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Para quem saiu e fechou a porta,

Se você saiu e fechou a porta, não sou eu que vou me levantar para abri-la quando você decidir voltar. Entenda que estou muito bem arranjada no meu colchão, tenho a minha cabeça agasalhada no travesseiro macio, a tênue linha de luzes da cidade que entra pela janela dá gosto de ver. O sono é confortável e a cortina de seda dança ao meu lado para me ninar, impulsionada pela frágil brisa que me visita com frequência nessas noites de primavera. Tudo está em seu devido lugar: fiz uma faxina recentemente, minhas camisas estão passadas e dobradas na gaveta como se tivessem sido atropeladas por um rolo compressor, os casacos organizados lado a lado em seus respectivos cabides, meus sapatos e sandálias proporcionalmente empilhados no cesto de vime. Ah, e as roupas antigas foram doadas. Nas estantes, os livros enfileirados por ordem alfabética e os CDs, por ordem de preferência. O rádio portátil fica em cima do criado-mudo tocando músicas suaves no volume ideal. Há no chão um copo de água sem gelo, caso eu sinta sede, e o controle remoto da TV, caso eu perca o sono e queira assistir à uma comédia romântica cujo final saberei desde a primeira cena.

Mas eu não vou perder o sono, de certo que não vou. Já bocejei três vezes consecutivas de forma quase voluptuosa: a sonolência me seduz lentamente. Quando alcançá-la, não estarei mais aqui, você entende? No mesmo mundo em que você está. Estarei no reino dos sonhos. E a porta do meu quarto, fechada, mortalmente fechada.


De quem não terá o trabalho de abrir a porta.