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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2011

A metamorfose

Acordou com dores nas costas, estranhou, nunca as tivera, era jovem e a mãe o ensinara a manter a postura, nunca se sentava curvado e deitava segundo as recomendações médicas, tinha uma boa alimentação e praticava esportes, tampouco se lembrava de ter feito movimentos bruscos, então por que raios lhe doíam as costas? Demorou ainda algum tempo para conseguir despertar, era sempre assim, acordava e não despertava, apurava os ouvidos e ouvia o silêncio do quarto, mas agora havia ruídos, pneus, latidos, sirenes, vozes altas, choros de criança - acaso deixara a televisão ligada? Não podia ser, não mantinha tal hábito dispendioso, sequer assistira à televisão na noite anterior, porque trabalhara até tarde, bem tarde, e chegara muito cansado, incapaz de se concentrar em o que quer que fosse. Além das dores nas costas e da confusão auditiva, suas calças estavam úmidas entre as pernas, um forte odor de urina lhe invadiu as narinas, foi quando finalmente tomou coragem para abrir os olhos, três …

Clarice Lispector & Guimarães Rosa

A seguir, meu trabalho final da disciplina Literatura Brasileira II, com a professora Yudith Rosenbaum, no segundo semestre de 2011.
1. Comentário: Guimarães Rosa e Clarice Lispector 2. Análise: A poética de Clarice Lispector em A Hora da Estrela
1. Comentário
Guimarães Rosa se relaciona com o contexto histórico-literário de sua época manejando a linguagem regional de forma elaborada e excepcional. O cenário de sua obra é, na maior parte das vezes, o sertão, mas um sertão distinto do que vinha sendo pintado em outros escritos da época (em Graciliano Ramos, por exemplo). O sertão de Guimarães é universal: o jagunço que assinala um determinado momento e uma determinada região é também o homem universal em conflito com o mundo e seus impasses. Daí classificar-se seu regionalismo como universalista. Guimarães, que começou a publicar em meados dos anos trinta, herdou certas conquistas do movimento modernista, tais como a ruptura das estruturas acomodadas e as correntes lingüístico-estéticas mu…

E as palavras?

Ele perdeu todas, perdeu como se nunca as tivesse possuído, absolutamente desapareceram dos neurônios antes que lhes chegassem aos dedos, como se sublimassem, em um segundo líquidas, no outro gasosas, intangíveis, porque ele estava no meio da calçada e ali no centro da cidade as palavras se confundem com a fumaça dos caminhões. Mas quanta estupidez, ponderou, como sou parvo, pensar que sou dono das palavras, que possuo as palavras, quando a cada passada elas se me escapam, atravesso a rua e a oração se hiperbata, a palavra do início se desloca para o fim, muitas vezes, de súbito, se elide, não sei se colocara ali um pronome ou um artigo, as linhas dos pensamentos se rompem e as palavras escorregam e se embaralham no meio-fio, quando volto à casa e tenho o papel e a caneta às mãos já não tenho as palavras. As palavras, as palavras – não só palavras mas dísticos, sonetos, poemas, contos, peças, roteiros, romances, super romances, mega romances, escrevo o mundo e diante do branco do pape…