5 de fevereiro de 2012

É terminantemente proibido o que farei a seguir

É terminantemente proibido o que farei a seguir - no entanto, eu o farei, eu assassinarei o texto, eu providenciarei que o leitor se sinta traído, ludibriado e quem sabe até ultrajado - é o que farei. Não tenho conhecimento de quem determinou que não se deve fazê-lo, se é uma questão de lei ou não, se está na constituição ou talvez na bíblia. Pode, quiçá, tratar-se apenas de bons costumes, princípios, burocracias subjetivas do gênero. Transcorrerei décadas, até a minha morte - se é que viverei tanto tempo - sem poder compreendê-lo. Mas há tantos delitos que não sabemos por que levam o nome: delitos. Perguntamo-nos, e nos perguntaremos sempre: é ilícito, mas por quê? E enfim. O que é, com efeito, relevante no presente texto, e que eu vinha dizendo anteriormente, é que pode o senhor leitor sentir-se atingido pela audácia de minhas palavras, que se encarregarão – as palavras, não eu – da transgressão: o assassinato do texto. Mas não revelarei o que tenciono revelar sem antes alertá-lo de meu crime, delito, ilegalidade, sem antes confessar a consciência do meu erro – ou acerto, dependendo do ponto de vista que se tem – não posso de maneira alguma dizê-lo, desvendar o que virá a seguir, sem preveni-lo, sem prepará-lo com as devidas cautelas, senhor leitor, para o meu ato de atrevimento, ou de minhas palavras. Palavras que possivelmente lhe soarão hostis, que podem vir aparelhadas para a guerra, rigorosamente armadas, palavras daquelas que surgem com armaduras, contra as quais ninguém é capaz: palavras em fúria. Saiba o senhor leitor que se tal for a impressão causada pelas palavras que virão a seguir, tal impressão não passa de um engano, uma ilusão, uma alucinação resultando do ato reflexo que todos nós contraímos ao entrar em contato com as brutalidades do mundo, as quais nos obrigam a nos posicionar sempre na defensiva e considerar qualquer gesto vindo de outrem um gesto mal-intencionado, ou ao menos ponderá-lo. Saiba ainda o senhor leitor que não há nada de buliçoso em minhas palavras - ainda que venha a parecer que haja – e que, se escrevo para revelar algo, o faço com bons propósitos. É óbvio que assassino o texto ao justificá-lo desse modo minucioso, tenho ciência de minha petulância, mas, se o faço, é por culpa das palavras, e não minha. Não me isento do largo crime que é o assassinato de um texto por meio de palavras aparentemente bárbaras; no entanto não me responsabilizo pelas suas ações e ressonâncias no senhor leitor – nisso não me envolvo, disso não me culpo. Não tenho culpa que haja palavras, que haja literatura, e que ela, literatura, não tenha finalidade, não queira chegar a lugar algum, e por essa razão encerro aqui o meu texto, enterro aqui o meu texto, senhor leitor, pois, desafortunadamente, não tenho nada a dizer com estas palavras, com esta "literatura".