24 de setembro de 2010

Um ensaio quase lírico

Mais um gole de vinho? Segure firme o seu copo. Pronto, agora sim. Me acompanhe até a sacada, fazendo favor, quero lhe dar uma palavrinha. Como você pode ver, a chuva vem desmaiando por cima dos telhados frágeis da cidade. Em seguida, escorre desesperada pelas paredes pichadas e cobertas de fendas; é abrigada pelo asfalto, onde se põe horizontal e oscilante a deslizar até o meio-fio. O seu inevitável destino são os bueiros, onde se esconde, tremediça e ruidosa, e sobrevive por mais uns dias até evaporar, se esgotar e inexistir. Por que estou lhe contando isso? Ora, você não percebe? Assim vivemos todos nós, meu caro, a nos meter nos esgotos do corpo, ali onde tudo é torpe e imoral. Sim, evidentemente, há vezes em que o bueiro entope e regurgita a chuva embalada pelo lixo e a escória urbana - com o perdão da analogia. Sei que daqui de cima a visão é fascinante, as nuvens bamboleando pelo céu e as milhões de luzes vomitadas pelas janelas de casas e apartamentos onde famílias se amam e se repudiam e jantam agora assistindo ao jornal na televisão. Sei que aqui você se sente capaz de envolver o mundo e pensa que a cidade te acolhe como a um filho, quando na realidade nem se lembra que você à ela pertence. Não, não lembra, o que você está achando? Que com suas tintas e seus pincéis de cerdas raras, que com seus cadernos e seus versos embaraçados, que com seu violão e sua melodia desafinada... Ora, tenha dó! Está achando que por seus olhos demasiado sensíveis e sua arte desajustada a cidade vai-lhe dar algum mérito? Você ainda tem muito o que aprender. O quê? Sim, eu sei, você já tem aí os seus fios de cabelo brancos e a calvície a lhe atentar a estética, e eu que posso afirmar das coisas da vida? Só quero, meu caro, alertar-lhe sobre o que tenho visto, esses artistas vivendo à margem da razão, sempre no limite da esperança, uns teimando ainda que no anonimato, outros corrompidos pela fama, está entendendo? Tudo bem, a poesia, sei o que está querendo dizer, mas temo pela sua sanidade, que muitas dessas figuras acabam no esgoto como a chuva, evaporam, se esgotam e inexistem sem que se tenha notícia. Não quer virar notícia? Entendo. Sua sobrevivência? Mas, meu caro, não é a arte que te sustenta, sabe muito bem que pode um dia ainda passar fome por alimentar além da conta a ideia imprudente de ser um artista e... Como? Fernando Pessoa? Ah, sim, sim, compreendo... "Confissão de que a vida não basta". Muito bem, você está certo. Quem sou eu para discordar de um artista, hein? Vamos, tome mais um gole de vinho, vamos brindar. Aos artistas? Não abuse da minha boa vontade, ora essa! Brindemos à chuva, à chuva e à sua lenta morte nos esgotos, pode ser assim?


17 de setembro de 2010

Tem um cílio na sua bochecha

A Lua hoje sorria incrustada no absoluto breu do céu. Lua crescente, sorriso sem olhos que se erguia acima de um prédio cujas janelinhas brilhavam quase todas. Se o céu estava desligado, as luzes da cidade não o deixavam descansar, assim como a Lua, imaculadamente jovial, com seu sorriso incansável que pendia a esmo. Sei que ela sorria para mim enquanto eu subia as escadas a mirá-la. Retribui, porque é assim que se faz. Nos aglomerados urbanos, os outros afastam os olhares, escondem as pupilas no chão, forçam nos lábios o desenho de uma indiferença afetada. Não se quer olhar, não costumam sorrir. Trocam insultos no trânsito, trocam empurrões nas calçadas, trocam dinheiro e mercadoria nos supermercados e os sorrisos? Esses ficam guardados no avesso do corpo esperando um nobre motivo para serem ensaiados nos lábios. A Lua não, entende? A Lua já estava ali sorrindo com graça no escuro me esperando chegar em casa. Subi as escadas, atravessei o pátio, tomei o elevador. Em meu quarto, abri a janela e a Lua ainda me sorria, talvez um pouco mais deslocada para a esquerda. Não sei em que ponto da história o sorriso gratuito perdeu o seu espaço, se é que um dia o teve. E a Lua ali era tão confortável que por instantes soube que não precisava de outra companhia. Há mesmo certas coisas no mundo tão extraordinárias por si mesmas que de repente alguém poderia até suprimir toda a humanidade e deixar só aquele bichano rolando no chão, agarrando um novelo de lã, aquela bolha de sabão que se pinta com as cores do arco-íris e flutua como se valsasse no ar, aquele dente-de-leite branquinho que mãe guardou de recordação em uma caixa de madeira no fundo do armário. Em verdade o viver é tão fabuloso, tão excepcional que não cabe em si, de modo que seus excessos recaem sobre nós em forma de inquietação. Mas é só a Lua sorrir para mim, ou uma borboleta pousar ao lado dos meus pés, ou as folhas secas e amareladas dançarem em círculos no gramado como em um ritual, ou mesmo uma palavra aconchegante rebentar de uma boca inesperada - tudo isso pode, em partes, me acalmar. Pois a beleza, me responda, carece de ser sublime? No meu peito lateja um coração apaixonado pelo ínfimo, sim, apaixonado por esse cílio perdido bem no meio da sua bochecha rosada - sem brincadeira, me causa um alvoroço sem limites! Desconfio que seja por isso que a Lua está sorrindo tanto essa noite. Porque, olha só... Tem um cílio na sua bochecha.


12 de setembro de 2010

Todo mundo já pousou na janela.

Apoiou a palma das mãos no parapeito, arremessou as pupilas pequeninas ao largo céu onde elas se perderam com encanto ou aflição. Todo mundo já recostou a cabeça no vidro do ônibus, do metrô, do carro e fechou com cuidado as pálpebras só para sentir os cílios oscilando nas maçãs do rosto. Todo mundo já correu para flagrar o beija-flor que fazia espetáculo do lado de fora e lamentou ao ver o passarinho, sem mais nem menos, voar para longe e desaparecer em questão de segundos. Todo mundo já espiou devagar as redondas gotinhas de chuva que gracejam na superfície do vidro ou os raios de sol que desfilam sem pudor pela sala em um dia distinto de verão. Mas, quando se trata da vida, prefiro abandonar a janela, mesmo que custe muita audácia, e sair pela porta renunciando ao papel de espectadora. Todo mundo precisa ser visto do lado de fora por um outro alguém pousado na janela. E fazer tudo o quanto é possível enquanto se está fora de casa com o mundo ao alcance das mãos.



# Ilustração da Luyse

9 de setembro de 2010

Quem dera ser como as pipas que eu via sacolejar no céu mesmo quando tínhamos mau tempo e chovia.

Nos fins das tardes cinzentas e perigosas eu costumava ficar feito estátua diante da janela da casa da vó. Cobria-me de paz e silêncio e contemplava os trovões - insuficientes para intimidar uma ou outra pipa que sapateava entre as gotas precipitadas. Era de admirar que aqueles losangos coloridos feitos de papel sobrevivessem mais do que cinco minutos debaixo dos grandes temporais a que eu assistia com interesse; mas lá estavam elas, sacolejando daquela maneira peculiar e característica das pipas. Admito que não entendo muito de pipas, de modo geral são feitas para a diversão dos garotos e ninguém nunca me ensinou a empiná-las. Mas de uma coisa eu sempre soube: elas voam alto, bem alto, sem medo... Perto das nuvens carregadas, perto do sol reluzente, talvez até perto do limite do mundo!





# ilustração da Luyse

8 de setembro de 2010

Alguns tópicos da Poética de Aristóteles

1.
Epopeia, tragédia e ditirambo são imitações com o ritmo, a linguagem e a harmonia, usando este elementos separada ou conjuntamente.

2.
A epopeia é a arte que recorre ao simples verbo.

3.
Poesias há que usam de todos os meios sobreditos, isto é, ritmo, canto e metro, como a poesia dos ditirambos e dos nomos.

6 de setembro de 2010

Uma dose de silêncio antes de sumir

Tomaram uma dose de silêncio antes de iniciarem a conversa. Ele abriu a garrafa de vidro, serviu os dois. Brindaram sem se olharem, beberam sem que o ato de engolir produzisse um ruído sequer. O silêncio dele era, de algum modo, letal. Ela sabia que morreria em poucos minutos. E precisava dizer. Mas a bebida fazia sua garganta queimar, não conseguia soltar a palavra. Ele não lhe dirigia o olhar nem se aproximava, temendo parecer que estivesse fazendo pressão. Ela observava o nada, sem saber que ele também. Pegou a garrafa, encheu o copo, bebeu devagar. Agora é que ela não falaria mesmo. Ele a olhou com certo desespero. Quis pedir que ela dissesse logo, antes que fosse tarde. Mas ela tomou até o último gole. Quis abraçá-lo para se despedir, mas ele a recusou. Queria apenas as suas palavras. Na verdade, chegou até a empurrá-la de leve, com um pouco de grosseria. Arrependeu-se de ter trazido o silêncio. Agora ela desaparecia aos poucos antes de ter falado. Os olhos dos dois jamais se interceptavam, era ilícito. Ele, por sua vez, foi sendo tomado por um alívio que não sabia explicar. Seria melhor assim, ela longe, ela inexistente. Afinal, não significava nada sem as suas palavras. Sua matéria não importava, essa era a verdade. Foi a primeira vez que pensou lucidamente sobre isso. Não a queria, só pensava em suas palavras. E que importava se estava sumindo sem ter se despedido? Suas palavras seriam eternas, e ele as tomaria para si.




" (...) e nesse instante o rumor da vida, como se o tivesse convocado a sua voz, ou apenas entrando de repente por uma porta que alguém de par em par abrisse sem pensar muito nas consequências, ocupou o espaço que antes pertencera ao silêncio, deixando-lhe apenas pequenos territórios ocasionais, mínimas superfícies, como aqueles breves charcos que as florestas murmurantes rodeiam e ocultam. " (José Saramago, em O Evangelho segundo Jesus Cristo)

5 de setembro de 2010

O subterfúgio

Tentei explicar à minha mãe, sem apelar à subjetividade, porque é que virou moda meter fones nos ouvidos durante viagens de ônibus e metrôs. Se você quer pedir informação, acaba acidentalmente escolhendo (a dedo) o rapazinho na janela, de olhos perdidos na calçada do lado de fora, ouvindo músicas que você talvez nunca descubra quais são (você pensa, talvez seja melhor continuar não sabendo), e que, sentindo-se tremendamente incomodado com a interrupção, lhe responderá de má vontade.
Procurei dizer à minha mãe que o cotidiano é feito de mesmice, que as paisagens se repetem, que as pessoas têm um certo mal-estar social, essas coisas, e que ouvir música rompe, mesmo que por instantes, com a insatisfação de viver sempre do mesmo modo, chacoalhando bruscamente no ônibus, cambaleando no metrô e trombando nos outros pelas passarelas.
Mas, se antes de dizer isso à ela, eu tivesse podido responder por escrito, eu teria dito mais.
Veja bem, teria dito que a melodia paralela ao movimento esboça uma sensação de liberdade, a imaginação se desprende, atravessa a catraca, os trilhos e voa longe, e se, por alguns instantes, você fechar os olhos, sentindo as oscilações do ônibus ou do metrô e se concentrando com ardor nas notas, você poderá sentir que está flutuando junto à sua imaginação, e que de braços dados vocês percorrem a cidade do alto, bem do alto, acima dos prédios e tudo o mais. Eu teria dito que a melodia se torna a própria trilha sonora da vida, que os ritmos se adaptam perfeitamente ao vai-e-vem dos carros na rua ou dos pedestres nas faixas enquanto as luzes dos semáforos se alternam incansavelmente e a música vai ressoando dentro de você, acendendo-o também, convidando-o a bailar dentro de si, apertando as mãos da alma enquanto se dança por todo o salão do corpo. O físico e o imaterial se fundem em uma só existência que é feita de movimento e som, indissolúveis, o céu parece ter caído sobre você para então erguê-lo como que em um tapete mágico que o leva para fora de si, muito bem: agora você abandona seu corpo e o baile e é levado outra vez, ah, não há como escapar, é a música quem leva você, é a música quem ouve você e o movimento do ônibus continua, o metrô corre seus trilhos, motoristas e maquinistas conduzem seus transportes coletivos e a rotina se impõe dia após dia: não há como escapar, a não ser através do som e do movimento.
Está certo.
Taí o que eu teria dito à minha mãe.


2 de setembro de 2010

Um coração comporta extremos

E o pulso ainda pulsa
(Arnaldo Antunes)
Comporta o tédio e a ação, o tumulto e a solidão.
Um coração carrega o silêncio e a explosão, a ignorância e a informação.
Um coração atura o tapa e a adulação, a indolência e a emoção.
Um coração aceita o inaceitável.
Aceita a ira e a paixão, o erro e a reparação.
Permite o brilho e a escuridão, a incerteza e a exatidão.
Um coração é elástico: imprecisão.
É volátil, nascido da perturbação.
Um coração incha e se contrai, sem restrição.
Um coração se sustenta na transformação.
Coração: sem interrupção. ®

(inspiração vinda de dentro de um copinho de café, na manhã de hoje, resultou numa série de rimas pobres porque o coração comporta a miséria)