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Todo mundo já pousou na janela.

Apoiou a palma das mãos no parapeito, arremessou as pupilas pequeninas ao largo céu onde elas se perderam com encanto ou aflição. Todo mundo já recostou a cabeça no vidro do ônibus, do metrô, do carro e fechou com cuidado as pálpebras só para sentir os cílios oscilando nas maçãs do rosto. Todo mundo já correu para flagrar o beija-flor que fazia espetáculo do lado de fora e lamentou ao ver o passarinho, sem mais nem menos, voar para longe e desaparecer em questão de segundos. Todo mundo já espiou devagar as redondas gotinhas de chuva que gracejam na superfície do vidro ou os raios de sol que desfilam sem pudor pela sala em um dia distinto de verão. Mas, quando se trata da vida, prefiro abandonar a janela, mesmo que custe muita audácia, e sair pela porta renunciando ao papel de espectadora. Todo mundo precisa ser visto do lado de fora por um outro alguém pousado na janela. E fazer tudo o quanto é possível enquanto se está fora de casa com o mundo ao alcance das mãos.



# Ilustração da Luyse