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Tem um cílio na sua bochecha

A Lua hoje sorria incrustada no absoluto breu do céu. Lua crescente, sorriso sem olhos que se erguia acima de um prédio cujas janelinhas brilhavam quase todas. Se o céu estava desligado, as luzes da cidade não o deixavam descansar, assim como a Lua, imaculadamente jovial, com seu sorriso incansável que pendia a esmo. Sei que ela sorria para mim enquanto eu subia as escadas a mirá-la. Retribui, porque é assim que se faz. Nos aglomerados urbanos, os outros afastam os olhares, escondem as pupilas no chão, forçam nos lábios o desenho de uma indiferença afetada. Não se quer olhar, não costumam sorrir. Trocam insultos no trânsito, trocam empurrões nas calçadas, trocam dinheiro e mercadoria nos supermercados e os sorrisos? Esses ficam guardados no avesso do corpo esperando um nobre motivo para serem ensaiados nos lábios. A Lua não, entende? A Lua já estava ali sorrindo com graça no escuro me esperando chegar em casa. Subi as escadas, atravessei o pátio, tomei o elevador. Em meu quarto, abri a janela e a Lua ainda me sorria, talvez um pouco mais deslocada para a esquerda. Não sei em que ponto da história o sorriso gratuito perdeu o seu espaço, se é que um dia o teve. E a Lua ali era tão confortável que por instantes soube que não precisava de outra companhia. Há mesmo certas coisas no mundo tão extraordinárias por si mesmas que de repente alguém poderia até suprimir toda a humanidade e deixar só aquele bichano rolando no chão, agarrando um novelo de lã, aquela bolha de sabão que se pinta com as cores do arco-íris e flutua como se valsasse no ar, aquele dente-de-leite branquinho que mãe guardou de recordação em uma caixa de madeira no fundo do armário. Em verdade o viver é tão fabuloso, tão excepcional que não cabe em si, de modo que seus excessos recaem sobre nós em forma de inquietação. Mas é só a Lua sorrir para mim, ou uma borboleta pousar ao lado dos meus pés, ou as folhas secas e amareladas dançarem em círculos no gramado como em um ritual, ou mesmo uma palavra aconchegante rebentar de uma boca inesperada - tudo isso pode, em partes, me acalmar. Pois a beleza, me responda, carece de ser sublime? No meu peito lateja um coração apaixonado pelo ínfimo, sim, apaixonado por esse cílio perdido bem no meio da sua bochecha rosada - sem brincadeira, me causa um alvoroço sem limites! Desconfio que seja por isso que a Lua está sorrindo tanto essa noite. Porque, olha só... Tem um cílio na sua bochecha.