21 de agosto de 2011

A metamorfose

Acordou com dores nas costas, estranhou, nunca as tivera, era jovem e a mãe o ensinara a manter a postura, nunca se sentava curvado e deitava segundo as recomendações médicas, tinha uma boa alimentação e praticava esportes, tampouco se lembrava de ter feito movimentos bruscos, então por que raios lhe doíam as costas? Demorou ainda algum tempo para conseguir despertar, era sempre assim, acordava e não despertava, apurava os ouvidos e ouvia o silêncio do quarto, mas agora havia ruídos, pneus, latidos, sirenes, vozes altas, choros de criança - acaso deixara a televisão ligada? Não podia ser, não mantinha tal hábito dispendioso, sequer assistira à televisão na noite anterior, porque trabalhara até tarde, bem tarde, e chegara muito cansado, incapaz de se concentrar em o que quer que fosse. Além das dores nas costas e da confusão auditiva, suas calças estavam úmidas entre as pernas, um forte odor de urina lhe invadiu as narinas, foi quando finalmente tomou coragem para abrir os olhos, três ou quatro prédios lhe preencheram a visão, um avião atravessou o céu, alguém esbarrou em seus pés. Ele se sentou, assustado, arquejante, estava no meio da calçada da principal avenida de seu bairro, um cobertor em farrapos lhe cobria o corpo, um vira-lata lambia um prato vazio bem ao lado da sua cabeça. Não estava mais assustado, mas apavorado, se sentou tão violentamente que o cachorro se afastou, os pedestres que passavam perto o olharam com desdém. Não sabia como fora parar ali, não bebera, aliás, nunca bebera a ponto de tornar-se inconsequente e ir dormir nas ruas, algo estava muitíssimo errado, talvez ainda estivesse dormindo e sonhando – ou, como costumava dizer, “pesadelando”. Deitou a cabeça de volta na calçada e fechou os olhos na esperança de que quando acordasse pra valer estaria em sua cama de colchas creme e lençóis mais brancos que a neve. No entanto, cada vez que abria os olhos continuava lá, no meio da calçada, atrapalhando a passagem e fedendo a urina. Resignado, sentou-se e encolheu-se mais próximo ao muro, olhando para todos os lados sem realmente ver e especulando o que é que teria acontecido para que ele chegasse ali. Era, agora, um autêntico mendigo. Sua própria mãe passou atravessando seu campo de visão sem reconhecê-lo e, tendo gritado para chamá-la, sentiu sua voz completamente distorcida, deformada, parecia não lhe pertencer. A senhora sequer olhou pra trás, virou a esquina e nunca mais se viram. Agora ele era mendigo, e sua mãe não tinha dó nem paciência com mendigos, ia era visitar seu filho, um moço direito, estudado, que se alimentava bem, se sentava ereto e nunca, nunca na vida havia lido Kafka. 


15 de agosto de 2011

Clarice Lispector & Guimarães Rosa

A seguir, meu trabalho final da disciplina Literatura Brasileira II, com a professora Yudith Rosenbaum, no segundo semestre de 2011.

1. Comentário: Guimarães Rosa e Clarice Lispector
2. Análise: A poética de Clarice Lispector em A Hora da Estrela

1. Comentário

Guimarães Rosa,
escritor brasileiro
Guimarães Rosa se relaciona com o contexto histórico-literário de sua época manejando a linguagem regional de forma elaborada e excepcional. O cenário de sua obra é, na maior parte das vezes, o sertão, mas um sertão distinto do que vinha sendo pintado em outros escritos da época (em Graciliano Ramos, por exemplo). O sertão de Guimarães é universal: o jagunço que assinala um determinado momento e uma determinada região é também o homem universal em conflito com o mundo e seus impasses. Daí classificar-se seu regionalismo como universalista. Guimarães, que começou a publicar em meados dos anos trinta, herdou certas conquistas do movimento modernista, tais como a ruptura das estruturas acomodadas e as correntes lingüístico-estéticas muito estritas, além da consolidação de uma consciência crítica nacional, levando em conta um Brasil miscigenado, com raízes e cultura próprias. Absorveu ainda duas tendências literárias e as fundiu em um estilo completamente estilizado. Uma das tendências é a do romance social dos anos 30, do qual o autor extraiu o regionalismo, a literatura voltada para as massas (em Guimarães, as massas sertanejas), marcas do coloquialismo e da oralidade e a presença do sujeito em desordem. Já do romance introspectivo foi sorvida a questão religiosa, tais como o pecado, a graça, a transcendência, o mundo sobrenatural.  

3 de agosto de 2011

E as palavras?

Ele perdeu todas, perdeu como se nunca as tivesse possuído, absolutamente desapareceram dos neurônios antes que lhes chegassem aos dedos, como se sublimassem, em um segundo líquidas, no outro gasosas, intangíveis, porque ele estava no meio da calçada e ali no centro da cidade as palavras se confundem com a fumaça dos caminhões. Mas quanta estupidez, ponderou, como sou parvo, pensar que sou dono das palavras, que possuo as palavras, quando a cada passada elas se me escapam, atravesso a rua e a oração se hiperbata, a palavra do início se desloca para o fim, muitas vezes, de súbito, se elide, não sei se colocara ali um pronome ou um artigo, as linhas dos pensamentos se rompem e as palavras escorregam e se embaralham no meio-fio, quando volto à casa e tenho o papel e a caneta às mãos já não tenho as palavras. As palavras, as palavras – não só palavras mas dísticos, sonetos, poemas, contos, peças, roteiros, romances, super romances, mega romances, escrevo o mundo e diante do branco do papel o mundo evacua. Que passa? Pra onde vão? Diante dessas intricadas questões, explicitadas em segredo ao final da aula de química, o professor, comovido, entretanto sem compreender por que a ele é que o aluno recorreu, recomendou um bloquinho de anotações, que assim as palavras ficam na temperatura ambiente, não vaporizam, fique descansado.