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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2011

Medida arbitrária da duração das coisas

Se eu cometesse um crime e fosse para a cadeia talvez tivesse tempo para ler todos os livros que gostaria de ler. O mundo é transviado, o tempo é injusto – eu só queria tempo para ler, para ler, não para arquitetar um crime, cometer um crime, pagar por um crime. Não quero fazer mal, juro que não, só queria o direito de ler tudo o que gostaria de ler, de poder bebericar página por página e não devorá-las por causa da pressa e do tempo mínimo. Violento a digestão para comer mais e mais e mais... É gula - um vício, um pecado, e é incurável. Por que não posso ir devagar, deixar os olhos bailarem tranquilos, uma ou até duas vezes pelo mesmo salão, sem ter de fazê-los correr quando o relógio marca meia-noite? Fica sempre um sapatinho de cristal esquecido no degrau, uma palavra que escapa, mesmo uma frase que os olhos saltam sem notar. Eu estaria muito mais sossegada se soubesse que o príncipe viria no dia seguinte trazer os trechos desamparados pela afobação... Mas ele não vem. Pobres palav…

Picasso pintaria essa cena?

O garoto maior atirou a pedra e a pedra quase atingiu o garoto menor. Ele estava perto do lago e se enfadou porque o maior tentara acertá-lo de propósito. Pegou a pedra e arremessou de volta. O maior se aborreceu com a vingança e atirou duas na direção do menor. Uma pedra atingiu o garoto menor no pé direito, mas a outra mergulhou no lago e afundou imediatamente, deixando para trás pequenas gotas d’água que saltaram graciosas e retornaram à superfície para se unir aos círculos que bailavam e bamboleavam até desaparecer. Os garotos, fascinados, se puseram diante do lago e com um punhado de pedras transformaram a superfície em inumeráveis círculos, pequenos, médios e grandes, nos quais o sol se refletia com suspiros de fim de tarde, depois de a última bomba ter explodido a poucos metros dali.