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Café filosófico: A ética nos relacionamentos, com Claudio Cohen

Transcrevo aqui as passagens que mais me chamaram a atenção nesta palestra com Claudio Cohen. É apenas uma transcrição, filtrada e editada por mim, e não substitui a riqueza de assistir ao vídeo (veja aqui)

"Uma importante distinção entre ética e moral. Enquanto a moral vem de fora, do social, a ética nasce do indivíduo, vem do ego - pois depende de uma personalidade estruturada - enquanto a moral é superegóica, já que se trata de uma imposição do ambiente introjetada nos indivíduos. O programa toca também em questões importantes dos nossos tempos que envolvem a ética, como a clonagem, as células-tronco e o aborto. Cláudio Cohen: professor da USP, diretor da comissão de ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise e presidente da Comissão de Bioética do Hospital das Clínicas. O programa Café Filosófico é uma produção da TV Cultura em parceria com a CPFL Energia."

Nesta palestra, o psicanalista Claudio Cohen se propõe a diferenciar conceitos como valor, etiqueta, moral, ética e atitude. Normalmente falamos como se fossem sinônimos, mas existe entre eles uma enorme diferença, principalmente entre ética e moral.

Ética é a filosofia do comportamento, a busca por sentido e por respostas para nossas ações e nossa vida em sociedade. A ética define valores e nasce da reflexão, é o aprender a lidar com o outro e a nossa consciência.

E o que são valores? O transplante de fígado, por exemplo, é um novo valor. Não é apenas um avanço tecnológico, pois, quando surgiu o transplante, foi preciso mudar um valor: o conceito de morte, ou seja, o critério para definir o que é a morte. O transplante de fígado fez com que mudássemos o nosso conceito de morte e começou a se fazer transplante do morto para o vivo. Mas no Japão, onde se pratica o budismo, só se faz transplante entre vivos, já que os praticantes dessa religião não aceitam nada do morto. É um exemplo claro de como a religião influenciou a ciência.

Os valores são compostos de tudo aquilo que atende às nossas necessidades, de acordo com padrões morais e éticos. A psicanálise não se ocupa desses padrões morais, que dizem mais respeito à religião. Vale lembrar que certa religiosidade está sempre presente em cada um de nós, acreditando-se ou não em Deus. É importante resgatar o valor que tem a religião naquilo que breca a onipotência do indivíduo, valor que ocupa no imaginário e psiquismo dos indivíduos. 

Valores não são eternos, vão mudando ao longo do tempo. Perguntas como: o que é vida? célula-tronco é vida? implantação de óvulos é vida? são símbolos de novos valores. E é aí que a ética volta a ter uma enorme importância: como cada um de nós lida com esses novos valores? De 1700 a 2006, a expectativa de vida quase triplicou. Em 1700, o prognóstico de vida era de aproximadamente 40 anos. Hoje em dia vai de 80 a 100 anos, dependendo do país. São 60 anos “novos” para o indivíduo, o que também gera novos valores. Como lidar com esses novos valores?

Os conceitos de vida e morte não têm moral social única. Cada um tem uma reflexão sobre isso, desenvolve um ego, uma ética pra pensar o assunto. Um ser humano estar morto ou não depende de questões éticas. O grande dilema da ciência hoje é entre seleção natural x seleção artificial (que passa pela humanidade). Isso não existia há 50 anos. Sabíamos claramente quando se nascia, quando se morria. Com os avanços tecnológicos, esses conceitos mudaram bruscamente. 

A palavra ethos, do grego, significava costume e caráter. Aristóteles considerava a ética o problema filosófico central. Nas praças públicas, fazia cidadãos refletir sobre o sentido dos costumes em voga, sobre o bem e a virtude. A ética, portanto, seria o despertar do sujeito ético moral que toma consciência do seu agir. Mas esse sentido acaba se perdendo com o uso corriqueiro da expressão e a ética é, algumas vezes, confundida com etiqueta. 

Etiqueta são normas de comportamento, são rótulos. As doenças são etiquetas: só podemos dizer que existe uma doença quando ela está na Classificação Internacional de Doenças (CID). Se a doença não estiver na CID, não podemos dizer que é uma doença. A CID rotula as doenças a cada 10 anos. Na CID 9, de 1985, o homossexualismo era uma doença. Já na CID 10, deixou de ser doença, refletindo uma mudança de olhar sobre o que seria patológico x normal.

O ser humano se equilibra entre desejos e interdições na relação com o outro. A ética nasce do indivíduo, é o raciocínio consigo mesmo, como se lida com a moral e se assume a responsabilidade dos próprios atos. A moral vem de fora para dentro. Somos obrigados a respeitar tal comportamento e se não o respeitamos haverá um castigo. A moral teria a ver com superego e a ética, com ego. Nesse sentido, Freud propõe três conceitos: 
Id: impulsos de vida, de morte;
Ego: conjunto de funções de mediação, conflitos, angústias, pensamentos, sentimentos;
Superego: exigências, instância crítica, moral, leis que temos internalizadas. Traz limites, aponta o caminho socialmente aceito de realização dos desejos e impulsos.

No Acre, pratica-se a religião do santo Daime, que faz uso da ayahuasca. O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD) tinha forte influência dos pesquisadores de drogas dizendo que não se poderia permitir a parte do ritual que consome o chá. Discute-se a questão ética: respeitar as diferenças religiosas ou considerar droga pelos cientistas contra tóxicos? Qual é o maior valor, a religião ou a ciência? No Brasil, as religiões têm liberdade segundo a constituição. O governo teve uma postura nova, aceitou o uso da ayahuasca e criou uma lei, que é a nossa moral.

A destrutividade ou os impulsos de matar o outro está presente em todos nós, mas é um impulso em bruto. Nosso desenvolvimento, nossos valores morais, nosso superego permitem que tenhamos um comportamento ético de respeito ao outro, vejamos o outro não como objeto puro de satisfação de nossos impulsos, mas como outro igual a nós mesmos.