28 de novembro de 2011

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente, que a bombardearam de dentro do camburão, talvez por excesso de peso no veículo, talvez por medo da criatura que chegava a tremelicar de tamanha fragilidade, eram seus olhos os mais opacos da humanidade, os mais tremelicosos, umas pupilas assim que balouçavam dentro da íris gelatinosa, umas pupilas assim que escorregavam de uma esquina a outra dos olhos baços, olhos de embriaguez suja, olhos de água escurecida antes de cair nos esgotos, não eram castanhos, não eram exatamente negros, eram encardidos e amarrotados, olhos aos quais a poeirada vai aderindo, olhos que perderam sua cor original, se é que um dia a tiveram, olhos que perderam a capacidade de reverberar imagens, opaca, a criatura era opaca, era ainda magérrima, sua ossatura marcava a pele, sua pele era ressequida, se confundia com a areia do deserto no qual havia sido abandonada, abandono ou talvez, ou talvez algo parecido com uma segunda chance, quem sabe aonde a levariam, quem sabe, o deserto: uma segunda chance?, se perguntava, se contorcia, amanheceu agora, entardeceu depois, quanta fome, quanta desconfiança, quanta penúria, e o céu se não ficasse tão alaranjado talvez soprasse um ventinho de esperança, só que não, o sol sorria, sorria de fato, lhe mandava flatulências de calor estrídulo, um tal desespero, a criatura sacudia, com aquilo não podia mais, e deitada no chão se fundia à areia, estava amarelada, envelhecia, o sol se punha, baixava numa lentidão macabra, tocava a superfície, e não era a fome de alimento o que sentia a criatura, não era o calor do sol que a inflamava, não era o desespero de dor que a enrijecia: era fome de viver, era o calor de viver, era o desespero, o desespero de viver, de viver.