20 de outubro de 2013

Café Filosófico: A utopia do autoconhecimento, com Ricardo Goldenberg

Transcrevo aqui as passagens que mais me chamaram a atenção nesta conferência com Ricardo Goldenberg. É apenas uma transcrição, filtrada e editada por mim, e não substitui a riqueza de assistir ao vídeo (veja aqui)

"Conhece-te a ti mesmo" era a inscrição da porta do oráculo de Delfos, na antiga Grécia. Este conselho do oráculo grego ganhou novo sentido com a psicanálise. Freud encontrou pistas importantes para a investigação de quem somos. Neste programa, o psicanalista Ricardo Goldenberg mostra como a psicanálise pode ajudar a responder a pergunta 'Quem sou eu'?

Para Goldenberg, a psicanálise deve apostar na nossa capacidade de responder a esta pergunta e de criar sentidos para a nossa vida.

Palestra de Ricardo Goldenberg no programa Café Filosófico CPFL gravada no dia 26 de junho de 2009, em Campinas."

Goldenberg afirma que, de acordo com Freud, o inconsciente nada mais seria que meu próprio pensamento na verdade que me vem do outro. Eu precisaria necessariamente passar pela assistência dos outros, e aqui assistência é entendida como apoio, como ajuda. É assim que inicia sua conferência, pedindo ajuda à plateia, pois é a partir dos questionamentos desta que vai desenvolver seu discurso.

Para ingressar na problemática do autoconhecimento, Goldenberg faz referência ao psicanalista francês Jacques Lacan: "O que o outro diz te concerne”. Ou seja, o que o outro diz é problema teu, o que vai de encontro ao que geralmente pregamos: "quem sabe de mim sou eu". Goldenberg, no entanto, questiona essa afirmação, sugerindo que, se assim pensamos, temos ódio do próprio inconsciente ou mesmo do mecanismo em que nossas próprias mensagens vêm retroativamente do outro. 

Para ele, o autoconhecimento seria um mito, afinal, para saber de mim teria necessariamente que passar pelo outro. Não seríamos donos das nossas próprias determinações nem teríamos a possibilidade de uma total transparência de nós mesmos. O modo como me faço (ou não me faço) entender revelaria o que estou pensando. É nas dificuldades que a pessoa tem para se fazer entender que estão suas próprias perguntas. E as próprias perguntas vêm da interação com o outro. Essa ideia de que só sei de mim através do outro seria o miolo da psicanálise.

Goldenberg usa como exemplo uma de suas pacientes, que havia sofrido várias desgraças amorosas ao longo da vida e falava como se não tivesse escolhido esses namoros trágicos. A paciente diz: "só se for meu coração que escolhe, porque eu jamais escolheria esses caras", ao que o psicanalista responde "no dia em que você se reconhecer nas escolhas do seu coração a sua análise terá terminado". O percurso da análise seria então o processo de atravessar a divisão entre "mim" e "meu coração".

A psicanálise não é uma reflexão sobre mim, mas falar sem pensar na frente de um analista (no papel de outro). É o contrário de refletir. O outro deve recolher o que eu disse de diferente, a mais, furando as ilusões do meu eu (autoconhecimento). 

Goldenberg define o EU como um precipitado de identificações alienantes. Em química, o precipitado é a mistura de substâncias líquidas que se solidifica, mudando de estado. A identificação seria os textos, as imagens que pegamos dos curadores ao longo da vida, num movimento de alienação, isto é, os traços que importamos do outro. É um movimento de apropriação dos traços do outro para que sejam meus, havendo depois um movimento de separação e identidade

Usa como exemplo a biografia de John Lennon, em que o músico diz: "Aos 15 anos eu imitava Elvis Presley em tudo (...) tanto imitei Elvis Presley que me transformei em John Lennon". Apropriou-se dos traços do outro pra construir-se a si mesmo uma identidade (não sem o outro). A escolha por Elvis especificamente é uma determinação inconsciente que Lennon desconhece. A escolha inicial já estava determinada inconscientemente. A análise teria por papel, portanto, fazer vir à tona esse tipo de escolhas iniciais, que se reflete em cada escolha, constituindo um padrão de escolha inconsciente. Se olharmos pra trás, veremos que os impasses que temos com as pessoas, o modo de fracassar e ser mal entendido, se repete. 

Goldenberg fala também sobre o sem sentido, argumentando que artista é aquele que assume o risco de ser sem sentido pra abrir um espaço de invenção e experimentação. Dá como exemplo outra paciente, uma mãe que estava de luto pelo filho e que via o fim de qualquer sentido pra sua vida. A memória do filho alimentava um sofrimento sem fim porque parar de sofrer seria uma traição à memória do morto. Querer que a dor passe seria uma falta de amor pelo filho morto. O psicanalista então sugeriu à mãe que usasse esse sofrimento todo pra inventar outra coisa. Virar a página seria impossível, mas o trabalho de luto poderia ser uma invenção causada pela contingência desse acidente que havia mudado sua vida pra sempre. Sua vida podia ter acabado em relação ao que era antes, mas ela poderia inventar um sentido novo

Diante da pergunta de uma pessoa da plateia, retorna-se à ideia da precipitação. Goldenberg explica que a metáfora química é limitada, mas agrega que o EU é frágil, muda o tempo todo, e ainda questiona: você acredita que você é o mesmo ao longo do dia? Afirma que a única coisa que é permanentemente igual é o desejo inconsciente, o resto muda o tempo todo.

Outro exemplo que dá é o da mulher que se maquia na frente do espelho e então para porque acha que a imagem no espelho coincide com a imagem ideal. Sai pra rua sentindo-se bem e linda. Porém, passa um cara e diz uma grosseria pra ela, que despenca dessa imagem ideal e se sente no fim da linha. Nada de objetivo mudou, a não ser a intervenção do outro que não sustenta mais a imagem que o espelho sustentava um tempo atrás. O grosso é outro espelho e o EU dela muda, colocando-a deprimida. 

Goldenberg sustenta que haveria um comum denominador nas coisas que você escolhe. 90% dessas escolhas você não saberia que fez e nem sequer saberia que foi uma escolha. Não seríamos apenas produto do meio, mas teríamos uma escolha. Você pode não saber que escolheu, mas escolheu sem saber, e uma vez que escolheu teria que arcar com as consequências da sua escolha. O inconsciente não seria, assim, pretexto pra se dizer inocente. O psicanalista então define canalha como aquele que jamais assume como própria uma escolha e diz “eu fiz sim, mas porque você/o mundo/a sociedade me levou a fazer. Fiz, mas sou inocente”. 

Para Sartre, não interessa tanto o que a vida fez de você, mas o que você faz com o que a vida fez de você. Goldenberg exemplifica com duas posturas possíveis: um cego que se torna geômetra x um cego que se recusa a aceitar sua condição e é absolutamente dependente dos outros, até pra ir ao banheiro. São dois cegos, mas com duas posturas distintas que denotam uma escolha anterior feita.  O EU seria produto de escolhas que muitas vezes não se reconhecem como escolhas.

Falando sobre o filme Na natureza selvagem, mencionado por alguém da plateia, Goldenberg crê que seria interessante o protagonista ter empreendido sua viagem somente depois de resolver suas pendências, pois ele vai embora pra se livrar dos problemas, mas carrega os sintomas na sola do sapato. O impasse continua o mesmo. Ele teria que interrogar seus problemas e só depois disso ir embora, assim a escolha não seria sintomática. O grau zero de qualquer análise seria: qual é a sua responsabilidade na queixa que você está fazendo? De que modo você está sendo determinado? A única coisa AUTO seria a decisão que alguém toma. 

Já o ideal de unidade seria uma construção ilusória. Não seríamos uma unidade (apenas cremos), o EU uno, o que pensamos ser o essencial de nós, seria uma miragem. Estaríamos dividimos precisamente entre o que eu penso e o que o outro me mostra que eu penso. De que modo o meu está afetado pelo que parece ser do outro mas é meu? Quando o outro opina sobre você, é dele mesmo que estaria falando. 

Goldenberg coloca sob suspeita o ideal de totalização universal, o pensamento único. O EU seria, portanto, fragmentos do outro. Seria preciso ter essa percepção de que eu tenho que passar pelo outro pra me encontrar, e o outro como suplemento e não complemento, pois nada se completa. 

Por fim, Goldenberg retorna à ideia de sentido e dá como exemplo Van Gogh, para quem a pintura é maior que a vida. É a única constância na sua vida. O resto flutua. O sentido da sua vida é o próximo quadro, o que ainda não foi pintado, e isso seria parte do inconsciente. Aquele que diz que a vida não tem sentido recusaria a ventura de não termos sentido. Goldenberg propõe que não há nenhum sentido no final, mas você pode inventar qualquer direção.

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