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O subterfúgio

Tentei explicar à minha mãe, sem apelar à subjetividade, porque é que virou moda meter fones nos ouvidos durante viagens de ônibus e metrôs. Se você quer pedir informação, acaba acidentalmente escolhendo (a dedo) o rapazinho na janela, de olhos perdidos na calçada do lado de fora, ouvindo músicas que você talvez nunca descubra quais são (você pensa, talvez seja melhor continuar não sabendo), e que, sentindo-se tremendamente incomodado com a interrupção, lhe responderá de má vontade.
Procurei dizer à minha mãe que o cotidiano é feito de mesmice, que as paisagens se repetem, que as pessoas têm um certo mal-estar social, essas coisas, e que ouvir música rompe, mesmo que por instantes, com a insatisfação de viver sempre do mesmo modo, chacoalhando bruscamente no ônibus, cambaleando no metrô e trombando nos outros pelas passarelas.
Mas, se antes de dizer isso à ela, eu tivesse podido responder por escrito, eu teria dito mais.
Veja bem, teria dito que a melodia paralela ao movimento esboça uma sensação de liberdade, a imaginação se desprende, atravessa a catraca, os trilhos e voa longe, e se, por alguns instantes, você fechar os olhos, sentindo as oscilações do ônibus ou do metrô e se concentrando com ardor nas notas, você poderá sentir que está flutuando junto à sua imaginação, e que de braços dados vocês percorrem a cidade do alto, bem do alto, acima dos prédios e tudo o mais. Eu teria dito que a melodia se torna a própria trilha sonora da vida, que os ritmos se adaptam perfeitamente ao vai-e-vem dos carros na rua ou dos pedestres nas faixas enquanto as luzes dos semáforos se alternam incansavelmente e a música vai ressoando dentro de você, acendendo-o também, convidando-o a bailar dentro de si, apertando as mãos da alma enquanto se dança por todo o salão do corpo. O físico e o imaterial se fundem em uma só existência que é feita de movimento e som, indissolúveis, o céu parece ter caído sobre você para então erguê-lo como que em um tapete mágico que o leva para fora de si, muito bem: agora você abandona seu corpo e o baile e é levado outra vez, ah, não há como escapar, é a música quem leva você, é a música quem ouve você e o movimento do ônibus continua, o metrô corre seus trilhos, motoristas e maquinistas conduzem seus transportes coletivos e a rotina se impõe dia após dia: não há como escapar, a não ser através do som e do movimento.
Está certo.
Taí o que eu teria dito à minha mãe.