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Michael Foucault - Por ele mesmo

Com meus escassos conhecimentos de filosofia, ando fazendo um passeio por Foucault, por pura sede de... Entender, seja lá o quê. Começou quando li o capítulo "As quatro similitudes" do livro As palavras e as coisas. Depois, comecei a leitura de A história da sexualidade e, paralelamente, tenho visto um ou outro vídeo sobre o filósofo. Quero compartilhar este aqui:



"Nós não vivemos num espaço neutro, plano. Nós não vivemos, morremos ou amamos no retângulo de uma folha de papel. Nós vivemos morremos e amamos num espaço enquadrado, recortado, matizado, com zonas claras e escuras, diferenças de níveis, degraus de escadas, cheios, corcovas, regiões duras e outras friáveis, penetráveis, porosas.


Há regiões de passagem: ruas, trens, metrô; regiões do transitório: cafés, cinemas, praças, hotéis, e também as regiões fechadas do repouso do lar.

Eu sonho com uma ciência  que teria como objeto esses espaços diferentes. Esses outros lugares, essas contestações místicas e reais do espaço em que vivemos. Essa ciência não estudaria as utopias, pois é preciso reservar esse nome para o que não tem lugar. Mas ela estudaria as heterotopias, espaços absolutamente outros. (...)

Daí as casas de repouso, as clínicas psiquiátricos, as prisões. Precisamos acrescentar, provavelmente, os asilos, pois o ócio numa sociedade tão atarefada como a nossa, o ócio é como um desvio. Aliás, é um desvio biológico quando está ligado à velhice. Ao mesmo tempo é um desvio constante para todos os que não têm a descrição de morrer de infarto nas três semanas que seguem ao início de sua aposentadoria."

"A forma grito teria se tornado inacessível por causa do filtro do saber instituído."

"...pois a nossa cultura sempre cuidou de manter a loucura à distância."

"A loucura é o já-está-aí da morte."

"...como se este mundo, onde a rede de significações espirituais era apertada, começasse a se embaralhar, deixando aparecer figuras cujo sentido só se deixa apreender sob espécies do insano."

"A festa é, no fundo, a maravilhosa liberdade de estar louco e de achar no coração dessa cegueira a iluminação de todo um mundo que está em festa."

"A loucura fascina porque é um saber. É saber, de início, porque todas essas figuras absurdas são, na realidade, elementos de um saber difícil, fechado, esotérico. Este saber, tão inacessível e temível, o louco o detém em sua parvoíce inocente. Enquanto o homem racional e sábio percebe apenas algumas figuras fragmentárias, e por isso mesmo mais inquietantes, o louco o carrega inteiro numa esfera intacta..."

"Vejam como a razão é lacônica e imperativa quando se trata de julgar o contrário dela mesma."

"A servidão de si, a servidão para consigo mesmo se define como aquilo contra o qual nós devemos lutar (...) ser livre é fugir da servidão de si mesmo."

"A epimeleia é o cuidado de si mesmo, é o fato de se ocupar de si mesmo, de se preocupar consigo mesmo. Se preocupar de si implica que nós convertamos o nosso olhar do exterior e dos outros em direção a si mesmo (...) Ocupar-se de si mesmo sempre tem um sentido positivo, nunca um sentido negativo e, paradoxo suplementar, é a partir desta injunção de cuidar de si que são constituídas as morais mais austeras, mais rigorosas e restritivas que o Ocidente conheceu."

"No começo do século XVII, nesse período que se chamou barroco, o pensamento cessa de se mover no elemento da semelhança. A similitude não é mais a forma do saber, mas antes a ocasião do erro. A idade do semelhante está fechando-se sobre si mesma."

"E as ciências são, entretanto, o que cremos ser o melhor procedimento, dominando no interior de nosso próprio pensamento essas ciências que pensamos serem habitadas, no fundo, em todas as rotundas por nossa consciência mais lúcida, parece-me que elas também obedecem ao inconsciente."