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Asas do desejo

De longe, um dos melhores filmes que já vi.



“Quando a criança era criança, não sabia que era criança. Tudo era cheio de vida e a vida era uma só. Quando a criança era criança, não tinha opinião, não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, saía correndo, tinha um redemoinho no cabelo e não fazia pose para foto. (...) Quando a criança era criança, era tempo destas perguntas: Por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não lá? Quando começou o tempo e onde termina o espaço? Será que a vida sob o sol nada mais é que um sonho? Será que o que eu vejo, escuto e cheiro não é apenas uma miragem do mudo anterior ao mundo? Será que realmente existe o Mal e pessoas malvadas? Como é possível? Eu, que sou eu, não existia antes de existir. E, no futuro, eu que sou eu, não serei mais quem eu sou.”

“O bálsamo de erguer a cabeça aqui fora em liberdade. O bálsamo de ver a cor dos olhos das pessoas iluminada pelo sol.”



“Enfim louca, não mais solitária. Enfim louca. Enfim liberta. Enfim louca. Enfim em paz. Enfim uma tola, uma luz interior.”

“É ótimo ser espírito e testemunhar por toda eternidade apenas o lado espiritual das pessoas. Mas, às vezes, me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão. Eu gostaria de poder dizer ‘agora’ a cada passo, cada rajada de vento. ‘Agora’ e ‘agora’ e não mais ‘para sempre’ e ‘eternamente’. (...) Ficar sozinho. Deixar acontecer. Ser sério. Só podemos ser selvagens à medida que formos sérios. Nada mais que olhar, reunir, testemunhar, preservar. Continuar espírito. Manter distância. Manter a palavra.”

“O tempo cura, mas e se o tempo fora a doença? É como se às vezes tivéssemos de nos curvar para continuar vivendo. Vida, um olhar basta. (...) Como se a dor não tivesse passado. Ela sempre termina no momento em que começa. Bela demais pra ser verdadeira. Enfim, do lado de fora, na cidade. Quem sou? Quem me tornei? Na maior parte do tempo, estou consciente demais pra estar triste. Passei uma eternidade esperando ouvir uma palavra de carinho.”



“Vazia, incompatível. O vazio. O medo. Muito, muito. O medo. Como um pequeno animal perdido na floresta. ‘Quem é você?’. Não sei mais. (...) Não chore, é assim mesmo. Essas coisas acontecem. Nem tudo é como a gente quer. Que vazio. Tudo tão vazio. (...) O que devo fazer? Não pensar em mais nada. Simplesmente existir. (...) Como devo viver? Talvez essa não seja a pergunta. Como devo pensar? Sei tão pouco. Talvez por ser curiosa demais. Penso tão errado porque acho que estou falando com alguém. Com os olhos fechados, volto a fechá-los na mente. Assim, até as pedras ganham vida. Estar perto das cores. As cores. Luzes de néon no céu noturno, o trem amarelo e vermelho. Nostalgia. Nostalgia de quando bastava estar pronta. Nostalgia de uma onda de amor que crescia em mim. É isso que me deixa atrapalhada, a ausência do desejo. Desejo de amar. Desejo de amor.”

“E mais uma vez, é como se fosse noite em mim. O medo. Medo da morte. Por que não a morte? Às vezes, é importante apenas ser bonita. E nada mais. Observar-se no espelho é como olhar-se pensando. Então, está pensando o quê? Penso que ainda tenho direito de sentir medo, mas não de falar sobre ele. Você ainda não está cega, o coração ainda bate, mas agora está chorando. Você gostaria de chorar como uma garotinha muito magoada. Você sabe por que está chorando? Por quem? Não por mim. Nem sei mais. Eu gostaria de saber. Não sei nada. Estou com um pouco de medo. Chegou ao fim. Foi-se embora. Com certeza, vai retornar. Não faz mal.”