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Como me tornei estúpido

(Ao som do álbum What's going on do Marvin Gaye, uma análise breve e muito, mas muito pessoal e quase nada formal do livro Como me tornei estúpido, de Martin Page, escritor francês)

1.

Frequentemente acontece de eu escutar uma música, ver um filme ou ler um poema, um conto ou um romance, ou mesmo ouvir alguém fazendo um discurso genial que me faz pensar: eu poderia ter dito isso, só não sabia as palavras ou a maneira mais apropriada! Parece que uma entidade invisível capta a essência dos meus pensamentos e sentimentos em relação ao mundo e às coisas e a converte numa linguagem perfeita e simples de se transmitir. Foi o que senti com Como me tornei estúpido antes mesmo de começar a lê-lo, apenas sabendo do que se tratava.


2.

E trata-se, basicamente, de um jovem rapaz chamado Antoine que conclui que sua inteligência é o fator que o impede de participar da vida em sociedade e decide tornar-se estúpido para livrar-se das angústias que seu espírito crítico e sensível lhe proporcionam. 

 " (...) frequentemente é mais vantajoso ser uma besta que um intelectual consagrado. A inteligência torna a pessoa infeliz, solitária, pobre, enquanto o disfarce de inteligente oferece a imortalidade efêmera do jornal e a admiração dos que acreditam no que leem."

Sem entrar na problemática da tradução (li o livro traduzido e não entendo bulhufas da língua francesa para assimilar de forma ampla a semântica de certos termos empregados na obra), particularmente, não creio que o que o narrador chama de "inteligência" se limite apenas a conhecimentos teóricos. 

Acredito, sim, que falamos aqui muito mais de espiritualidade, sensibilidade e visão crítica do que de intelecto. A erudição, o investimento na extensão da bagagem cultural e todo o conhecimento adquirido através dos estudos podem contribuir para a formação de uma mente livre e de um espírito sensível, mas não necessariamente. A capacidade de acumular informação não torna um indivíduo inteligente se não houver uma filtragem crítica e uma maturação das ideias absorvidas. Muito mais do que aprender coisas, a inteligência seria o que se faz com as coisas que se aprende.

" (...) a estupidez estava mais na maneira de fazer as coisas ou de considerá-las do que nas coisas em si mesmas."

Aliás, em alguns dicionários que andei consultando, fala-se de algo muito próximo disso: 

- "Faculdade de entender, de compreender (...) penetração de espírito; percepção clara e fácil" (Caldas Aulete)
- "Faculdade de entender, pensar, raciocinar e interpretar (...) Compreensão, conhecimento profundo" (Michaelis)
- "Conjunto de todas as faculdades intelectuais (memória, imaginação, juízo, raciocínio, abstração e concepção)" (Priberam)

Então devo dizer que toda a minha leitura do livro foi feita com base na ideia de "inteligência" como compreensão, percepção, raciocínio, interpretação, imaginação, abstração, e não puramente acúmulo de informação e cultura.

E, bem, o que esse autor fez foi um ato de extrema sensibilidade. Pegou toda a agonia e ansiedade que aflige muita gente e transformou numa narrativa fácil, fluida, que reflete (quase) fidedignamente a sensação de deslocamento que assola pessoas como eu - muito mais voltadas para o espírito do que para as coisas práticas da vida:

"Eu tinha força somente para explorar o mundo com o meu espírito. Demasiado medíocre para o esporte, só me restavam os neurônios para inventar jogos de bola de gude. A inteligência era uma saída."

E mais...

"Assim como os vivos sabem que vão morrer, e como os mortos não sabem nada, penso que ser inteligente é pior que ser asno, porque o asno não se dá conta disso, ao passo que qualquer inteligente, ainda que humilde e modesto, o sabe forçosamente. (...) Ser curioso, querer compreender a natureza e os homens, descobrir as artes deveria ser a tendência de todo e qualquer espírito. Mas, se assim fosse, com a atual organização do trabalho, o mundo deixaria de girar, simplesmente porque aquilo demanda tempo e desenvolve o espírito crítico. Ninguém trabalharia. (...) "Os que se interessam demasiadamente pelas coisas, que se interessam até por assuntos que não os interessaria a priori - e que querem compreender as razões do seu desinteresse - pagam o preço disso com certa solidão. (...) A minha suposta inteligência, demasiado independente, não serve para nada, ou seja, ela não pode ser recuperada para ser empregada pela universidade, por uma empresa, por um jornal ou por um escritório de advocacia. (...) Tudo o que vejo, sinto, escuto se engolfa no forno do meu espírito e o impele e faz funcionar a pleno vapor. Tentar compreender é um suicídio social, e isso significa já não desfrutar a vida sem sentir-se, a contragosto, e ao mesmo tempo, uma ave de rapina e um abutre que despedaça os seus objetos de estudo. (...) Não é possível viver demasiadamente consciente, demasiadamente pensante. (...) tudo o que vive muito e contente não é inteligente."

"Nós generalizamos a partir da nossa própria experiência, do que nos cabe viver, do que se pode compreender com os esquálidos recursos dos nossos feixes neuronais e segundo a perspectiva da nossa visão. E uma facilidade que permite pensar rapidamente, julgar e posicionar-se. Isso não tem valor em si, são sinais, pequenas bandeiras que todos agitamos."

"Os homens simplificam o mundo pela linguagem e pelo pensamento, e assim eles têm certezas; e ter certezas é a mais poderosa volúpia neste mundo, muito mais poderosa que o dinheiro, o sexo e o poder reunidos. A renúncia a uma verdadeira inteligência é o preço a pagar por ter certezas, e é sempre uma reserva invisível no banco da nossa consciência. A esse respeito, eu prefiro ainda os que não se cobrem com o manto da razão e afirma a ficção da sua crença. Ou seja, um crente em que sua fé não seja nada além da crença e não uma presunção sobre a verdade das coisas reais."

"Não obstante, potencialmente, estando em contato com uma multidão de estímulos e deixando o seu espírito frequentar uma atmosfera enriquecedora, a inteligência encontra terreno favorável para o seu desenvolvimento, exatamente da mesma maneira que uma doença. Pois a inteligência é uma doença."

Cita-se Nietzsche: "A inteligência é um cavalo louco, é preciso aprender a segurar suas rédeas, a alimentá-lo com boa aveia, a limpá-lo e, às vezes, a usar o chicote."

3.

Gostei muito de imaginar isto:

"Igualmente, por não ter dinheiro suficiente para adquirir todos os livros que desejava e tendo observado a acuidade dos guardas-noturnos e a sensibilidade dos aparelhos de segurança das megalivrarias, roubava os livros página por página e reconstituía-os no seu apartamento, como um editor clandestino. Sendo obtida por delito, cada página adquiria um valor simbólico muito maior do que teria se estivesse colada e perdida entre seus pares; destacada de um livro, furtada, e depois pacientemente reunida, tornava-se sagrada." (!)

4.

(Ao som de Simple Minds)

Bem no comecinho da obra, o narrador cita um filme que fiquei com vontade de ver, Nascido para matar. Certo personagem desse livro diz: "Estou num mundo de merda, mas estou vivo e não tenho medo".

Às vezes eu paro e penso: o mundo é mesmo uma merda, cara. Mas que que eu to fazendo então? To
tentando esquadrinhar algo que preste no meio desse excremento todo. Quem sabe eu acho uma bolinha de gude. Quem sabe eu encontro um diamante. A não ser que eu opte pela morte, tenho que estar aqui, vivendo aqui, mergulhada nesse mundo abjeto, submetida a todo tipo de coisa desprezível... O que posso fazer é procurar algo que me sirva por aqui. Quase sempre encontro uma coisa ou outra, mas tem dia que eu apenas me sinto boiar num rio asqueroso e hostil.

5.

"Se ele desconfiava da anatomia odiosa das multidões, era sobretudo a sua curiosidade e paixão desprezadoras de todas as fronteiras e clãs que faziam dele um apátrida no seu próprio país. Em um mundo em que a opinião pública está confinada nas pesquisas às possibilidades sim, não e sem opinião, Antoine não queria preencher nenhum quadradinho. Ser a favor ou contra era para ele uma insuportável limitação às questões complexas. (...) Parecia-lhe que um ser humano era tão vasto e tão rico que não poderia haver maior vaidade neste mundo que estar demasiado seguro de si com respeito aos outros, com respeito ao desconhecido e às incertezas que cada um representava. (...) Apesar de ter recebido inumerosos e profundos ferimentos, isso em nada lhe tinha enrijecido o caráter; ele guardava intacta a sua extrema sensibilidade, que, como uma fênix, renascia mais pura que nunca cada vez que era maltratada e morta. Enfim, se acreditava razoavelmente em si mesmo, esforçava-se por não acreditar demasiadamente, por não concordar facilmente com o que ele próprio pensava, pois sabia como as palavras do nosso espírito gostam de nos prestar serviço e nos reconfortar logrando-nos." (itálicos meus)

6.

A primeira decisão que Antoine toma para contornar a dor da inteligência é tornar-se alcoólatra.

"Ele seria alcoólatra, ou seja, alguém que tem uma doença socialmente reconhecida. (...) ninguém pensa em compadecer-se das pessoas inteligentes. (...) a inteligência é um duplo mal: ela faz sofrer, e ninguém se dá ao trabalho de considerá-la uma doença." (!)

Sempre tive dificuldade em explicar por que às vezes me sinto tão angustiada e o mundo de repente vira um imenso lençol de melancolia onde me enrosco toda e não consigo mais sair por um bom tempo. Esse nó na garganta, essa consciência, essa "inteligência" da qual Antoine fala ao longo de sua história, sei lá. Tem vezes que tudo o que consigo fazer é chorar, "aparentemente" sem motivo algum. Tem vezes que fico pensando, apenas pensando, mas consigo me arrastar pela vida fazendo as coisas que precisam ser feitas. Mas, porra, tem vezes que eu fico simplesmente paralisada. Não consigo fazer nada prático de tão aflito que fica meu espírito. O que é? É tudo e nada. É a dor do mundo, são os meus problemas (ínfimos pfff), são as relações humanas e suas complicações insolúveis, é o universo, é o céu cinza, é a fome alheia, é a História, é o futuro, é a ausência do futuro, é o nada, o nada, o não ter saída - não tem saída...

"O alcoolismo tem por causa a torpeza, a esmagadora esterilidade da existência tal qual ela nos é vendida."

Não procurei alívio no alcoolismo (ainda que goste de beber!), mas em coisas como aulas de dança, terapia, estudos, diversão no final de semana, entre outras coisas que têm me mantido sã e salva de mim mesma.

7.

"Então, digamos que sou pobre, sem futuro... E sobretudo penso demasiadamente, não consigo impedir-me de analisar e de tentar compreender como todo esse mercado funciona e caminha, e me deixa imensamente triste ver que não somos livres e que cada pensamento, cada ato livre se faz ao preço de um ferimento que não cicatriza nunca."

8.

"Eu não quero ter a força para ser eu, nem coragem nem cobiça de ter algo parecido com uma personalidade. Uma personalidade é um luxo que me custa muito caro. Quero ser um espectro banal. Estou sufocado pela minha liberdade de pensamento, por todos os meus conhecimentos, pela minha abominável consciência."

9.

A segunda "saída" que Antoine busca é o morte, por isso se junta a um grupo de pessoas dispostas a aprender as mais infalíveis técnicas de suicídio.

"De fato, sou tão pouco dotado para viver que talvez me realize na morte. Sem dúvida tenho mais capacidade para estar morto do que para estar vivo."

A professora diz:

"Eu estou certa (...) de que você será um grande morto. E é por isto que estou aqui: para ensiná-lo, para ensinar você a dar cabo desta vida que nos dá tão pouco e nos toma tanto. (...) O nosso ponto comum é que a vida não nos satisfaz, e queremos dar fim a ela - isto é tudo."

Sobre o suicídio:

"A sociedade decide, assim, a data da nossa morte pela qualidade da nossa alimentação, pela periculosidade do nosso ambiente quotidiano, pelas nossas condições de trabalho e de vida.  Nós não escolhemos viver, não escolhemos a nossa língua, o nosso país, a nossa época, os nossos gostos, nós não escolhemos a nossa vida. A única liberdade é a morte; ser livre é morrer. (...) Eu tenho controle sobre minha cabeça, mas isso corre o risco de não durar e por isso prefiro eliminar-me enquanto ainda sou "eu", antes de me deixar retalhar por um médico, estendida sem consciência numa mesa de cirurgia. É uma pequena liberdade, uma liberdade miserável. (...) Sejamos francos: se gozássemos de boa saúde, se fôssemos amados como merecemos, considerados, com um belo lugar na sociedade, estou certa de que esta sala estaria completamente vazia."

10.

Quando decide tornar-se estúpido:

"De tanto pensar, a consciência sempre tumescente, Antoine vivia mal. Ele agora queria ser um pouco inconsciente, bem ignorante das causas, das verdades, da realidade... Ele estava cansado da acuidade de observação que lhe dava uma imagem cínica das relações humanas. Queria viver, não saber a realidade da vida; queria justamente viver."

"A estupidez era a sua derradeira chance de se salvar."

"Antoine não desejava ser um perfeito imbecil, mas diluir a sua inteligência no amálgama da vida, deixar de tentar analisar tudo, de tentar descobrir tudo."

"As perguntou a Antoine se não havia o risco de ele se perder completamente e de o verem um dia na televisão como animador. Antoine respondeu que era uma aventura, e que as grandes aventuras humanas não são isentas de perigo. (...) Até o presente, ele vivera no olho do ciclone, que é um lugar calmo e solitário cercado da mais infernal tempestade. Queria deixar esse ninho maldito, atravessar a cortina de turbilhões destruidores para juntar-se ao mundo secular."

"Após um estudo minucioso do meu caso, deduzi que a minha inadaptação social é resultado da minha inteligência sulfúrica. Ela jamais me deixa tranquilo, eu não a domo, ela me transforma numa casa mal-assombrada, sombro, perigoso, inquietante, possuído pelo meu espírito atormentado. Eu assusto a mim mesmo."

Antoine observa um casal de vizinhos:

"Eles viviam tão completamente imersos em suas existências, possuíam tão plenamente todos os matizes de uma idiotice furta-cor, de uma estupidez oura, resplandescente de inocência feliz e bem-sucedida, uma tolice que era agradável para eles e para as pessoas que os cercavam: a menos perversa e perigosa do mundo."

"Mas ser estúpido dá muito mais prazer que viver sob o julgo da inteligência. Sendo estúpidos, somos mais felizes. A intenção não é incorporar o senso da idiotice, mas os elementos benéficos que aí flutuam como oligoelementos: a felicidade, certo distanciamento, capacidade de não padecer da minha empatia, uma leveza de vida, de espírito. A indiferença!"