21 de outubro de 2010

Sem pausa para o lanche

( A pequena prosa a seguir intertextualiza com a escrita por Guilherme Palley, aqui )

Fiquei sabendo como é andar nas entrelinhas e cair no meio do parágrafo, mas procurei aguçar a visão e enxugar os dedos para que o próximo passo pudesse ser dado. Eu devia subir de volta, me agarrei à virgula: nada de ponto final. Não queria me perder, apenas continuar com os meus versos, sem me exceder, podendo, assim, permanecer nas entrelinhas. É preciso ter cuidado, é preciso ter manejo, uma palavra e eu me denunciaria: uma palavra e a tragédia estaria consumada. É certo que sinto o arrebatamento, sinto os murros, eu estou sempre nesse estado de oscilação, para a esquerda, para a direita, me equilibrando na linha reta, mas você sabe: não tenho régua e às vezes o verso fica torto pra valer.

Subsisto nas entrelinhas mesmo, muitas palavras são indizíveis, o próprio conceito de belo é indizível. Então, por instantes, desisto de despejar as palavras e deixo que jorre o silêncio, aquele silêncio que é por si um poema inteiro, que é por si uma síntese de tudo o que foi, o que é e o que ainda será. Não é preciso estar só, ou diante do precipício, para que me venha o delírio, avassalador, amarrando meu corpo na curva das letras nunca escritas. Não choro, apenas sinto, sinto o calor que vem desse papel amarelado sem alma, mas que quer tê-la, que quer viver, que quer pulsar, e que, vazio de letras e versos e entrelinhas, diz tudo o que é capaz de dizer um coração que ama. ®


7 de outubro de 2010

Manoel de Barros - Entrevista #1

CONVERSAS POR ESCRITO
(Entrevistas: 1970 - 1989)

1. SOBREVIVER PELA PALAVRA

a José Otávio Guizzo
Revista Grifo, Campo Grande, MS.

P. Como é que começou a fazer poesia; que elementos influenciaram a sua formação poética?

R. Acho que foi a minha inaptidão para o diálogo que gerou o poeta. Sujeito complicado, se vou falar, uma coisa me bloqueia, me inibe, e eu corto a conversa no meio, como quem é pego defecando e o faz pela metade. Do que eu poderia dizer, resta sempre um déficit de oitenta por cento. E os vinte por cento que consigo falar, não correspondem senão ao que eu não gostaria de ter dito - o que me deixa um saldo mortal de angústia. Mesmo desde guri, no colégio, descobri essa barreira em mim, que não posso vencer. Sou um bom escutador e um vedor melhor. Mas só trancado e sozinho é que consigo me expressar. Assim mesmo sem linearidade, por trancos, por sugestões, ambíguo - como requer a poesia.
Sobre elementos que influenciaram a minha formação, agora essa inaptidão para o diálogo, talvez um sentimento dentro de mim do fragmentário, laços rompidos, o esboroo da crença ainda na adolescência, saudade de Deus e de casa, ancestralidade bugra, nostalgia da selva, sei lá. Necessidade de reunir esses pedaços decerto fez de mim um poeta. A incapacidade de agir também me mutila. Sou pela metade sempre, ou menos da metade. A outra metade tenho que desforrar nas palavras. Ficar montando, em versos, pedacinhos de mim, ressentidos, caídos por aí, para que tudo afinal não se disperse. Um esforço para ficar inteiro é que é essa atividade poética. Minha poesia é hoje e foi sempre uma catação de eus perdidos e ofendidos. Sinto quase orgasmo nessa tarefa de refazer-me. Pegar certas palavras já muito usadas, como as velhas prostitutas, decaídas, sujas de sangue e esterco - pegar essas palavras e arrumá-las num poema, de forma que adquiram nova virgindade. Salvá-las, assim, da morte por clichê. Não tenho outro gosto maior do que descobrir para algumas palavras relações dessuetas e até anômalas.

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