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O cobrador - Rubem Fonseca


Nunca tinha lido nada do Rubem Fonseca. Para ser sincera, nem o conhecia. Mas aí, no trabalho final da disciplina Tópicos em Teorias do Texto, um dos contos a ser utilizado como ponto de partida na elaboração de um texto argumentativo era Onze de Maio, particularmente um dos melhores do livro.

Terminado o trabalho, decidi ler a obra toda, e que surpresa boa! Uma abordagem ácida de temas polêmicos que me prendeu numa leitura quase ininterrupta.

"Existem pessoas que não se entregam à paixão, sua apatia as leva a escolher uma vida de rotina, onde vegetam como “abacaxis numa estufa d’ananases”, como dizia meu pai. Quanto a mim, o que me mantém vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes, amor, ódio, gozo, misericórdia."

"Depois deitei no sofá e fiquei pensando. Quando era menino eu gostava de fingir que ia dormir para poder ficar pensando sem ninguém me interromper. Os adultos ficam preocupados quando vêem uma criança quieta pensando. Eu passava, e passo, a noite, ou grande parte dela, acordado, pensando."

" (..) perguntou se eu estava escrevendo alguma coisa. Essa é uma pergunta que vivem nos fazendo, a nós escritores, como se não parássemos nunca de escrever; nós paramos, e às vezes damos um tiro na cabeça por causa disso."

"O que aconteceu com você, ela perguntou sarcástica, está mais calvo e grisalho, com um jeito de velho, algum problema de saúde? Olhamo-nos, hostis e impiedosos, à maneira daqueles que deixaram de se amar. Deve ser mesmo a idade, respondi, o pior de todos os venenos."

"Respondi que o amor era necessário ao desenvolvimento espiritual do homem, que o sexo era inocente e bom, uma parte importante da experiência estética e espiritual, como o prazer da música e da poesia."

"Eu nunca seria capaz de escrever sobre acontecimentos reais da minha vida, não só porque ela, como aliás a de quase todos os escritores, nada tem de extraordinário ou interessante, mas também porque eu me sinto mal só de pensar que alguém possa conhecer a minha intimidade. É claro que eu poderia camuflar os fatos com uma aparência de ficção, passando da primeira para a terceira pessoa, acrescentando um pouco de drama e comédia inventados, etc. É isso o que muitos escritores fazem e talvez seja a razão pela qual a literatura deles é tão fastidiosa."

"E perguntou também se o orgasmo era uma espécie de agonia. Parecia que tudo havia sido um sonho, meu corpo todo formigava, dormente, e minha cabeça parecia ter explodido em miríades de ínfimas partículas que pairavam no ar como um gás denso e então entendi o que o poeta chinês queria dizer ao afirmai que a mente é ampla nuvem flutuando."

"Querer produzir as belas letras é tão ruim quanto querer ser coerente. Eu sou diferente a cada semana, a cada dia, sou contraditório, bruto e delicado, cruel e generoso, compreensivo e impiedoso."

"Eu amo esta menina. Ah, o amor, o amor, sentenciou Boris. Tudo tem um ônus, um preço, um imposto, uma carga, um gravame."

"A invenção vem da imaginação e a imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada."

" (...) ah, as utopias, os sonhos da ciência nada valem, a vida é um escárnio sem sentido, comédia infame que ensangüenta o lodo!"

"Ação, ação, isso é que é importante, não escrever, e muito menos rimar, vide a vida monótona dos escritores."

" (...) a doce e bela criança ignora que a medicina não salva ninguém da morte, se todos os médicos desaparecessem a saúde do povo nada sofreria, se não existissem médicos as pessoas seriam obrigadas a descobrir o próprio corpo e saber como ele se comunica com a mente. Ah a cabeça! coisas estranhas temos dentro da cabeça."

"Luísa supõe que sou louco. Loucura e juventude são coisas parecidas, a mente flutua sem limites por espaços e tempos vazios."

"Uma tarantela agitada na minha cabeça. Divago. Minha imaginação é um cavalo selvagem em disparada, no qual cavalgo sem freio."

"Lancei-me ao desviver, gastei na insânia das paixões a minha vida inteira, qual o fervor da escuma na cachoeira quebrei os meus sonhos e do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto. Aplausos, gritos, tapinhas nas costas, efeitos do vinho. Insânia das paixões!"

"O amor de um homem por uma mulher, exclamo, e agarro os ombros de Luísa e o seu hálito de virgem se funde com meu hálito fétido de ébrio imundo, vejo minha face no espelho de lodo pútrido e o doce rosto de Luísa exprime a revelação que aos poucos toma conta da sua mente e se aproxima lentamente, e nossas bocas se encontram, e dizemos um para o outro que não temos medo e somos lindos e nossos sonhos são bons e nossos corações são puros e deitamos na cama e abrimos corpo e espírito à nossa paixão, messe e paz, memória eterna."

"Foi bom e alegre? Sim, o amor tem que ser alegre, o dia em que os amantes deixarem de rir juntos é porque o amor acabou."

"A morte quando se aproxima traz com ela um aroma horrível. Não te vás, não me deixes aqui com toda a tristeza do mundo. Há, nesta vida, páginas turvas que não se apagam, nódoas que não se lavam. Sofro tanto, um Deus irado manchou de negra profecia os meus dias ao nascer, o país vacila, vê a mentira no que existe e a falsidade no que pode vir, tudo está profanado, de todas as assembléias, das vozes populares das praças públicas, das academias, de todas as associações deve correr grande luz, porque a chaga do povo é funda."

"Competente sim, inescrupuloso e cínico não. Apenas um homem que perdeu a inocência, eu disse."

"Sou muito nervoso, jogo xadrez para me irritar, explodir in camera, lá fora é perigoso, tenho que manter a calma."

"Desde que horas você está tomando vinho?, Berta perguntou, entrando na sala. Expliquei a ela que Churchill acordava e tomava champanha, fumava charutos e ganhava a guerra."

"No dia seguinte os jornais já não davam destaque à morte de Marly. Tudo cansa, meu anjo, como dizia o poeta inglês. Os mortos têm que ser renovados, a imprensa é uma necrófila insaciável."

"Tua cara não está boa, disse Berta ao chegar. Minha cara é uma colagem de várias caras, isso começou aos dezoito anos; até então o meu rosto tinha unidade e simetria, eu era um só. Depois tornei-me muitos."

"Minhas paixões duram pouco, mas são fulminantes."

"Eu ainda gostava de Berta, mas meu coração não disparava mais ao ouvir sua voz ou ler seus bilhetes. Berta se tornara uma pessoa perfeita para casar, quando eu fosse velho e doente."

"No caminho da delegacia olhei para ele. Era um homem magro, aparentando uns sessenta anos, e parecia cansado, doente e com medo. Um medo, uma doença e um cansaço antigos, que não eram apenas daquele dia."

"Ele é um homem deprimido, qualquer dia se mata. É comum os velhos se matarem, devido à melancolia do ócio, à solidão, à doença. Noventa por cento das pessoas de mais de sessenta anos sofrem de alguma doença."

"Nos muros do pátio está escrito: A Vida é Bela. Está escrito também: Chegou a Hora da Colheita.
Sabe o que a gente vai colher?, pergunto para Baldomero.
Marmelada mastigada, diz Baldomero.
Bocejos, eu digo. Eu ia dizer: morte, essa é a colheita que nos resta. Mas um velho inerte, preguiçoso e entediado só pode abrir a boca para bocejar."

"A experiência (e a própria história) ensinam que os povos e os governos nunca aprendem nada com a história. Assim, também nós, os velhos, nada aprendemos com a nossa experiência. É uma frase idiota essa: se a juventude soubesse e a velhice pudesse. Por que será que nós os velhos não podemos? Porque não deixam, só por essa razão."

"Enfim, tenho pouco tempo.
Esse pensamento faz o meu corpo insensível, como se eu já não existisse mais. Não sinto dor nem sinto tristeza, apenas uma espécie de apreensão de quem já não tem mais corpo e lhe falta essa noção sólida de que habita uma forma, uma estrutura, um volume. Como se eu perdesse a matéria e ficasse só espírito, ou mente. Isso é impossível. Mas foi o que eu senti, quando sem dores ou outras agonias e anúncios do meu fim, suspeitei pela primeira vez que talvez vivesse apenas mais alguns meses."

"Choro de arrependimento. Sei que meu choro copioso é mais um sintoma da minha velhice; estou infeliz, tenho medo e sinto uma insuportável vontade de comer um bombom de chocolate, que faz aguar minha boca. Sem parar de chorar, salivo pelos cantos dos lábios. Olho meu rosto babão e chorão, no espelho do cubículo: uma figura ao mesmo tempo ridícula e repulsiva. Sou eu realmente? Foi para isso que vivi tantos anos?"