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E as palavras?

Ele perdeu todas, perdeu como se nunca as tivesse possuído, absolutamente desapareceram dos neurônios antes que lhes chegassem aos dedos, como se sublimassem, em um segundo líquidas, no outro gasosas, intangíveis, porque ele estava no meio da calçada e ali no centro da cidade as palavras se confundem com a fumaça dos caminhões. Mas quanta estupidez, ponderou, como sou parvo, pensar que sou dono das palavras, que possuo as palavras, quando a cada passada elas se me escapam, atravesso a rua e a oração se hiperbata, a palavra do início se desloca para o fim, muitas vezes, de súbito, se elide, não sei se colocara ali um pronome ou um artigo, as linhas dos pensamentos se rompem e as palavras escorregam e se embaralham no meio-fio, quando volto à casa e tenho o papel e a caneta às mãos já não tenho as palavras. As palavras, as palavras – não só palavras mas dísticos, sonetos, poemas, contos, peças, roteiros, romances, super romances, mega romances, escrevo o mundo e diante do branco do papel o mundo evacua. Que passa? Pra onde vão? Diante dessas intricadas questões, explicitadas em segredo ao final da aula de química, o professor, comovido, entretanto sem compreender por que a ele é que o aluno recorreu, recomendou um bloquinho de anotações, que assim as palavras ficam na temperatura ambiente, não vaporizam, fique descansado.