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Sem pausa para o lanche

( A pequena prosa a seguir intertextualiza com a escrita por Guilherme Palley, aqui )

Fiquei sabendo como é andar nas entrelinhas e cair no meio do parágrafo, mas procurei aguçar a visão e enxugar os dedos para que o próximo passo pudesse ser dado. Eu devia subir de volta, me agarrei à virgula: nada de ponto final. Não queria me perder, apenas continuar com os meus versos, sem me exceder, podendo, assim, permanecer nas entrelinhas. É preciso ter cuidado, é preciso ter manejo, uma palavra e eu me denunciaria: uma palavra e a tragédia estaria consumada. É certo que sinto o arrebatamento, sinto os murros, eu estou sempre nesse estado de oscilação, para a esquerda, para a direita, me equilibrando na linha reta, mas você sabe: não tenho régua e às vezes o verso fica torto pra valer.

Subsisto nas entrelinhas mesmo, muitas palavras são indizíveis, o próprio conceito de belo é indizível. Então, por instantes, desisto de despejar as palavras e deixo que jorre o silêncio, aquele silêncio que é por si um poema inteiro, que é por si uma síntese de tudo o que foi, o que é e o que ainda será. Não é preciso estar só, ou diante do precipício, para que me venha o delírio, avassalador, amarrando meu corpo na curva das letras nunca escritas. Não choro, apenas sinto, sinto o calor que vem desse papel amarelado sem alma, mas que quer tê-la, que quer viver, que quer pulsar, e que, vazio de letras e versos e entrelinhas, diz tudo o que é capaz de dizer um coração que ama. ®