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On the Road - Jack Kerouac

Não escapei, como muita gente que conheço, do fascínio que essa obra causa. Comecei pelo filme, confesso que sem tantas expectativas, e só depois li o livro. 

Ficava boquiaberta conforme ia lendo. No metrô, de pé, andando, qualquer canto era lugar para abrir e devorá-lo. Cresceu vertiginosamente a minha ânsia por viajar.


A minha trilha sonora de leitura foi principalmente Morphine e Nina Simone.

As citações falarão por mim...

"Fiquei ligadíssimo nas cartas por causa do jeito ingênuo e singelo com que elas pediam a Chad para lhe ensinar tudo sobre Nietzsche e todas aquelas maravilhas intelectuais que Chad conhecia." 

"(...) para ele, sexo era a primeira e única coisa sagrada e realmente importante na vida, ainda que ele tivesse que suar e blasfemar para ganhar o pão e assim por diante."

"Embora fosse uma gatinha, ela [Marylou] era terrivelmente estúpida e capaz de coisas horríveis."

"(...) era apenas um jovem marginal deslumbrado com a maravilhosa possibilidade de se tornar um verdadeiro intelectual, e gostava de falar com sonoridade, usando, de modo confuso, as palavras que ouvira da boca de 'verdadeiros intelectuais'; mas ele não era tão ingênuo assim no resto todo, sabe como é?" 

"De qualquer forma, nos entendíamos em outros níveis de loucura (...)"

"Ele era apenas um garotão tremendamente apaixonado pela vida e, mesmo sendo um vigarista, só trapaceava porque tinha uma vontade enorme de viver e se envolver com pessoas que, de outra forma, não lhe dariam a mínima atenção. Ele estava me enrolando e eu sabia (casa, comida, roupa lavada, 'como escrever' etc), e ele sabia que eu sabia (essa, na verdade, seria a base do nosso relacionamento), mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa - sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes um em volta do outro, como novos amigos apaixonados. Comecei a aprender com ele tanto quanto ele provavelmente aprendeu comigo." 

"'É isso aí, homem, assim que se fala.' E eu podia ver uma espécie de iluminação sagrada transpassando sua inspiração e suas visões, que ele tratava de descrever tão torrencialmente que as pessoas nos ônibus se viravam para ver quem era aquele 'maluco superligado.'"

"Duas cabeças iluminadas como eram, eles se ligaram no ato. Um par de olhos penetrantes relampejou ao cruzar com dois outros olhos penetrantes - o santo vagabundo de mente reluzente e o angustiado poeta vagabundo de mente sombria que é Carlo Marx. (...) As energias deles entraram em fusão; comparado a eles, eu não passava de um paspalho, era incapaz de acompanhar aquele ritmo. Começa então o louco redemoinho de tudo que ainda estava por vir; e ele misturaria todos meus amigos e o pouco que restava da minha família numa gigantesca nuvem de poeira pairando sobre a Noite Americana." 

"Eles varavam as ruas juntos com aquele jeito que tinham no começo, e que mais tarde se tornaria muito mais melancólico, perceptivo e vazio. Mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo certo fervilhante - pop! - pode-se ver um brilho azul e intendo até que todos aaaaaaah"."

"Mas a inteligência de Dean era muito mais brilhante, formal e completa, sem nada daquela intelectualidade tediosa."

"Além disso, todos os meus amigos nova-iorquinos estavam numa viagem baixo-astral, naquele pesadelo negativista de combater o sistema, citando suas tediosas razões literárias, psicanalíticas ou políticas, enquanto Dean simplesmente mergulhava nessa mesma sociedade, faminto de pão e amor, e ele estava pouco se lixando para tudo isso, 'desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, garoto' ou 'contanto que eu arranje o que comer, meu filho, sacou? Estou com fome, morrendo de fome, vamos comer, agora, já!' - e lá íamos nós comer (...)"

"Mesmo que minha tia me avisasse que ele fatalmente me traria problemas, eu podia escutar um novo chamado e vislumbrar um novo horizonte, e acreditei neles com todo o fervor da minha juventude; uns pequenos contratempos ou mesmo a eventual rejeição de Dean, que mais tarde me abandonaria em sarjetas famintas e camas enfermas - o que me importava? Eu era um jovem escritor e tudo o que queria era cair fora."

"Acordei com o sol rubro do fim de tarde; e aquele foi um momento marcante em minha vida, o mais bizarro de todos, quando não soube quem eu era - estava longe de casa, assombrado e fatigado pela viagem, num quarto de hotel barato que nunca vira antes, ouvindo o silvo das locomotivas, e o ranger das velhas madeiras do hotel, e passos ressoando no andar de cima, e todos aqueles sons melancólicos, e olhei para o teto rachado e por quinze estranhos segundos realmente não soube quem eu era. Não fiquei apavorado; eu simplesmente era uma outra pessoa, um estranho, e toda a minha existência era uma vida mal-assombrada, a vida de um fantasma." 

"'Tenho uma garota que ronrona, ela tem só 16 aninhos, é a gatinha mais mimada que você já viu', repetindo esse refrão e misturando outras frases no meio, falando sobre o quão longe ele estivera e como gostaria de voltar para ela, mas a tinha perdido para sempre."

"'Você acaba de encontrar o homem certo', garantiu Eddie, mas eu já não estava tão seguro quanto a mim. 'Simplesmente não dormirei nunca', decidi. Havia tantas outras coisas interessantes para fazer."

"E eu disse: 'Esse último detalhe é inatingível, Carlo. Ninguém jamais consegue atingir esse último detalhe. Mas continuamos vivendo na esperança de alcançá-lo de uma vez por todas."

"Ele não estava bêbado de álcool, apenas embriagado daquilo que realmente gostava: multidões fervilhantes."

"Fiquei com vontade de ver Rita novamente e lhe dizer uma porção de coisas, e realmente fazer amor desta vez, e tranquilizar seus temores em relação aos homens. Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Não me refiro a galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso."

"Daria tudo para estar no ônibus com ela. Uma angústia trespassou meu coração, como acontecia sempre que via uma garota pela qual estava apaixonado indo na direção oposta neste mundo grande demais."

"Nos abraçamos com força. Mantivemos longas, sérias conversações, tomamos banho, discutimos com a luz acesa e depois com a luz apagada. Algo estava sendo provado, eu a convencia de alguma coisa, que ela aceitava, e concluímos o pacto na escuridão arfando, depois satisfeitos, como cordeirinhos."

"(...) mas a maior parte do tempo ficamos sozinhos, misturando nossas almas cada vez mais, cada vez mais, até que seria terrivelmente difícil dizer adeus." 

"O sol foi se avermelhando. Nada foi concluído. O que havia para se concluir?"

"'Claro, baby, mañana.' Era sempre mañana. Foi tudo o que eu ouvi durante toda a semana seguinte - mañana, uma palavra adorável que provavelmente quer dizer paraíso."

"Praguejei e praguejei. Olhei para o céu escuro e pedi a Deus por uma vida menos árdua e uma chance melhor para fazer algo por aquela gente que eu amava. Mas ninguém estava prestando atenção e mim lá em cima. Eu já deveria saber disso." 

"Não é verdade que você começa a vida como uma criancinha crédula sob a proteção paterna? E então chega o dia da indiferença, em que o cara descobre que é um desgraçado, um miserável, fraco, cedo e nu, e com a aparência de um fantasma fatigado e fatídico avança trêmulo por uma vida de pesadelo. Me arrastei para fora da estação, desfigurado. Estava fora de mim. Daquela manhã tudo o que eu podia perceber era sua própria palidez, como a palidez de um túmulo."

"De repente, comecei a rir. Estava completamente só no carro, esperando enquanto ele dava uns telefonemas de negócios em Allentown, e eu ria e ria. Deus, eu estava farto e de saco cheio da vida."

"E durante todo esse tempo Dean estava excitadíssimo com tudo que via, com tudo que falava, com cada detalhe de cada instante que havia passado. Estava fora de si com uma fé autêntica."

"Tenho implorado e implorado a Marylou por um entendimento pleno e pacífico, de puro amor entre nós, com o fim de todas as discórdias para sempre - ele compreende, mas seus pensamentos estão concentrados noutras coisas -, ela me persegue, se recusa a compreender o quanto a amo, está traçando minha sina."

"Dean se fora, restava o silêncio de sua retirada. Era uma noite chuvosa. Era o mito da noite chuvosa. Dean estava abobalhado e reverente. Essa loucura não iria conduzir a lugar algum. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, e de repente percebi que era apenas a erva que estávamos fumando; Dean tina comprado um pouco em Nova York. Ela me fazia pensar que tudo estava prestes a acontecer - aquele momento em que você sabe tudo e tudo fica decidido, para a eternidade."

"Eram três crianças deste planeta tentando decidir algo dentro da noite e tendo todo o peso dos séculos obstruindo a escuridão à sua frente. Havia uma quietude estranha no apartamento."

"Ficamos maravilhados, percebemos que estávamos deixando para trás toda a confusão e o absurdo, desempenhando a única função nobre da nossa época: mover-se. E nos movíamos!"

"Mas para que pensar nisso quando se tem pela frente toda a vastidão dourada da Terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los?"

"Agora veja só, Sal, Deus existe mesmo, porque continuamos ligados a essa cidade, não importa o que a gente tente fazer, e você já deve ter notado o estranho nome bíblico dela, e o personagem bíblico ainda mais estranho que nos fez parar aqui mais uma vez; todas as coisas estão atadas umas às outras como se a chuva unisse o mundo inteiro numa única corrente..."

"Certa vez perguntei: 'O que vai acontecer conosco quando morrermos?'. E ele respondeu: 'Quando morrermos estaremos mortos, só isso.'"

"Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? - é o vasto mundo nos engolindo, e é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu."

"Nós captamos a vida, Sal, ambos estamos envelhecendo pouco a pouco e começamos a saber cada vez mais das coisas. O que quer que seja que você fale a respeito da sua vida, compreenderei com perfeição. Sempre percebo teus sentimentos e agora você já está no ponto, está pronto para se ligar a uma garota legal de verdade, caso consiga encontrá-la; você precisa conversar com ela, fazê-la captar tua essência, como de todas as formas tenho tentado fazer com essas minhas malditas mulheres."

"Olhei pela janela. Lá estava ele, sozinho no limiar da porta, curtindo a efervescência da rua. Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza - tudo lhe pesava nas costas enquanto à sua frente descortinava-se a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser."

" (...) como eu era horrível e quanta sujeira eu estava descobrindo no fundo de minha própria e impura psicologia."

"Toda aquela velha estrada do passado desenrolava-se vertiginosamente como se a taça da vida tivesse sido entornada e tudo houvesse enlouquecido. Meus olhos ardiam naquele pesadelo acordado."

"Dean me mostrou outras fotos. De repente percebi que eram essas as fotografias que nossos filhos olhariam algum dia, com espanto, pensando que seus pais tinham vivido vidas ordeiras, tranquilamente, tudo conforme o figurino, e que eles acordariam de manhã para percorrer orgulhosamente as calçadas da vida, sem jamais sonhar com a loucura esfarrapada e a balbúrdia de nossas vidas reais, de nossa noite real, o inferno disso tudo e a estrada do pesadelo sem sentido. Tudo isso num vazio sem começo nem fim. O, a santa ignorância dessas pobres crianças."

* itálicos meus