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Mensagens

A mostrar mensagens de 2011

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente

Foi no deserto, de madrugada, que a abandonaram impiedosamente, que a bombardearam de dentro do camburão, talvez por excesso de peso no veículo, talvez por medo da criatura que chegava a tremelicar de tamanha fragilidade, eram seus olhos os mais opacos da humanidade, os mais tremelicosos, umas pupilas assim que balouçavam dentro da íris gelatinosa, umas pupilas assim que escorregavam de uma esquina a outra dos olhos baços, olhos de embriaguez suja, olhos de água escurecida antes de cair nos esgotos, não eram castanhos, não eram exatamente negros, eram encardidos e amarrotados, olhos aos quais a poeirada vai aderindo, olhos que perderam sua cor original, se é que um dia a tiveram, olhos que perderam a capacidade de reverberar imagens, opaca, a criatura era opaca, era ainda magérrima, sua ossatura marcava a pele, sua pele era ressequida, se confundia com a areia do deserto no qual havia sido abandonada, abandono ou talvez, ou talvez algo parecido com uma segunda chance, quem sabe aonde…

Publiquei no Artnativa!

A metamorfose

Acordou com dores nas costas, estranhou, nunca as tivera, era jovem e a mãe o ensinara a manter a postura, nunca se sentava curvado e deitava segundo as recomendações médicas, tinha uma boa alimentação e praticava esportes, tampouco se lembrava de ter feito movimentos bruscos, então por que raios lhe doíam as costas? Demorou ainda algum tempo para conseguir despertar, era sempre assim, acordava e não despertava, apurava os ouvidos e ouvia o silêncio do quarto, mas agora havia ruídos, pneus, latidos, sirenes, vozes altas, choros de criança - acaso deixara a televisão ligada? Não podia ser, não mantinha tal hábito dispendioso, sequer assistira à televisão na noite anterior, porque trabalhara até tarde, bem tarde, e chegara muito cansado, incapaz de se concentrar em o que quer que fosse. Além das dores nas costas e da confusão auditiva, suas calças estavam úmidas entre as pernas, um forte odor de urina lhe invadiu as narinas, foi quando finalmente tomou coragem para abrir os olhos, três …

Clarice Lispector & Guimarães Rosa

A seguir, meu trabalho final da disciplina Literatura Brasileira II, com a professora Yudith Rosenbaum, no segundo semestre de 2011.
1. Comentário: Guimarães Rosa e Clarice Lispector 2. Análise: A poética de Clarice Lispector em A Hora da Estrela
1. Comentário
Guimarães Rosa se relaciona com o contexto histórico-literário de sua época manejando a linguagem regional de forma elaborada e excepcional. O cenário de sua obra é, na maior parte das vezes, o sertão, mas um sertão distinto do que vinha sendo pintado em outros escritos da época (em Graciliano Ramos, por exemplo). O sertão de Guimarães é universal: o jagunço que assinala um determinado momento e uma determinada região é também o homem universal em conflito com o mundo e seus impasses. Daí classificar-se seu regionalismo como universalista. Guimarães, que começou a publicar em meados dos anos trinta, herdou certas conquistas do movimento modernista, tais como a ruptura das estruturas acomodadas e as correntes lingüístico-estéticas mu…

E as palavras?

Ele perdeu todas, perdeu como se nunca as tivesse possuído, absolutamente desapareceram dos neurônios antes que lhes chegassem aos dedos, como se sublimassem, em um segundo líquidas, no outro gasosas, intangíveis, porque ele estava no meio da calçada e ali no centro da cidade as palavras se confundem com a fumaça dos caminhões. Mas quanta estupidez, ponderou, como sou parvo, pensar que sou dono das palavras, que possuo as palavras, quando a cada passada elas se me escapam, atravesso a rua e a oração se hiperbata, a palavra do início se desloca para o fim, muitas vezes, de súbito, se elide, não sei se colocara ali um pronome ou um artigo, as linhas dos pensamentos se rompem e as palavras escorregam e se embaralham no meio-fio, quando volto à casa e tenho o papel e a caneta às mãos já não tenho as palavras. As palavras, as palavras – não só palavras mas dísticos, sonetos, poemas, contos, peças, roteiros, romances, super romances, mega romances, escrevo o mundo e diante do branco do pape…

Medida arbitrária da duração das coisas

Se eu cometesse um crime e fosse para a cadeia talvez tivesse tempo para ler todos os livros que gostaria de ler. O mundo é transviado, o tempo é injusto – eu só queria tempo para ler, para ler, não para arquitetar um crime, cometer um crime, pagar por um crime. Não quero fazer mal, juro que não, só queria o direito de ler tudo o que gostaria de ler, de poder bebericar página por página e não devorá-las por causa da pressa e do tempo mínimo. Violento a digestão para comer mais e mais e mais... É gula - um vício, um pecado, e é incurável. Por que não posso ir devagar, deixar os olhos bailarem tranquilos, uma ou até duas vezes pelo mesmo salão, sem ter de fazê-los correr quando o relógio marca meia-noite? Fica sempre um sapatinho de cristal esquecido no degrau, uma palavra que escapa, mesmo uma frase que os olhos saltam sem notar. Eu estaria muito mais sossegada se soubesse que o príncipe viria no dia seguinte trazer os trechos desamparados pela afobação... Mas ele não vem. Pobres palav…

Picasso pintaria essa cena?

O garoto maior atirou a pedra e a pedra quase atingiu o garoto menor. Ele estava perto do lago e se enfadou porque o maior tentara acertá-lo de propósito. Pegou a pedra e arremessou de volta. O maior se aborreceu com a vingança e atirou duas na direção do menor. Uma pedra atingiu o garoto menor no pé direito, mas a outra mergulhou no lago e afundou imediatamente, deixando para trás pequenas gotas d’água que saltaram graciosas e retornaram à superfície para se unir aos círculos que bailavam e bamboleavam até desaparecer. Os garotos, fascinados, se puseram diante do lago e com um punhado de pedras transformaram a superfície em inumeráveis círculos, pequenos, médios e grandes, nos quais o sol se refletia com suspiros de fim de tarde, depois de a última bomba ter explodido a poucos metros dali.


Oficina de Fotografia - A cara da América Latina

Fotos da Oficina que fiz ontem no Dia do Espanhol!











"Oficina com o fotógrafo João Correia Filho aborda um dos temas mais complexos e belos da fotografia, o retrato. A partir de conceitos e dicas sobre o assunto, os participantes realizarão o ensaio fotográfico “A CARA DA AMÉRICA LATINA”, no qual farão retratos dos visitantes presentes no Dia do Espanhol. O resultado será apresentado on line no término da oficina, durante o evento.

João Correia Filho é formado em Jornalismo (e pós graduado em Jornalismo Literário) atua como Repórter Fotográfico há 15 anos e desde 2000 realiza oficinas de fotografias em diversas entidades brasileiras. Atualmente trabalha como colaborador de várias revistas e jornais no Brasil e no Exterior, entre elas National Geographic, Entrelivros (especializada em Literatura) Planeta, Horizonte Geográfico, Brasileiros, Revista do Brasil, Jornal Valor Econômico. É autor de Lisboa em Pessoa – guia turístico e literário da capital portuguesa."
O Instituto Cervantes realiza no dia 18 de junho, em parceria com o Memorial da América Latina, a segunda edição do Dia do SPñol, uma festa para celebrar a presença da cultura hispânica em São Paulo.

O evento terá mais de 100 atividades gratuitas durante 12 horas, das 10h às 22h, entre números musicais, apresentações de dança, oficinas de fotografia e arte urbana, programação infantil, feira de artesanato, instalações artísticas e oficinas de espanhol com professores do Instituto.

O festival do “Dia do Espanhol” é realizado simultaneamente em 78 cidades nos 44 países do mundo onde está presente o Instituto Cervantes. Em São Paulo, a festa será realizada no Memorial da América Latina, símbolo do multiculturalismo de São Paulo e expressão da idéia de união dos povos latino-americanos.

O crescimento da importância da língua espanhola no Brasil – o idioma acaba de ser oficialmente adotado como segunda língua estrangeira no currículo escolar –, torna ainda mais importante a existência de …

Manual de pintura e caligrafia

José Saramago

“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes. A mim me parecia, no entanto, que esta esfera se não desprendera e que eu viajava dentro dela. É chegada a altura de ter medo: murmurei estas palavras. Pelo horizonte do meu deserto está a entrar novas pessoas. Estes dois velhos, quem são, que serenidade é que a têm? E o Antonio, preso, que liberdade transportou consigo para a cadeia? E M., que me sorri de longe, pisando a areia com pés de vento, que usa as palavras como se elas fossem lâminas de cristal e que de repente se aproxima e me dá um beijo? É a altura de ter medo, repito. A perfeição existe de passagem. Não para se demorar. ‘Gostei de estar contigo’, disse ela. Aplicadamente, cuidando do desenho da letra, escrevo e to…

Uma pequenina luz

Jorge de Sena


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento …

Lixo extraordinário - Waste Land

O momento em que uma coisa se transforma em outra é o momento mais bonito (Vik Muniz)

Elenco: Karen Harley, João Jardim, Lucy Walker
Direção: Vik Munizr
Gênero: Documentário
Duração: 90 min.
Distribuidora: Downtown Filmes
Estreia: 21 de Janeiro de 2011
Sinopse: O documentário tem como pano de fundo o Jardim Gramacho (RJ), maior aterro sanitário da América Latina e relata a trajetória do lixo dispensada no aterro. A relação entre lixo e arte aproxima o universo intelectual à tão diferente realidade das pessoas que colhem o lixo, que acaba virando arte nas mãos do artista plástico Vik Muniz.


Fonte

As Valsas Invisíveis – Quem o acompanha?

"Basta de conforto
Eu prefiro a corda-bamba.”



“O jovem engenheiro químico Eduardo Dominguez Trindade é solteiro, natural de Porto Alegre e mora no Rio de Janeiro há sete anos, ocasião em que foi admitido na Petrobras. (...) Utiliza como pseudônimo Heterônimo Pessoa, e admira a obra do conterrâneo gaúcho Mario Quintana e o português José Saramago, cuja influência é naturalmente manifestada em suas obras. (...) Aos 30 anos, acredita que a internet, por seu caráter democrático, é uma ferramenta que auxilia bastante na difícil tarefa de inserir novos autores no mercado literário. Mantém um blog sobre literatura (www.edutrintade.com), onde publica principalmente textos literários – poemas, contos e crônicas -, e também algumas fotografias, gravuras e pinturas autorais.”

Edu Trindade é um poeta e escritor que eu tive a sorte de encontrar entre tantos blogs pelos quais já passeei! Eu fico particularmente muito feliz quando me deparo com um talento como ele. Dou todo apoio aos jovens escr…