22 de novembro de 2010

Muros multicoloridos

Os muros multicoloridos passam pelos olhos multifacetados dos homens
Nos ônibus, peitos incham em sonhos mutilados
Um homem morde um lanche murcho
Outro homem discute ao celular
Discute os protocolos e pergunta o caminho do cartório ao cobrador
A moça discute, dentro do seu corpo de moça,
Com seu espírito já meio embolorado
Outra moça fita, ambiciosa, as pernas dos passageiros
- Quem dera pudesse pousar o traseiro no banco
Repousar a cabeça na janela
E alçar vôo no sono atrasado

Os muros multicoloridos correm pelos olhos multifacetados dos homens
Mensagens anônimas se propagam com erros ortográficos
Pelos quais o ônibus passa sem se ater à semântica
Pneus tropeçam nas lombadas
Pés tropeçam e pisam calos e unhas encravadas
A catraca gira, corpos atravessam o corredor, aos montes
Não atravessam a si mesmos
Porque não há bilhete único para dentro de si
- Quem dera pudessem se transportar
Para onde os sonhos ainda fulguram
Longe das moléstias urbanas

Os muros multicoloridos somem dos olhos multifacetados dos homens
Dentro dos túneis, ecos e luzes e buzinas
O homem mastiga o último pedaço do lanche
A rotina devora o último fragmento de energia dos passageiros
A senhora se acomoda no assento preferencial
A angústia não tem preferência

Os muros multicoloridos
Refletidos em olhos multifacetados
O motorista dirige o coletivo
E os indivíduos
Muito mal dirigindo suas vidas
Voltam para casa
Monossilábicos


1 de novembro de 2010

Para quem saiu e fechou a porta,

Se você saiu e fechou a porta, não sou eu que vou me levantar para abri-la quando você decidir voltar. Entenda que estou muito bem arranjada no meu colchão, tenho a minha cabeça agasalhada no travesseiro macio, a tênue linha de luzes da cidade que entra pela janela dá gosto de ver. O sono é confortável e a cortina de seda dança ao meu lado para me ninar, impulsionada pela frágil brisa que me visita com frequência nessas noites de primavera. Tudo está em seu devido lugar: fiz uma faxina recentemente, minhas camisas estão passadas e dobradas na gaveta como se tivessem sido atropeladas por um rolo compressor, os casacos organizados lado a lado em seus respectivos cabides, meus sapatos e sandálias proporcionalmente empilhados no cesto de vime. Ah, e as roupas antigas foram doadas. Nas estantes, os livros enfileirados por ordem alfabética e os CDs, por ordem de preferência. O rádio portátil fica em cima do criado-mudo tocando músicas suaves no volume ideal. Há no chão um copo de água sem gelo, caso eu sinta sede, e o controle remoto da TV, caso eu perca o sono e queira assistir à uma comédia romântica cujo final saberei desde a primeira cena.

Mas eu não vou perder o sono, de certo que não vou. Já bocejei três vezes consecutivas de forma quase voluptuosa: a sonolência me seduz lentamente. Quando alcançá-la, não estarei mais aqui, você entende? No mesmo mundo em que você está. Estarei no reino dos sonhos. E a porta do meu quarto, fechada, mortalmente fechada.


De quem não terá o trabalho de abrir a porta.