seguir, alguns fragmentos:

"A recordação de uma hora ou de alguns minutos longínquos não me faz supor que a minha cabeça fosse boa. Não. Era, tanto quanto posso imaginar, bastante ordinária. Creio que se tornou uma péssima cabeça. Mas daquela hora antiga, daqueles minutos, lembro-me perfeitamente."

"Foi uma dificuldade lembrar-me dela, porque a façanha do garoto me envergonhava talvez e precisei extingui-la. Ouvindo a modesta epopeia, com certeza desejei exibir energia e ferocidade. Encolhido e silencioso, aguentando cascudos, limitei-me a aprovar a coragem do menino vingativo. Mais tarde, entrando na vida, continuei a venerar a decisão e o heroísmo, quando isto se grava no papel e os gatos se transformam em papa-ratos. De perto, os indivíduos capazes de amarrar fachos nos rabos dos gatos nunca me causaram admiração. Realmente são espantosos, mas é necessário vê-los à distância, modificados."

"Nesta vida lenta sinto-me coagido entre duas situações contraditórias - uma longa noite, um dia imenso e enervante, favorável à modorra. Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes."

"Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente. Às vezes as peças se deslocavam - e surgiam estranhas mudanças. Os objetos se tornavam irreconhecíveis, e a humanidade, feita de indivíduos que me atormentavam e indivíduos que não me atormentavam, perdi os característicos."

"Legou-me talvez a vocação absurda para as coisas inúteis."

"Um dia faltou água em casa. Tive sede e recomendaram-me paciência. A carga de ancoretas chegaria logo. Tardou, a fonte era distante - e fiquei horas numa agonia, rondando o pote, com brasas na língua. Essa dor esquisita perturbou-me em excesso. Nos sofrimentos habituais eu percebia gestos desarrazoados, palavras coléricas. A minha vida era um extenso enleio que sobressaltos agitavam. Para bem dizer, eu flutuava, pequeno e leve. De repente, um choque, novos choques, estremecimentos dolorosos. Impossível queixar-me agora. Não me dirigiam ameaças, abrandavam, e as recusas apareciam quase doces. Na verdade não recusavam, Num minuto haveria muitos canecos de água. Chorei, embalei-me nas consolações, e os minutos foram pingando, vagarosos. A boca enxuta, os beiços gretados, os olhos turvos, queimaduras interiores. Sono, preguiça - e estirei-me num colchão ardente. As pálpebras se alongavam, coriáceas, o líquido obsessor corria nas vozes que me acalentavam, umedecia-me a pele, esvaía-se de súbito. E em redor os objetos se deformavam, trêmulos. Veio a imobilidade, veio o esquecimento. Não sei quanto tempo durou o suplício."

"O juízo dos homens era esquisito. Bem esquisito."

"Não conseguiria, porém, tranquilidade. Excitava-ma, preso ao cisco ardente e fuliginoso, ao choro, às lamúrias, propenso, num gosto mórbido, a torturar-me.
Seguindo o resto do grupo inconsolável, cheguei-me ao tronco escuro, exposto no chão, uma preciosidade. Por quê? Não me capacitava do valor, estranhava que se referissem a ele com respeito, lhe dessem nome de cristão. Pedaços da realidade me entravam no entendimento, eram repelidos, tornavam, confusos. Afirmações e negações quase simultâneas me assaltavam. Jazia ali um ser humano. Logo recusava a proposição insensata. Nada de humano: tinha a aparência vaga de um rolo de fumo."

"Nesse tempo, em razão de culpas indecisas, costumavam prender-me algumas horas na loja. Sentenciavam-me sem formalidades, mas o castigo implicava falta. E ali, no silêncio e no isolamento, adivinhando o mistério dos códigos, fiz compridos exames de consciência, tentei catalogar as ações prejudiciais e as inofensivas, desenvolvi à toa o meu diminuto senso moral. Atrapalhava-me perceber que um ato às vezes determinava punição, outras vezes não determinava. Impossível orientar-me, estabelecer uma norma razoável de procedimento. Mais tarde familiarizei-me com essas incongruências, mas no começo da vida elas me pareciam sem disfarces e me atenazavam."

"Muitas infelicidades me haviam perseguido. Mas vinham de chofre, dissipavam-se. Às vezes se multiplicavam. Depois, longos períodos de repouso. Em momentos de otimismo supus que estivessem definitivamente acabadas."


"De fato estavam apenas adormecidas, a cicatrização fora na superfície, e às vezes a carne se contraía e rasgava, o interior se revolvia, abalavam-me tormentos indeterminados, semelhantes ao que me produziam as histórias de almas do outro mundo. Desânimo, covardia."

"Na verdade os melhores [mestres] que tive foram indivíduos ignorantes. Graças a eles, complicações eruditas enfraqueceram, traduziram-se em calão."

"Na prosperidade, os hábitos da família não se modificavam, porque a ausência de saber limitava os desejos; se a penúria chegava, permaneciam todos calmos, recolhendo-se à boca da noite, rezando o terço."

"Preso ao depósito sinistro, um nó a apertar-me as goelas, senti desejo de chorar. Sentimento diverso do que me assaltava quando ouvia histórias de casas mal-assombradas. O desespero me paralisava. Asco, a sensação de me achar caído numa estrumeira, sem poder limpar-me, e a certeza de haver em qualquer parte irremediável estrago. Aquilo era feio e triste. E a feiúra e a tristeza se animavam, arreganhavam dentes fortes e queriam morder-me. Engano: indiferença, imobilidade. A imobilidade e a indiferença me atraíam. Tentei invocar almas penadas, os diabos que se agitam nas chamas eternas. Essas criaturas me inspiravam piedade ou terror. Diante das carcaças nuas, era impossível comover-me. Loucura supor que mangassem de mim."

"Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou  minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar."

Abaixo, reproduzo o trabalho final da disciplina:

A terra dos meninos pelados

Sejam bem-vindos à terra dos meninos pelados, um país com costumes e fenômenos nunca vistos antes a não ser na vasta imaginação das crianças que, livres de concepções preestabelecidas, têm o privilégio de poder recriar o mundo e inventar novas terras onde tudo funciona de maneira peculiar e as diferenças são respeitadas.

Tatipirun é país em que carros, troncos e bichos falam; em que o rio abre e fecha suas margens quando bem entende; em que as pessoas têm nomes incomuns e dormem no chão com um olho aberto e outro fechado para poder observar tudo; em que a temperatura é amena, não chove, o sol não se põe e só existe dia; não há doenças, ninguém envelhece e as coisas vivas não mordem... Um país onde meninas podem virar princesas e logo em seguida desvirar se cansarem da brincadeira - sem formalidades, sem burocracias!

O narrador que estrutura a história e nos conduz no passeio a tão inusitada terra está em terceira pessoa e é onisciente, gozando de total acesso à subjetividade do nosso protagonista, o “Dr. Raimundo Pelado”. Raimundo era um garoto distinto dos demais, tinha bom gênio, a cabeça pelada e um olho de cada cor. Por suas características físicas fora dos padrões, era zombado pelos moleques da rua. Com isso, adquiriu o hábito de falar sozinho e se fechar em um universo só seu, inventando em sua imaginação um país de meninos que tivessem mais afinidade com as suas ideias e a sua aparência.

Em nenhum momento o narrador questiona ou duvida da existência da terra dos meninos pelados, tratando-a com a maior naturalidade do mundo, como um pai que conta histórias fantasiosas nas quais demonstra acreditar para captar e manter a atenção do filho. Aliás, esse narrador intruso, especialmente no início da aventura, parece deixar marcas sutis de um vínculo afetivo com o personagem, como quando nega que fosse maluco por conversar sozinho, e exclama, assertivo: “Estava nada!”. Tal convicção, seguida de um ponto de exclamação, pode insinuar sua predileção por Raimundo e marcar sua imparcialidade.

Além disso, em outras situações se refere ao protagonista como “o pequeno”, “o menino” e mais tarde como “o viajante”, ao passo que outros personagens, como os que tiram sarro de Raimundo, não recebem nome, mas são chamados de moleques, de “o moleque do tabuleiro” ou “o italianinho da esquina”. Apenas quando ingressamos em Tatipirun é que os personagens passam a ser nomeados.

O recurso à onisciência nos permite acompanhar toda a trajetória de Raimundo pela terra dos meninos pelados, o espaço onde se sente pertencente, onde pode identificar-se com os outros garotos. O narrador – e o leitor junto - observa bem de perto as caminhadas do garoto, sua interação inicial com o automóvel, a dona Laranjeira e os animais, sua chegada à beira do rio das Sete Cabeças, o encontro com o primeiro rapazinho da terra dos meninos pelados e com a aranha que lhe cede uma túnica de seda azul.

Este narrador tem profunda consciência dos sentimentos do personagem. Sabe que Raimundo não se zanga quando lhe chamam de “pelado”, mas que se entristece e se aborrece quando os garotos dos arredores fogem dele. É capaz de captar os baques no seu coração, suas pequenas e grandes surpresas, seus sustos e receios, suas invenções, seus constrangimentos e desconfianças.

No entanto, a partir do momento em que Raimundo começa a interagir com as pessoas e os bichos de Tatipirun, o narrador frequentemente empresta sua posição privilegiada aos personagens, cedendo-lhes a voz em uma porção de diálogos em discurso direto. É interessante notar como outras narrativas são inseridas dentro da própria narrativa. Um caso curioso é quando aparece na história a guariba cabeluda, esquecida e “paleolítica”, que Raimundo imagina ser mais velha e ter um repertório de histórias para contar. A pedidos, o bicho inicia uma história sobre um menino que vira passarinho, depois aranha, depois mosquito... Mas acaba dormindo no meio da narração.

Também nos chama a atenção o fato de que, apesar de vez ou outra emprestar sua voz, o narrador não faz distinção entre a linguagem empregada em seu próprio discurso e a linguagem dos personagens. É possível que esse seja um recurso para aproximá-lo ainda mais de seu protagonista, não marcando distância e, portanto, realçando a sua crença naquilo que está relatando ao leitor.

Essa confiança na veracidade da própria narrativa também pode ser observada quando dá asas à imaginação infantil. Em dado momento da viagem à terra dos meninos pelados, Raimundo inventa que sua cidade se chama Carambará. Um pouco mais tarde, ele mesmo alega que os habitantes de Tatipirun não entendem de geografia e admite que inventou o nome, que não existe Carambará. A rã, por sua vez, o incentiva a fazer de conta que existe, que sempre existiu. Raimundo pergunta se a bicha tem certeza; a rã responde que sim, ao que ele constata, finalmente, que Carambará, de fato, existe.

A possibilidade de que haja outros países, com povos de aparências, hábitos e crenças distintas, ou mesmo a possibilidade de haver outras realidades, outras dimensões – a que está inserido materialmente e a imaginação, por exemplo - é uma das lições que Raimundo leva dessa aventura. Isso está explícito em um importante diálogo que acontece entre Caralâmpia e Sira, em que esta segunda pergunta “Por que é que não existem pessoas diferentes de nós?” e em seguida afirma “Se há criaturas com duas pernas e uma cabeça, pode haver outras com duas cabeças e uma perna”.

A experiência que teve na terra dos meninos pelados é tão forte e transformadora que, quando está preparando seu retorno para “Cambacará”, o protagonista diz que vai contar aos outros garotos da rua tudo o que havia vivido em Tatipirun e ensinar-lhes o caminho. Raimundo tem ciência de que as aventuras pelas quais passou não foram à toa.

Ao deslocar-se de sua terra natal, os valores são alterados ou invertidos. Em Tatipirun, não há pessoas grandes e, o que era considerado feio (ser careca e ter um olho de cada cor) em “Cambacará”, na terra dos meninos pelados passa a ser natural, e até os animais têm um olho de cada cor. Ser cabeludo e ter olhos de uma cor só já não são qualidades positivas. As ideias de mundo que Raimundo traz para essa terra são vistas como extravagantes; o que é tolice para uns não é para outros.

Infância

A primeira grande diferença entre este obra e a anteriormente analisada é que, em Infância, o narrador está em primeira pessoa e é o próprio protagonista que, por sua vez, é o próprio autor. Falamos de uma autobiografia de Graciliano Ramos, cujo campo semântico está intrinsecamente ligado à questão da memória e de como recuperá-la e emergi-la à superfície da narração, mas agora do ponto de vista do protagonista adulto: “Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente”, declara o narrador.

Sua voz fala a partir de um presente trazendo à tona um passado distante, servindo-se de expressões tais como “guardei na memória”, “datam desse tempo as minhas mais antigas recordações”, “talvez nem me recorde bem” e “não conservo a lembrança”. Mencionamos passado distante pelo fato de que, em alguns momentos, realidade e imaginação se confundem devido à distância temporal. O narrador nos alerta disso, argumentando que se lembrar de uma hora ou de minutos longínquos não quer dizer que sua cabeça seja boa.

Enquanto em A terra dos meninos pelados, como vimos, o narrador não suspeita dos acontecimentos que relata, em Infância as recordações narradas são, muitas vezes, imprecisas e nebulosas. Inclusive, aqui o narrador admite que talvez conserve apenas a reprodução das coisas, “corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma”. Sequer recorda que idade tinha quando inicia seu relato: pelas contas da mãe, “andava em dois ou três anos”.

Para completar, além da imaginação fantasiosa e da realidade recordada, de retalhos, disparates, notícias vagas e retratos desbotados, sons estranhos e palavras misteriosas, sombras e vagos clarões, vozes e vultos, também são introduzidas na narrativa imagens de sonhos que o protagonista teve. Há, contudo, lembranças que são mais nítidas, mais vivas que as outras. O narrador está convencido de que algumas coisas realmente existiram. E o tumulto inicial vai, gradativamente, assumindo uma forma um pouco menos instável, até alcançar certa linearidade e fluidez.

O intento de estruturar suas memórias da infância parece dar-se no momento mesmo da escrita. O leitor pode acompanhar de perto os esforços que o narrador faz para trazer uma lembrança clara, nítida. O processo de resgate da recordação por vezes é descrito, como no trecho a seguir:

“Lentamente adquirem sentido de uma historieta se esboça:

Acorde, seu papa...

Papa que? Julgo a princípio que se trata de papa-figo, vejo que me engano, lembro-me de papa-rato e finalmente de papa-hóstia. É papa-hóstia, sem dúvida:

Acorde, seu Papa-hóstia,
Nos braços de...

(...) Subitamente as fugitivas aparecem e com elas o início da narrativa:

Acorde, seu Papa-hóstia,
Nos braços de Folgazona.

(...) Vacilo um minuto, buscando cá por dentro a forma exata da composição (...)”

O narrador mostra-se ciente de que as perspectivas do eu do passado e do eu do presente são distintas: por exemplo, a sala que “com certeza não era vasta, como presumi (...) contudo pareceu-me enorme”. O eu do passado é um ser que se pasma, se maravilha, se surpreende, porque é o eu criança, a criança que vê e se admira com as coisas do mundo, mas quem traz essas descobertas à tona é o narrador do presente, com sua leitura de “gente grande”, que olha para trás na tentativa de organizar suas recordações e não deixa de opinar e julgar as pessoas e acontecimentos.

Temos um exemplo disso quando o protagonista recorda boa parte de uma obra popular sobre a coragem de um menino vingativo que sua mãe lhe contava. O narrador revela que, ao ouvir a “modesta epopéia”, quis possuir energia e ferocidade; porém, mais tarde, “entrando na vida”, se deu conta de que não tinha jeito para violência e que os “indivíduos capazes de amarrar fachos nos rabos dos gatos” nunca lhe causaram admiração.

Outro exemplo é quando fala de seu avô paterno, que fora músico. Primeiro, o narrador afirma que o avô “tinha habilidade notável e muita paciência”, para, logo em seguida, questionar sua própria afirmação: “Paciência?”. Por fim, corrige a si mesmo e completa: “Acho agora que não é paciência. É uma obstinação concentrada, um longo sossego que os fatos exteriores não perturbam.”. A distância entre o eu do passado e o eu do presente está marcada pelo advérbio “agora”: aquilo que, antes, na infância, era visto como paciência, agora, na fase adulta, é visto como obstinação concentrada. Ou seja, os paradigmas foram se transformando com o amadurecimento do protagonista.

O mesmo se dá com a avó, que apenas anos depois contou ao protagonista seus “desgostos íntimos” e, só então, ele foi capaz de se dar conta de que ela “havia sofrido e era boa”. Na infância, contudo, não lhe notou a bondade. É natural da criança ter impressões distorcidas de quem realmente são seus familiares e, só depois de crescida, perceber que, ou não eram tudo aquilo que imaginavam, ou tinham qualidades que ela ainda era incapaz de perceber ou compreender.

O narrador revela também que tardou para se dar conta de que a fazenda onde morava pertencia ao pai e que havia diferenças sociais entre ele e outros indivíduos com quem convivia. Um pai grave, silencioso, que poupava energia para vigiar, gritar e dar ordens. Um homem que não estava nem embaixo, “livre de ambições”, nem em cima, “na prosperidade”, mas justamente no meio, “avançando a custo.” Aqui também se recorre ao advérbio temporal para pontuar a diferença de ponto de vista entre o passado e o presente: “Hoje acho naturais as violências que o cegavam”, com o que podemos inferir que, na infância, o comportamento paterno causava reações negativas e não passavam indiferentes.

O movimento entre o passado e o presente se repete em diversos momentos e é constante na obra. Esse pêndulo entre o antes e o agora algumas vezes é marcado gramaticalmente, outras vezes não; advérbios como “agora” ou “hoje” se contrapõem a expressões como “naquele tempo”, “então” ou “naquela época”. O passado é exposto tal como sentido na infância, mas também com o olhar crítico e julgador do presente que o analisa enquanto o reproduz por escrito. É possível que esse procedimento tenha surgido da necessidade do narrador de voltar o olhar para trás, recuperar coisas e pessoas do passado para poder avaliá-los a partir de sua perspectiva do adulto maduro, pois, às vezes, é preciso organizar nossa história vivida para compreender coisas que se manifestam no presente.


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