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A mostrar mensagens de Novembro, 2011

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente, que a bombardearam de dentro do camburão, talvez por excesso de peso no veículo, talvez por medo da criatura que chegava a tremelicar de tamanha fragilidade, eram seus olhos os mais opacos da humanidade, os mais tremelicosos, umas pupilas assim que balouçavam dentro da íris gelatinosa, umas pupilas assim que escorregavam de uma esquina a outra dos olhos baços, olhos de embriaguez suja, olhos de água escurecida antes de cair nos esgotos, não eram castanhos, não eram exatamente negros, eram encardidos e amarrotados, olhos aos quais a poeirada vai aderindo, olhos que perderam sua cor original, se é que um dia a tiveram, olhos que perderam a capacidade de reverberar imagens, opaca, a criatura era opaca, era ainda magérrima, sua ossatura marcava a pele, sua pele era ressequida, se confundia com a areia do deserto no qual havia sido abandonada, abandono ou talvez, ou talvez algo parecido com uma segunda chance, quem sabe aonde…

Publiquei no Artnativa!