Avançar para o conteúdo principal

Filme: O Grande Desafio

Na aula de Tópicos em Teorias do Texto, a professora anunciou que passaria um filme. Torci o nariz. Que espécie de filme poderia ser associado a uma matéria tão, meu deus, tão "essencialmente" teórica? E eis que, para a minha feliz surpresa, ela nos presenteia com essa belezinha aqui: O Grande Desafio. O filme está dublado no Youtube e parece que há uma certa dificuldade em encontrá-lo para comprar, mas rolam boatos de que dá pra baixar legendado por torrent. Eu recomendo, absolutamente. Assistam.



Primeiro, é óbvio que essa disciplina não é essencialmente teórica. Estudar o texto, o discurso, a retórica, reconhecer o poder da (condução da) palavra obviamente ultrapassa os limites do teórico, pois é facilmente transponível para os campos práticos da vida. E, ainda que não fosse, não estamos aqui para aprender o útil, o utilizável. Alguns campos do saber parecem distantes da vida real, da vida cotidiana, mas quem é da área de humanas sabe que nós somos extremamente vulneráveis no universo funcional e lógico sem nossa bagagem inútil, sem nosso suporte abstrato, sem nosso sustentáculo humano - variável, instável, subjetivo, plural, que não se pode provar por A+B. 

Poesia serve pra quê, afinal? Na prática, nada. Mas imagina que horror viver num mundo onde só nos relacionamos com as coisas que servem para alguma coisa!? Uffff...

Voltando ao filme, O Grande Desafio foi inspirado em fatos reais e se passa no Texas, entre os anos de 1935 e 1936, quando o preconceito e a segregação racial eram ainda muito evidentes nos Estados Unidos (especialmente no sul) e se manifestavam em vários espaços sociais.

Começa alternando entre três cenas que dizem muito a respeito dos personagens principais: Samantha, a única mulher (e negra!) que se arriscará e conseguirá entrar no grupo, ansiando participar dos debates promovidos pelo professor Tolson; o discurso teológico do sr. Farmer na recepção dos calouros, discurso ao qual seu filho Farmer Jr. assiste emocionado; a festa da qual Henry participa, entre confusões das quais o professor Tolson o livra.

Tolson não é um professor convencional. Primeiramente, não se limita apenas ao âmbito da universidade, uma vez que participa de reuniões com agricultores na tentativa de ajudá-los a organizar sindicatos que os representem - o que, obviamente, não é visto com bom olhos, já que esse tipo de movimentação incomoda os poderosos. Sua principal missão é "ajudar o aluno a encontrar, recuperar e manter a mente", o que, entre altos e baixos, é capaz de realizar com maestria.

O filme trabalha com várias vertentes da argumentação, concedendo à palavra e ao discurso um papel importantíssimo. O debate, muito além do que uma busca por prêmios ou recompensas, é visto como uma perseguição da verdade. A grande vitória é conquistada pelo poder da persuasão, pela força e consistência dos argumentos - não impondo, mas expondo a verdade da situação injusta dos negros no pais.

Chamou minha atenção particularmente o uso de argumentos baseados em vivências nos debates. Em muitas cenas, vemos professor e alunos lendo ferozmente, estudando, preparando  minuciosamente seus argumentos acerca do tema a ser debatido. Utilizam frequentemente argumentos de autoridade (citação de fonte confiável, histórica, literária, mitológica, bíblica, etc). No entanto, em alguns casos, um argumento assentado numa experiência pessoal tem tanto ou mais potência do que aquele apenas teórico, fruto dos estudos.

A capacidade de transformar uma experiência pessoal em algo universal, ou seja, um único debatedor, tendo como arma apenas a palavra diante do auditório, representa, como indivíduo, todo um conjunto de negros que sofrem a violência, o sadismo e a arbitrariedade no contexto do filme.

Essa arbitrariedade tem presença muito forte em duas cenas: a que o sr. Farmer atropela um porco na estrada e é humilhado por dois brancos, e a pior: a que o professor e equipe encontram um grupo de brancos que acabaram de torturar e enforcar um negro, num espetáculo macabro de crueldade sem razão. O sentimento dos protagonistas diante de tal barbaridade é de medo e vergonha. Não há mais nada que se possa sentir.

A cena causa grande impacto no pequeno Farmer Jr., o mais novo da equipe de debatedores. O garoto partira com notável otimismo de seu nicho de amor e proteção, simbolizado pela casa em que morava com os pais, a sua fonte de segurança. Por sua sagacidade acima da média, foi aceito no grupo de debatedores e até então ainda não havia, de fato, participado dos debates.

Contudo, o trauma da imagem que seus olhos avistaram na estrada - o negro enforcado - o havia debilitado emocionalmente. Tudo pareceu perder o sentido. Por que, afinal, estavam se sacrificando tanto, se, no final das contas, um negro podia ser castigado arbitrariamente? A lei era injusta. "A lei injusta não é lei". Mas o negro linchado estava lá. E nada poderia tirá-lo da sua cabeça naquele momento. Abalado pelas coisas terríveis que viu, o debatedor sente sua potência argumentativa falhar, e perde o debate.

O professor Tolson, apesar de todos os problemas que se vê obrigado a enfrentar ao longo da jornada do grupo, demonstra a força de um Anteu (mito, aliás, abordado no filme, e do qual pretendo falar em outra postagem por aqui). Cai, mas alimenta-se da terra-mãe e levanta-se fortalecido, tal qual o gigante. Sua competência intelectual, aliada à sua experiência e à sua profunda crença de que algo precisa ser feito para mudar a situação do negro no país, inspira os alunos e os estimula a continuar. Mostra-se um verdadeiro professor da vida. "Minha mensagem pra vocês é: jamais desistir!".