Avançar para o conteúdo principal

Escritores portugueses

O presente trabalho pretende estabelecer uma breve análise comparativa sobre como a história e o contexto histórico são articulados em dois romances portugueses de períodos bastante distintos: Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco, e História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. Trabalho final da disciplina Literatura Portuguesa III, com o professor Paulo Motta, no primeiro semestre de 2012.

INTRODUÇÃO

Visamos ressaltar as diferenças no manejo da história presente no interior de cada trama. Em Eusébio Macário, observaremos como o próprio narrador lida com a questão histórica, motivado pela paródia que se propõe a fazer dos romances realistas. Já em História do Cerco de Lisboa, não consideraremos o narrador propriamente dito, mas o protagonista Raimundo quando ganha a voz dentro da narrativa e a sua forma de trabalhar o tema. Para tanto, será inevitável explicitar o contexto histórico em que cada enredo se insere.


Ainda que as duas tramas sejam acentuadamente variadas e que mais de um século as separe, é interessante notar a mudança no olhar sobre a história, sobretudo como construir e repensar a história. O avanço tecnológico entre um período e outro também é um ponto importante a se observar.

A análise da distinção entre as formas de trabalhar com a história se baseia na seguinte afirmação de Saramago: “Duas serão as atitudes possíveis do romancista que escolheu, para a sua ficção, os caminhos da História: uma, discreta e respeitosa, consistirá em reproduzir ponto por ponto os fatos conhecidos, sendo a ficção mera servidora duma fidelidade que se quer inacatável; a outra, ousada, levá-lo-á a entretecer dados históricos não mais que suficientes num tecido ficcional que se manterá predominante. Porém, estes dois vastos mundos, o mundo das verdades históricas e o mundo das verdades ficcionais, à primeira vista inconciliáveis, podem vir a ser harmonizados na instância narradora.”  

A primeira atitude se aplicaria a Camilo, em sua intenção de parodiar os romances realistas, e ao narrador de Eusébio Macário; a segunda, a Raimundo ao recontar a episódio do cerco de Lisboa de seu ponto de vista. No entanto, veremos que essa ficção que se quer “inacatável” não é possível, mesmo em um romance realista como o deseja Eusébio Macário.
  
José Saramago,
escritor português

 “Mas a história foi vida real no tempo em que
ainda não poderia chamar-se-lhe história.”
(José Saramago)



Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi o primeiro escritor profissional de Portugal. Esteve dividido entre duas tendências literárias de sua época: o Romantismo, que se rompia e exauria, e o Realismo (aliado ao Naturalismo), então moderno, que buscava ultrapassar a escola anterior com a intenção de registrar a realidade por meio de embasamentos científicos. O momento em que vive Camilo é marcado pela decadência, pelo atraso e pela anacronia da sociedade portuguesa, o que, consequentemente, ressona em suas obras.

José de Sousa Saramago (1922-2010), por outro lado, se destaca por seus romances que retomam a história de Portugal e do mundo, de modo a sugerir novas perspectivas que o historiador em geral não pode ter. Teoricamente, apenas ao romancista seria dado o direito de acrescentar ou suprimir elementos e fazer uma releitura particular da história.

É precisamente o que flagramos em História do Cerco de Lisboa. Raimundo Benvido Silva é um revisor de provas de mais de cinquenta anos que vive sozinho em Lisboa. Os conflitos surgem quando o protagonista inexplicavelmente adiciona um “não” em um livro de história que revisava. A partir dessa intervenção, entendia-se que os cruzados não haviam auxiliado o rei português D. Afonso Henriques a tomar Lisboa dos mouros em 1147.

Raimundo aceita o desafio de reescrever o episódio do cerco de Lisboa partindo da adulteração que fez e das novas informações que iam brotando e vagando em sua mente enquanto revisava. Com esse ato, evidencia-se que o escritor pode modificar a história da forma que desejar, e Raimundo o faz deliberadamente.

O protagonista, por conseguinte, assume o posto de narrador dentro da obra e revela que a história não pode se desvincular da subjetividade de quem a escreve. É justamente o contrário do que buscavam os realistas e, por consequência, Camilo quando se propõe a parodiar os romances da escola realista. Em Eusébio Macário, Bento é o típico português que sai de seu país para ir ao Brasil, onde prospera e enriquece. Posteriormente, retorna a Portugal com dinheiro, perturbando o equilíbrio e a estabilidade da aldeia para onde volta, agora como elemento externo.

Eusébio Macário se passa no período de Costa Cabral, por volta dos anos 1840, como se constata na Advertência do livro: “A história natural de uma família no tempo dos Cabrais dá fôlego para dezassete volumes compactos, bons, de uma profunda compreensão da sociedade decadente.”. Ilustremos sinteticamente o período: do século XVII ao XIX, Portugal dependia economicamente das colônias. O Brasil podia comercializar unicamente com a metrópole. No século XIX, contudo, com a invasão francesa e a consequente fuga da família real para o Brasil, o Rio de Janeiro passou a ser a capital do império, ou seja, há uma inversão entre a metrópole e a colônia.

Com a revolução do Porto, D. João VI volta a Portugal e fica no poder até o ano de sua morte, 1826. D. Pedro está no Brasil e não pode assumir o trono em Portugal, portanto casa sua filha D. Maria com D. Miguel e envia para Portugal uma constituição semelhante a do Brasil. D. Maria e D. Miguel reinariam; porém, antes que ela chegasse, D. Miguel já havia assumido o poder, em 1828. Até 1834, sucede uma guerra civil, vencida por D. Pedro IV e os liberais.

A população nesse momento é agrária e tradicional, de modo que não “compreende” o liberalismo. Os liberais que assumem o poder são compostos de pessoas de várias posições políticas. Cabralismo corresponde ao período de 1842 a 1846, quando António Bernardo da Costa Cabral assume o poder visando desenvolver o país economicamente, censurando os inimigos políticos. É com Cabral que se estabelece o Estado liberal.

Paralelamente a essa situação político-social, se destaca o movimento realista-naturalista na literatura, o qual pregava uma narrativa fundamentada na observação da realidade contemporânea. De acordo com J. Cândido Martins, no prefácio da edição de Eusébio Macário de 2003, “o romancista assume-se como pintor ou historiador do presente (...) como uma esponja, o romancista deve embeber-se da realidade circundante, fazer inquérito, retratar com fidelidade, reproduzir com exatidão.”. Devem recriar universos verossímeis “a partir da pesquisa documental e da observação sistemática” e valorizar “temáticas contemporâneas ligadas à representação do meio urbano e burguês, com os assuntos da vida familiar e colectiva, os da esfera econômica e social ou do âmbito cultural. (...) O ponto de vista deve ser o de um observador e testemunha, que aspira a ser um historiador ou cientista social.”.

Camilo Castelo Branco,
escritor português
Ora, se Camilo buscava parodiar a escola realista, o que faz é se apropriar de tais concepções de literatura para poder criticá-las: “Os processos do autor são, como já se vê, os científicos, o estudo dos meios, a orientação das ideias pela fatalidade geográfica, as incoercíveis leis fisiológicas e climatéricas do temperamento e da temperatura, o despotismo do sangue, a tirania dos nervos, a questão das raças, a etologia, a hereditariedade inconsciente dos aleijões de família, tudo, o diabo!”, diz ele em sua irônica Advertência.

Se, segundo J. Cândido Martins, a obra se apresenta “expressamente sob a forma violenta da charge ou sátira parodística e caricatural do Realismo de escola” e a narrativa camiliana está “sempre atente à evolução das orientações estéticas do modo público”, significa que Eusébio Macário absorve, embora recorrendo ao exagero, a intenção de refletir profundamente sobre a sociedade decadente, agrária e tradicional da época.

Em contrapartida a essa sociedade atrasada, dos tempos de “engenhos de café moído a vapor, açúcar e aguardente”, História do Cerco de Lisboa se passa provavelmente nos anos 1980, dado o comentário do narrador “agora a polícia já não vem tirar-nos da cama matinalmente”, com o que podemos supor que Portugal já não está mais submetido à ditadura de Salazar, a qual havia interrompido o mesmo liberalismo que começara com Cabral. Trata-se de um período já marcado pela tecnologia, visto que figuram aparelhos como o telefone, a televisão com seus videoclips, meios de transportes como os aviões a jato e os automóveis com seus motores que rugem. Os carros de Eusébio Macário, por sua vez, “chiavam nas terras baixas, barrentas.”.

Lisboa aqui é descrita como cidade “moderna, higiênica, organizada”. Além disso, se nos tempos do Cabrais os portugueses saem de sua terra na tentativa de enriquecer no Brasil, Portugal agora é marcado pela recepção de estrangeiros: “estes turistas a chegar, são os primeiros da manhã, em dois autocarros, um de japoneses, óculos e máquinas fotográficas, outro de anoraques e calças de cores americanas.”.

O pensamento de Saramago, ou melhor, de Raimundo, ao reescrever a história do cerco de Lisboa, é de certa forma oposto ao dos realistas. Não há o intuito de retratar a realidade histórica com fidelidade, senão fazer uma releitura ou uma relativização, acrescentando ou suprimindo fatos, reorganizando e selecionando apenas o que julga necessário, por saber que é impossível que se registre tão fielmente fatos que são por si só ambíguos, que envolvem pessoas e suas decisões, decisões muitas vezes subjetivas, o que impossibilita que o registro da história seja integralmente objetivo e verídico.

Em um diálogo com historiador, autor da prova de História do Cerco de Lisboa que o protagonista revisa, o protagonista afirma: “tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender.”. Crê o narrador que “o miúdo pormenor não interessaria à história, somente que ficasse o leitor sabendo que o autor conhecia das coisas daquele tempo o suficiente para fazer delas responsável menção.”.

O realismo de Camilo, no entanto, ao parodiar o romance realista, demonstra a necessidade de criar a sensação de realidade por meio de descrições cansativas, detalhadas, minuciosas, porém sempre embasadas em pesquisas, documentos, na ciência.

Ademais, o autor, na narrativa realista, tem de ser neutro, imparcial; tem de observar a realidade e relatá-la a partir de dados objetivos e comprovados. O narrador não deve intervir, a exemplo deste trecho de Eusébio Macário: “Era 1840. Começava a grassar a facção cabralista. (...) O Governo, cuja alma era Costa Cabral, venceu (...)”. Não se trata de um texto histórico, e sim de um romance; ainda assim, motivado pelos preceitos da escola realista, Camilo emprega o recurso de denunciar o realismo das coisas.

Raimundo, por sua vez, não só acrescenta à história um fato inverídico como ainda aborda a narração de maneira quase lírica: “lá lhe pareceu que era informar pouco limitar-se o historiador a falar de muezim e minarete, unicamente para introduzir, se não permitidos juízos temerários, um pouco de cor local e tinta histórica no arraial do inimigo (...)”. A imaginação de Raimundo é ainda mais estimulada pelo fato de viver precisamente na cidade onde todos aqueles fatos se deram. Enquanto lê a prova para poder revisá-la, fantasia cenas que efetivamente não se encontram no livro: “O almuadem não abriu os olhos. Podia continuar deitado algum tempo ainda, enquanto o sol, muito devagar, se vinha acercando no horizonte da terra, porém tão longe de chegar que nenhum galo da cidade levantara a cabeça para indagar dos movimentos da manhã. É certo que ladrou um cão, sem resultado, que os mais dormiam, talvez a sonhar que em sonhos estavam ladrando.”.

Para um romancista da escola realista-naturalista, uma descrição como essa seria possível a um personagem fictício, mas não a um personagem histórico ou a uma cena reproduzindo um fato que efetivamente se deu, que deveria servir, sobretudo, para embasar e dar veracidade à ficção. Todavia, retomando o que dissemos sobre a impossibilidade de um relato ser completamente verossímil, é importante ressaltar que, por maior que seja a intenção do autor em reproduzir fidedignamente o contexto histórico ou mesmo contemporâneo, e por mais que se baseie em documentos, a partir do momento em que o autor se põe a redigir, é inevitável que os fatos sejam distorcidos de alguma maneira.

Em Eusébio Macário, embora os personagens estejam explicitamente situados em um determinado contexto histórico, em uma determinada situação político-social, e sejam influenciados por ela, a história não é fielmente reproduzida, ainda mais porque se trata de uma paródia, onde tudo é levado ao exagero, as descrições são exaustivas, todas as características e todos os preceitos que fundamentam o realismo são empregados em excesso.

CONCLUSÃO

Apresentamos, neste trabalho, o contexto histórico em que estão situadas as obras portuguesas História do Cerco de Lisboa (Saramago) e Eusébio Macário (Castelo Branco): a primeira por volta dos anos 1980, marcada pelo avanço tecnológico e um Portugal mais desenvolvido; a segunda, no tempo dos Cabrais, caracterizada por uma sociedade agrária e atrasada, ainda dependente dos recursos e da mão de obra oriundos das colônias.

Além disso, analisamos como o personagem e narrador Raimundo e o narrador de Eusébio Macário lidam com a história e seu registro em literatura. Concluímos que, ainda que o autor de Eusébio Macário se proponha a parodiar uma obra realista - a qual buscava relatar os fatos históricos e contemporâneos com fidelidade -, não é possível alcançar tal veracidade em literatura, já que o romancista, inevitavelmente, deixa que a subjetividade se mescle aos fatos. Nem o próprio historiador seria capaz de trazer os fatos ao registro escrito de maneira imparcial e fidedigna.




OBRAS CONSULTADAS

BERRINI, Beatriz. José Saramago, Uma homangem. São Paulo: Educ, 1999.

CASTELO BRANCO, Camilo. Eusébio Macário. Porto: Porto Editora, 1991.

CASTELO BRANCO, Camilo. Eusébio Macário / A corja. Porto: Caixotim, 2003.

LOPONDO, Lilian (org). Saramago segundo terceiros. São Paulo: Humanitas, 1998.

            SARAMAGO, José. História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
           
         SILVA, Teresa Cristina Cerdeira. José Saramago: entre a ficção e a história. Lisboa: Dom Quixote, 1989.


* Além dos textos de apoio, este trabalho foi elaborado com o auxílio de anotações feitas ao longo das aulas de Literatura Portuguesa III, ministradas pelo docente Paulo Motta Oliveira, no primeiro semestre de 2012.