1 de junho de 2012

Impertinência


Impertinência é viver, retumbava uma voz embriagada em sua cabeça, de onde vinha?, não fazia ideia, não tinha bebido, não falava daquele jeito, a voz que ali se articulava não era sua, não, senhor, mas impertinência é viver?, se perguntava, sim, respondia a voz, viver e insistir em viver, viver e insistir em não morrer, viver e temer a morte, viver e acordar todos os dias e todos os dias insistir em manter a vida ainda que a vida se resuma à coisa alguma, impertinência é viver, contornar os infortúnios, padecer de imprecisões, viver enfim por um fio, viver apenas para proclamar que se viveu, viver com o único propósito de não morrer, viver pensando que se vai morrer, viver morrendo antes de morrer, morrer sem que estivesse vivendo no entanto, viver assim: sem mais nem menos, ou ainda: sempre com menos, viver de menos, esperar demais, viver esperando, morrer sem esperar,  esperar pela vida quando chega a morte, morrendo sempre que se vê a morte, morrendo os nervos, morrendo os sonhos, morrendo aquilo que valia um sorriso, sorrindo por viver, sofrendo por viver, vivendo para sofrer, que grande incômodo é viver!, que grande incômodo é morrer!, incomoda a angústia, incomoda o amor, incomoda o frio, incomoda o calor, impertinência é morrer, insatisfeito, satisfeito, desconfortável, confortável, há conforto no caixão?, tampouco em tua casa, tampouco no teu corpo, a impertinência de não haver espaço para se mover, a impertinência de haver tanto espaço ao alcance dos olhos e ao desalcance dos pés, viver é hiato hoje, é tritongo amanhã, é elipse ontem e quem sabe, entretanto, por que está dizendo essas coisas?, pois que te questionavas diante do espelho com teus olhos que vivem e morrem embrulhados em tuas pálpebras vividamente apodrecidas de impertinência, impertinência?, impertinência de viver, sim, senhor.