1 de dezembro de 2012

Julio Cortázar

O ensaio a seguir é o trabalho final da disciplina Literatura Hispano-Americana Contemporânea, com a professora Laura Hosiasson, no segundo semestre de 2012

O SILÊNCIO EM "CARTAS A MAMÁ", DE JULIO CORTÁZAR

Julio Cortázar,
escritor argentino
À luz de O escorpião encalacrado, de Davi Arrigucci, pretende-se, no presente trabalho, analisar brevemente alguns aspectos ligados à função do silêncio no conto “Cartas de Mamá”, de Julio Cortázar. Foi possível notar que a escassez de diálogos na narrativa é ricamente substituída por gestos e pensamentos significativos e não manifestos verbalmente que caracterizam as personagens. Para desenvolver o conto, o narrador joga com o passado e o presente e recorre frequentemente ao discurso indireto livre, o qual reproduz indiretamente o movimento interior das personagens. 

13 de agosto de 2012

Trechos de A experiência da agonia - Laymert Garcia dos Santos

                 Dizer é momento de produção de afirmação, que surge no bojo de um movimento. Movimento de expulsão, de esconjuro, de exorcismo das forças da morte que se apropriam da energia vital, voltando-a contra ela mesma.

                  Dizer é um momento da luta feroz e surda a que se entregam as forças da morte contra o sopro de vida. Dizer já é um início de vitória – mas não se diz o começo da luta, este é indizível. Quando se chega a dizer, é porque a barragem que represava o sopro já sofreu o primeiro abalo. Como se tivesse ocorrido uma imensa e mínima reviravolta (...)

1 de julho de 2012

Escritores portugueses

O presente trabalho pretende estabelecer uma breve análise comparativa sobre como a história e o contexto histórico são articulados em dois romances portugueses de períodos bastante distintos: Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco, e História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. Trabalho final da disciplina Literatura Portuguesa III, com o professor Paulo Motta, no primeiro semestre de 2012.

INTRODUÇÃO

Visamos ressaltar as diferenças no manejo da história presente no interior de cada trama. Em Eusébio Macário, observaremos como o próprio narrador lida com a questão histórica, motivado pela paródia que se propõe a fazer dos romances realistas. Já em História do Cerco de Lisboa, não consideraremos o narrador propriamente dito, mas o protagonista Raimundo quando ganha a voz dentro da narrativa e a sua forma de trabalhar o tema. Para tanto, será inevitável explicitar o contexto histórico em que cada enredo se insere.

1 de junho de 2012

Impertinência


Impertinência é viver, retumbava uma voz embriagada em sua cabeça, de onde vinha?, não fazia ideia, não tinha bebido, não falava daquele jeito, a voz que ali se articulava não era sua, não, senhor, mas impertinência é viver?, se perguntava, sim, respondia a voz, viver e insistir em viver, viver e insistir em não morrer, viver e temer a morte, viver e acordar todos os dias e todos os dias insistir em manter a vida ainda que a vida se resuma à coisa alguma, impertinência é viver, contornar os infortúnios, padecer de imprecisões, viver enfim por um fio, viver apenas para proclamar que se viveu, viver com o único propósito de não morrer, viver pensando que se vai morrer, viver morrendo antes de morrer, morrer sem que estivesse vivendo no entanto, viver assim: sem mais nem menos, ou ainda: sempre com menos, viver de menos, esperar demais, viver esperando, morrer sem esperar,  esperar pela vida quando chega a morte, morrendo sempre que se vê a morte, morrendo os nervos, morrendo os sonhos, morrendo aquilo que valia um sorriso, sorrindo por viver, sofrendo por viver, vivendo para sofrer, que grande incômodo é viver!, que grande incômodo é morrer!, incomoda a angústia, incomoda o amor, incomoda o frio, incomoda o calor, impertinência é morrer, insatisfeito, satisfeito, desconfortável, confortável, há conforto no caixão?, tampouco em tua casa, tampouco no teu corpo, a impertinência de não haver espaço para se mover, a impertinência de haver tanto espaço ao alcance dos olhos e ao desalcance dos pés, viver é hiato hoje, é tritongo amanhã, é elipse ontem e quem sabe, entretanto, por que está dizendo essas coisas?, pois que te questionavas diante do espelho com teus olhos que vivem e morrem embrulhados em tuas pálpebras vividamente apodrecidas de impertinência, impertinência?, impertinência de viver, sim, senhor. 


15 de maio de 2012

Nada, de Carmen Laforet

O ensaio a seguir é o meu trabalho final da disciplina Literatura Espanhola do Século XX, com a professora Margareth Santos, no primeiro semestre de 2012 

EL PÓS-GUERRA CIVIL ESPAÑOLA DEL PUNTO DE VISTA DE ANDREA, EN NADA, DE CARMEN LAFORET

Carmen Laforet,
escritora espanhola
Nada fue la primera novela de Carmen Laforet y la que proporcionó a la joven autora española notoriedad y repercusión entre el público y la crítica. Publicado en 1944, es asociado al contexto pos-guerra civil de España. Está compuesto por tres partes, en las cuales el tiempo de la narración es predominantemente linear, y por dos espacios fundamentales: el interno, la casa de la familia de Andrea, y el externo, las calles de Barcelona, la casa de Ena y la Universidad.

1 de abril de 2012

Gêneros Discursivos - Irene Machado

Aristóteles,
filósofo grego
1. Em sua poética, Aristóteles classifica os gêneros como obras da voz tomando como critério o modo de representação mimética. Poesia de primeira voz é representação da lírica; a poesia de segunda voz, da épica, e a poesia de terceira voz, do drama. Trata-se de uma classificação paradigmática e hierárquica.

2. Além das formações poéticas, Bakhtin afirma a necessidade de um exame circunstanciado não apenas da retórica mas, sobretudo, das práticas prosaicas que diferentes usos da linguagem fazem do discurso, oferecendo-o como manifestação de pluralidade.

5 de fevereiro de 2012

É terminantemente proibido o que farei a seguir

É terminantemente proibido o que farei a seguir - no entanto, eu o farei, eu assassinarei o texto, eu providenciarei que o leitor se sinta traído, ludibriado e quem sabe até ultrajado - é o que farei. Não tenho conhecimento de quem determinou que não se deve fazê-lo, se é uma questão de lei ou não, se está na constituição ou talvez na bíblia. Pode, quiçá, tratar-se apenas de bons costumes, princípios, burocracias subjetivas do gênero. Transcorrerei décadas, até a minha morte - se é que viverei tanto tempo - sem poder compreendê-lo. Mas há tantos delitos que não sabemos por que levam o nome: delitos. Perguntamo-nos, e nos perguntaremos sempre: é ilícito, mas por quê? E enfim. O que é, com efeito, relevante no presente texto, e que eu vinha dizendo anteriormente, é que pode o senhor leitor sentir-se atingido pela audácia de minhas palavras, que se encarregarão – as palavras, não eu – da transgressão: o assassinato do texto. Mas não revelarei o que tenciono revelar sem antes alertá-lo de meu crime, delito, ilegalidade, sem antes confessar a consciência do meu erro – ou acerto, dependendo do ponto de vista que se tem – não posso de maneira alguma dizê-lo, desvendar o que virá a seguir, sem preveni-lo, sem prepará-lo com as devidas cautelas, senhor leitor, para o meu ato de atrevimento, ou de minhas palavras. Palavras que possivelmente lhe soarão hostis, que podem vir aparelhadas para a guerra, rigorosamente armadas, palavras daquelas que surgem com armaduras, contra as quais ninguém é capaz: palavras em fúria. Saiba o senhor leitor que se tal for a impressão causada pelas palavras que virão a seguir, tal impressão não passa de um engano, uma ilusão, uma alucinação resultando do ato reflexo que todos nós contraímos ao entrar em contato com as brutalidades do mundo, as quais nos obrigam a nos posicionar sempre na defensiva e considerar qualquer gesto vindo de outrem um gesto mal-intencionado, ou ao menos ponderá-lo. Saiba ainda o senhor leitor que não há nada de buliçoso em minhas palavras - ainda que venha a parecer que haja – e que, se escrevo para revelar algo, o faço com bons propósitos. É óbvio que assassino o texto ao justificá-lo desse modo minucioso, tenho ciência de minha petulância, mas, se o faço, é por culpa das palavras, e não minha. Não me isento do largo crime que é o assassinato de um texto por meio de palavras aparentemente bárbaras; no entanto não me responsabilizo pelas suas ações e ressonâncias no senhor leitor – nisso não me envolvo, disso não me culpo. Não tenho culpa que haja palavras, que haja literatura, e que ela, literatura, não tenha finalidade, não queira chegar a lugar algum, e por essa razão encerro aqui o meu texto, enterro aqui o meu texto, senhor leitor, pois, desafortunadamente, não tenho nada a dizer com estas palavras, com esta "literatura".