10 de fevereiro de 2011

Mamãe, saia de casa

Rio de Janeiro, meados de janeiro de 2011

Querida mamãe,

Como você já deve ter notado, eu parti. Acho que não foi nenhuma surpresa. Muitos filhos estão fazendo isso hoje em dia. Sabe, eles partem quando sentem que não podem mais ficar. Não se preocupe, eu só trouxe na mochila o que era meu de direito. Bem, foi tolice escrever isso. Você sabe que não precisa desconfiar de mim. Eu parti, mamãe, porque já não aguentava mais ter a vida em risco todos os dias. Sabemos o quanto é desesperador... Cada vez que chove, o perigo que isso representa, e ter que tirar todas as coisas do chão, e pedir pra meu Deus pra levar a chuva embora. É angustiante. E aquele morro lá atrás? Um dia ele cai. Como você é teimosa! O cara da prefeitura já passou em casa cem vezes avisando, avisando, mas você insiste em continuar aí, isso é ridículo. Por isso eu vim embora. Porque eu não quero morrer soterrada. Eu também não quero que você morra soterrada, mamãe, mas quem sabe se assim, eu indo embora, você vá também, você largue essa casa. Eu não sei o que eu vou fazer agora, onde é que eu vou morar, como é que vou arranjar comida, mas, pelo menos, não vou ser assassinada pela chuva. Pelo amor de Deus, você parece que não ouve os noticiários! Mais de quinhentos mortos, mamãe! É isso que você quer?! Ser mais um número nessas estatísticas? Eu não! Eu quero ter um futuro, tá?, ter um emprego, uma casa em um lugar seguro onde não entre água até os joelhos quando chove. Morar aí não é vida, é um pouquinho de morte todos os dias, e isso não é justo. Eu tive tantos pesadelos, mamãe, tantos... Em todos nós duas morríamos, sozinhas, afogadas, soterradas, engolindo terra e água e tudo o que vem de lixo... Pense bem! É isso o que te aguarda se você não sair logo daí e vier se encontrar comigo. Eu não sei pra onde estou indo, mas assim que descobrir eu vou te enviar outra carta com o endereço e eu exijo que você venha, entendeu? Deixe as coisas, os móveis, tudo bem, qual o valor deles perto das nossas vidas? Não se atreva a ficar, estou avisando! Mando a polícia te buscar! Eu juro! Vem logo, mamãe, arruma a mala e vem logo, que eu estou te esperando pra gente recomeçar a vida e tudo vai ser bonito de novo com dias de sol e roupas secando no varal.

Com carinho,
sua filhinha que te aguarda

* Neste mesmo dia, um temporal avassalador castigou outra vez a região serrana do Rio de Janeiro, causando enchentes e desbarrancamentos. A autora da carta não teve tempo de escapar. Quando a mãe chegou do trabalho, deparou-se com os bombeiros trabalhando nos destroços do que um dia fora a sua casa. O corpo da filha foi reconhecido, em cujas mãos estava, bem segura, ainda inteira, a carta, que a mãe leu com uma profunda expressão de amargura.