28 de novembro de 2011

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente, que a bombardearam de dentro do camburão, talvez por excesso de peso no veículo, talvez por medo da criatura que chegava a tremelicar de tamanha fragilidade, eram seus olhos os mais opacos da humanidade, os mais tremelicosos, umas pupilas assim que balouçavam dentro da íris gelatinosa, umas pupilas assim que escorregavam de uma esquina a outra dos olhos baços, olhos de embriaguez suja, olhos de água escurecida antes de cair nos esgotos, não eram castanhos, não eram exatamente negros, eram encardidos e amarrotados, olhos aos quais a poeirada vai aderindo, olhos que perderam sua cor original, se é que um dia a tiveram, olhos que perderam a capacidade de reverberar imagens, opaca, a criatura era opaca, era ainda magérrima, sua ossatura marcava a pele, sua pele era ressequida, se confundia com a areia do deserto no qual havia sido abandonada, abandono ou talvez, ou talvez algo parecido com uma segunda chance, quem sabe aonde a levariam, quem sabe, o deserto: uma segunda chance?, se perguntava, se contorcia, amanheceu agora, entardeceu depois, quanta fome, quanta desconfiança, quanta penúria, e o céu se não ficasse tão alaranjado talvez soprasse um ventinho de esperança, só que não, o sol sorria, sorria de fato, lhe mandava flatulências de calor estrídulo, um tal desespero, a criatura sacudia, com aquilo não podia mais, e deitada no chão se fundia à areia, estava amarelada, envelhecia, o sol se punha, baixava numa lentidão macabra, tocava a superfície, e não era a fome de alimento o que sentia a criatura, não era o calor do sol que a inflamava, não era o desespero de dor que a enrijecia: era fome de viver, era o calor de viver, era o desespero, o desespero de viver, de viver. 


21 de agosto de 2011

A metamorfose

Acordou com dores nas costas, estranhou, nunca as tivera, era jovem e a mãe o ensinara a manter a postura, nunca se sentava curvado e deitava segundo as recomendações médicas, tinha uma boa alimentação e praticava esportes, tampouco se lembrava de ter feito movimentos bruscos, então por que raios lhe doíam as costas? Demorou ainda algum tempo para conseguir despertar, era sempre assim, acordava e não despertava, apurava os ouvidos e ouvia o silêncio do quarto, mas agora havia ruídos, pneus, latidos, sirenes, vozes altas, choros de criança - acaso deixara a televisão ligada? Não podia ser, não mantinha tal hábito dispendioso, sequer assistira à televisão na noite anterior, porque trabalhara até tarde, bem tarde, e chegara muito cansado, incapaz de se concentrar em o que quer que fosse. Além das dores nas costas e da confusão auditiva, suas calças estavam úmidas entre as pernas, um forte odor de urina lhe invadiu as narinas, foi quando finalmente tomou coragem para abrir os olhos, três ou quatro prédios lhe preencheram a visão, um avião atravessou o céu, alguém esbarrou em seus pés. Ele se sentou, assustado, arquejante, estava no meio da calçada da principal avenida de seu bairro, um cobertor em farrapos lhe cobria o corpo, um vira-lata lambia um prato vazio bem ao lado da sua cabeça. Não estava mais assustado, mas apavorado, se sentou tão violentamente que o cachorro se afastou, os pedestres que passavam perto o olharam com desdém. Não sabia como fora parar ali, não bebera, aliás, nunca bebera a ponto de tornar-se inconsequente e ir dormir nas ruas, algo estava muitíssimo errado, talvez ainda estivesse dormindo e sonhando – ou, como costumava dizer, “pesadelando”. Deitou a cabeça de volta na calçada e fechou os olhos na esperança de que quando acordasse pra valer estaria em sua cama de colchas creme e lençóis mais brancos que a neve. No entanto, cada vez que abria os olhos continuava lá, no meio da calçada, atrapalhando a passagem e fedendo a urina. Resignado, sentou-se e encolheu-se mais próximo ao muro, olhando para todos os lados sem realmente ver e especulando o que é que teria acontecido para que ele chegasse ali. Era, agora, um autêntico mendigo. Sua própria mãe passou atravessando seu campo de visão sem reconhecê-lo e, tendo gritado para chamá-la, sentiu sua voz completamente distorcida, deformada, parecia não lhe pertencer. A senhora sequer olhou pra trás, virou a esquina e nunca mais se viram. Agora ele era mendigo, e sua mãe não tinha dó nem paciência com mendigos, ia era visitar seu filho, um moço direito, estudado, que se alimentava bem, se sentava ereto e nunca, nunca na vida havia lido Kafka. 


15 de agosto de 2011

Clarice Lispector & Guimarães Rosa

A seguir, meu trabalho final da disciplina Literatura Brasileira II, com a professora Yudith Rosenbaum, no segundo semestre de 2011.

1. Comentário: Guimarães Rosa e Clarice Lispector
2. Análise: A poética de Clarice Lispector em A Hora da Estrela

1. Comentário

Guimarães Rosa,
escritor brasileiro
Guimarães Rosa se relaciona com o contexto histórico-literário de sua época manejando a linguagem regional de forma elaborada e excepcional. O cenário de sua obra é, na maior parte das vezes, o sertão, mas um sertão distinto do que vinha sendo pintado em outros escritos da época (em Graciliano Ramos, por exemplo). O sertão de Guimarães é universal: o jagunço que assinala um determinado momento e uma determinada região é também o homem universal em conflito com o mundo e seus impasses. Daí classificar-se seu regionalismo como universalista. Guimarães, que começou a publicar em meados dos anos trinta, herdou certas conquistas do movimento modernista, tais como a ruptura das estruturas acomodadas e as correntes lingüístico-estéticas muito estritas, além da consolidação de uma consciência crítica nacional, levando em conta um Brasil miscigenado, com raízes e cultura próprias. Absorveu ainda duas tendências literárias e as fundiu em um estilo completamente estilizado. Uma das tendências é a do romance social dos anos 30, do qual o autor extraiu o regionalismo, a literatura voltada para as massas (em Guimarães, as massas sertanejas), marcas do coloquialismo e da oralidade e a presença do sujeito em desordem. Já do romance introspectivo foi sorvida a questão religiosa, tais como o pecado, a graça, a transcendência, o mundo sobrenatural.  

3 de agosto de 2011

E as palavras?

Ele perdeu todas, perdeu como se nunca as tivesse possuído, absolutamente desapareceram dos neurônios antes que lhes chegassem aos dedos, como se sublimassem, em um segundo líquidas, no outro gasosas, intangíveis, porque ele estava no meio da calçada e ali no centro da cidade as palavras se confundem com a fumaça dos caminhões. Mas quanta estupidez, ponderou, como sou parvo, pensar que sou dono das palavras, que possuo as palavras, quando a cada passada elas se me escapam, atravesso a rua e a oração se hiperbata, a palavra do início se desloca para o fim, muitas vezes, de súbito, se elide, não sei se colocara ali um pronome ou um artigo, as linhas dos pensamentos se rompem e as palavras escorregam e se embaralham no meio-fio, quando volto à casa e tenho o papel e a caneta às mãos já não tenho as palavras. As palavras, as palavras – não só palavras mas dísticos, sonetos, poemas, contos, peças, roteiros, romances, super romances, mega romances, escrevo o mundo e diante do branco do papel o mundo evacua. Que passa? Pra onde vão? Diante dessas intricadas questões, explicitadas em segredo ao final da aula de química, o professor, comovido, entretanto sem compreender por que a ele é que o aluno recorreu, recomendou um bloquinho de anotações, que assim as palavras ficam na temperatura ambiente, não vaporizam, fique descansado.


26 de julho de 2011

Medida arbitrária da duração das coisas

Se eu cometesse um crime e fosse para a cadeia talvez tivesse tempo para ler todos os livros que gostaria de ler. O mundo é transviado, o tempo é injusto – eu só queria tempo para ler, para ler, não para arquitetar um crime, cometer um crime, pagar por um crime. Não quero fazer mal, juro que não, só queria o direito de ler tudo o que gostaria de ler, de poder bebericar página por página e não devorá-las por causa da pressa e do tempo mínimo. Violento a digestão para comer mais e mais e mais... É gula - um vício, um pecado, e é incurável. Por que não posso ir devagar, deixar os olhos bailarem tranquilos, uma ou até duas vezes pelo mesmo salão, sem ter de fazê-los correr quando o relógio marca meia-noite? Fica sempre um sapatinho de cristal esquecido no degrau, uma palavra que escapa, mesmo uma frase que os olhos saltam sem notar. Eu estaria muito mais sossegada se soubesse que o príncipe viria no dia seguinte trazer os trechos desamparados pela afobação... Mas ele não vem. Pobres palavras e frases e trechos e capítulos e livros e prateleiras de livros e estantes de livros e bibliotecas de livros que permanecerão indefinidamente virgens dos meus olhos! 


4 de julho de 2011

Picasso pintaria essa cena?

O garoto maior atirou a pedra e a pedra quase atingiu o garoto menor. Ele estava perto do lago e se enfadou porque o maior tentara acertá-lo de propósito. Pegou a pedra e arremessou de volta. O maior se aborreceu com a vingança e atirou duas na direção do menor. Uma pedra atingiu o garoto menor no pé direito, mas a outra mergulhou no lago e afundou imediatamente, deixando para trás pequenas gotas d’água que saltaram graciosas e retornaram à superfície para se unir aos círculos que bailavam e bamboleavam até desaparecer. Os garotos, fascinados, se puseram diante do lago e com um punhado de pedras transformaram a superfície em inumeráveis círculos, pequenos, médios e grandes, nos quais o sol se refletia com suspiros de fim de tarde, depois de a última bomba ter explodido a poucos metros dali.


19 de junho de 2011

Oficina de Fotografia - A cara da América Latina

Fotos da Oficina que fiz ontem no Dia do Espanhol!











"Oficina com o fotógrafo João Correia Filho aborda um dos temas mais complexos e belos da fotografia, o retrato. A partir de conceitos e dicas sobre o assunto, os participantes realizarão o ensaio fotográfico “A CARA DA AMÉRICA LATINA”, no qual farão retratos dos visitantes presentes no Dia do Espanhol. O resultado será apresentado on line no término da oficina, durante o evento.

João Correia Filho é formado em Jornalismo (e pós graduado em Jornalismo Literário) atua como Repórter Fotográfico há 15 anos e desde 2000 realiza oficinas de fotografias em diversas entidades brasileiras. Atualmente trabalha como colaborador de várias revistas e jornais no Brasil e no Exterior, entre elas National Geographic, Entrelivros (especializada em Literatura) Planeta, Horizonte Geográfico, Brasileiros, Revista do Brasil, Jornal Valor Econômico. É autor de Lisboa em Pessoa – guia turístico e literário da capital portuguesa."

15 de junho de 2011



O Instituto Cervantes realiza no dia 18 de junho, em parceria com o Memorial da América Latina, a segunda edição do Dia do SPñol, uma festa para celebrar a presença da cultura hispânica em São Paulo.

O evento terá mais de 100 atividades gratuitas durante 12 horas, das 10h às 22h, entre números musicais, apresentações de dança, oficinas de fotografia e arte urbana, programação infantil, feira de artesanato, instalações artísticas e oficinas de espanhol com professores do Instituto.

O festival do “Dia do Espanhol” é realizado simultaneamente em 78 cidades nos 44 países do mundo onde está presente o Instituto Cervantes. Em São Paulo, a festa será realizada no Memorial da América Latina, símbolo do multiculturalismo de São Paulo e expressão da idéia de união dos povos latino-americanos.

O crescimento da importância da língua espanhola no Brasil – o idioma acaba de ser oficialmente adotado como segunda língua estrangeira no currículo escolar –, torna ainda mais importante a existência de um espaço onde seja possível ter contato com as mais diversas expressões da cultura em espanhol.

Neste espírito, a edição paulistana do evento celebra o idioma como instrumento de comunicação intercultural e comercial, reunindo manifestações artísticas de toda a América Latina, do Brasil e da Espanha.

Em 2010, a festa atraiu mais de oito mil pessoas, entre famílias, educadores, estudantes e apreciadores da cultura ibero-americana.


Saiba mais!

4 de maio de 2011

Manual de pintura e caligrafia

José Saramago


“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes. A mim me parecia, no entanto, que esta esfera se não desprendera e que eu viajava dentro dela. É chegada a altura de ter medo: murmurei estas palavras. Pelo horizonte do meu deserto está a entrar novas pessoas. Estes dois velhos, quem são, que serenidade é que a têm? E o Antonio, preso, que liberdade transportou consigo para a cadeia? E M., que me sorri de longe, pisando a areia com pés de vento, que usa as palavras como se elas fossem lâminas de cristal e que de repente se aproxima e me dá um beijo? É a altura de ter medo, repito. A perfeição existe de passagem. Não para se demorar. ‘Gostei de estar contigo’, disse ela. Aplicadamente, cuidando do desenho da letra, escrevo e torno a escrever estas palavras. Viajo devagar. O tempo é este papel em que escrevo.”


19 de abril de 2011

Uma pequenina luz

Jorge de Sena



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

10 de fevereiro de 2011

Mamãe, saia de casa

Rio de Janeiro, meados de janeiro de 2011

Querida mamãe,

Como você já deve ter notado, eu parti. Acho que não foi nenhuma surpresa. Muitos filhos estão fazendo isso hoje em dia. Sabe, eles partem quando sentem que não podem mais ficar. Não se preocupe, eu só trouxe na mochila o que era meu de direito. Bem, foi tolice escrever isso. Você sabe que não precisa desconfiar de mim. Eu parti, mamãe, porque já não aguentava mais ter a vida em risco todos os dias. Sabemos o quanto é desesperador... Cada vez que chove, o perigo que isso representa, e ter que tirar todas as coisas do chão, e pedir pra meu Deus pra levar a chuva embora. É angustiante. E aquele morro lá atrás? Um dia ele cai. Como você é teimosa! O cara da prefeitura já passou em casa cem vezes avisando, avisando, mas você insiste em continuar aí, isso é ridículo. Por isso eu vim embora. Porque eu não quero morrer soterrada. Eu também não quero que você morra soterrada, mamãe, mas quem sabe se assim, eu indo embora, você vá também, você largue essa casa. Eu não sei o que eu vou fazer agora, onde é que eu vou morar, como é que vou arranjar comida, mas, pelo menos, não vou ser assassinada pela chuva. Pelo amor de Deus, você parece que não ouve os noticiários! Mais de quinhentos mortos, mamãe! É isso que você quer?! Ser mais um número nessas estatísticas? Eu não! Eu quero ter um futuro, tá?, ter um emprego, uma casa em um lugar seguro onde não entre água até os joelhos quando chove. Morar aí não é vida, é um pouquinho de morte todos os dias, e isso não é justo. Eu tive tantos pesadelos, mamãe, tantos... Em todos nós duas morríamos, sozinhas, afogadas, soterradas, engolindo terra e água e tudo o que vem de lixo... Pense bem! É isso o que te aguarda se você não sair logo daí e vier se encontrar comigo. Eu não sei pra onde estou indo, mas assim que descobrir eu vou te enviar outra carta com o endereço e eu exijo que você venha, entendeu? Deixe as coisas, os móveis, tudo bem, qual o valor deles perto das nossas vidas? Não se atreva a ficar, estou avisando! Mando a polícia te buscar! Eu juro! Vem logo, mamãe, arruma a mala e vem logo, que eu estou te esperando pra gente recomeçar a vida e tudo vai ser bonito de novo com dias de sol e roupas secando no varal.

Com carinho,
sua filhinha que te aguarda

* Neste mesmo dia, um temporal avassalador castigou outra vez a região serrana do Rio de Janeiro, causando enchentes e desbarrancamentos. A autora da carta não teve tempo de escapar. Quando a mãe chegou do trabalho, deparou-se com os bombeiros trabalhando nos destroços do que um dia fora a sua casa. O corpo da filha foi reconhecido, em cujas mãos estava, bem segura, ainda inteira, a carta, que a mãe leu com uma profunda expressão de amargura.


29 de janeiro de 2011

Lixo extraordinário - Waste Land


O momento em que uma coisa se transforma
em outra é o momento mais bonito (Vik Muniz)


Elenco: Karen Harley, João Jardim, Lucy Walker
Direção: Vik Munizr
Gênero: Documentário
Duração: 90 min.
Distribuidora: Downtown Filmes
Estreia: 21 de Janeiro de 2011

Sinopse: O documentário tem como pano de fundo o Jardim Gramacho (RJ), maior aterro sanitário da América Latina e relata a trajetória do lixo dispensada no aterro. A relação entre lixo e arte aproxima o universo intelectual à tão diferente realidade das pessoas que colhem o lixo, que acaba virando arte nas mãos do artista plástico Vik Muniz.


22 de janeiro de 2011

As Valsas Invisíveis – Quem o acompanha?


"Basta de conforto
Eu prefiro a corda-bamba.”



“O jovem engenheiro químico Eduardo Dominguez Trindade é solteiro, natural de Porto Alegre e mora no Rio de Janeiro há sete anos, ocasião em que foi admitido na Petrobras. (...) Utiliza como pseudônimo Heterônimo Pessoa, e admira a obra do conterrâneo gaúcho Mario Quintana e o português José Saramago, cuja influência é naturalmente manifestada em suas obras. (...) Aos 30 anos, acredita que a internet, por seu caráter democrático, é uma ferramenta que auxilia bastante na difícil tarefa de inserir novos autores no mercado literário. Mantém um blog sobre literatura (www.edutrintade.com), onde publica principalmente textos literários – poemas, contos e crônicas -, e também algumas fotografias, gravuras e pinturas autorais.”

Edu Trindade é um poeta e escritor que eu tive a sorte de encontrar entre tantos blogs pelos quais já passeei! Eu fico particularmente muito feliz quando me deparo com um talento como ele. Dou todo apoio aos jovens escritores nacionais que, apesar das pedras no caminho, sabem o quanto é mágico, colorido, doce (para usar palavras frequentes nos poemas do Edu) a brincadeira com a literatura.

Foi engraçado. O Edu me enviou dois livros por correio e eu, quando os recebi, fiquei muito mais surpresa e encantada do que imaginava. Até porque eles vieram com dedicatórias maravilhosas que me emocionaram! Eu e o Edu não nos conhecemos pessoalmente. Mas agora, depois de ter lido seus contos e poemas, sinto que o conheço muito bem. E posso afirmar, sem pestanejar, que ele é um grande poeta e exímio apreciador das coisas simples da vida.


“Gosto das coisas mínimas. A grandiosidade pode assustar.”


A pequena biografia acima foi tirada do livro “IX Concurso de Contos Petros – Homenagem à Nélida Piñon”, no qual o autor teve seu conto “Cartola vermelha” publicado. Vejam um trecho:
“ (...) Enquanto ela falava, as nuvens se adensavam, o céu escurecia e diminuía a quantidade de pessoas na rua. Eu sabia que deveria ir para casa, mas estava encantado pelas palavras rápidas e fáceis daquela menina. Volantina Violeta... Ela continuava empolgada, falando do circo, da família, das lembranças... (...) "


Seu livro As Valsas Invisíveis, publicado em 2008 pela editora LivroPonto, é um misto de mais de 100 prosas e poesias. Li-o como se devorasse guloseimas. Escolhi três (de muitos!) que me chamaram a atenção e transcrevo-os para vocês.

Fragmentos na chuva

...E hoje amanheceu chovendo.
Os dedos do sol surgem amarelados
Entre flocos de nuvens cinzentas.
Raios iridescentes se espalham
Na água que cobre a cidade.

Cai uma chuva fininha
Sobre os caminhos e as flores.
Fina como essa melancolia
Das minhas solitárias.

Há uma beleza profunda
Nos poemas mais tristes.
Mas minha inspiração é alegre
E a minha tristeza é somente
Vontade de escrever.

Chove.
E hoje amanheci escrevendo.

(O incrível é que enquanto lia esse poema, estava realmente chovendo, e eu havia realmente acordado com vontade de escrever!)

Ao contrário


Desacordei hoje
Em meio a desacontecidos
E meu destino era
Fazer versos desrimados,
Rimas ao contrário.
Desnudei-me.
Desabotoei a palavra
E a descobri plena,
Plenamente
Despretensiosa.

(Esse foi um dos meus favoritos - tenho xodó por poemas metalinguísticos.)


Pequeno prazer



Pequeno prazer de hoje:
No ônibus, eu voltando para casa,
A senhora sentada à minha frente
Trazia um pequeno buquê multicor.

Viajei com o perfume das flores
E cheguei em casa mais leve,
Embalado pela bruma misteriosa
De tantos sonhos e lembranças.

(Quem presta atenção nos meus textos sabe que muitas vezes eu os ambientalizo dentro de um ônibus, porque ônibus fazem parte da minha rotina e acontece sempre de me surgirem ideias enquanto viajo neles. Quem me dera ter uma senhora à minha frente com um buquê perfumado cada vez que me sento em um ônibus...)
Gostaria de agradecer muitíssimo ao Edu por ter-me enviado os livros e principalmente por compartilhar com o mundo os seus versos e valsas invisíveis. Desejo-lhe muita inspiração, muita produção e que você nos venha presentear com novos livros!





Para ter acesso aos textos do autor, acesse

http://www.edutrindade.com/

Para comprar o livro As Valsas Invisíveis, acesse

http://asvalsasinvisiveis.blogspot.com/2009/10/as-valsas-invisiveis.html

“Menino se fez homem
Mas continua assombrado
Pelo poder das palavras.”

19 de janeiro de 2011

Mal-entendido

Acorda!
A cor do dia chegou
A corda do tempo
Presa ao teu pescoço
Te arrasta

A dor no corpo?
Adorno!

Mas a dor no centro
A dor de dentro
Com ardor
Entorpece

Todo dia
Ser ator
Atormenta?
O ator mente

Seis horas da tarde
O chefe brinca:
Há dor nos olhos?
Adormece!

No metrô
Quilômetros de pensamentos:

“Amor,
E o amor
Amor te doa?
Amor te entrega?”

- A morte assalta
- A morte leva
Responde o marido
Amortecido no colchão