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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2010

Um ensaio quase lírico

Mais um gole de vinho? Segure firme o seu copo. Pronto, agora sim. Me acompanhe até a sacada, fazendo favor, quero lhe dar uma palavrinha. Como você pode ver, a chuva vem desmaiando por cima dos telhados frágeis da cidade. Em seguida, escorre desesperada pelas paredes pichadas e cobertas de fendas; é abrigada pelo asfalto, onde se põe horizontal e oscilante a deslizar até o meio-fio. O seu inevitável destino são os bueiros, onde se esconde, tremediça e ruidosa, e sobrevive por mais uns dias até evaporar, se esgotar e inexistir. Por que estou lhe contando isso? Ora, você não percebe? Assim vivemos todos nós, meu caro, a nos meter nos esgotos do corpo, ali onde tudo é torpe e imoral. Sim, evidentemente, há vezes em que o bueiro entope e regurgita a chuva embalada pelo lixo e a escória urbana - com o perdão da analogia. Sei que daqui de cima a visão é fascinante, as nuvens bamboleando pelo céu e as milhões de luzes vomitadas pelas janelas de casas e apartamentos onde famílias se amam e s…

Tem um cílio na sua bochecha

A Lua hoje sorria incrustada no absoluto breu do céu. Lua crescente, sorriso sem olhos que se erguia acima de um prédio cujas janelinhas brilhavam quase todas. Se o céu estava desligado, as luzes da cidade não o deixavam descansar, assim como a Lua, imaculadamente jovial, com seu sorriso incansável que pendia a esmo. Sei que ela sorria para mim enquanto eu subia as escadas a mirá-la. Retribui, porque é assim que se faz. Nos aglomerados urbanos, os outros afastam os olhares, escondem as pupilas no chão, forçam nos lábios o desenho de uma indiferença afetada. Não se quer olhar, não costumam sorrir. Trocam insultos no trânsito, trocam empurrões nas calçadas, trocam dinheiro e mercadoria nos supermercados e os sorrisos? Esses ficam guardados no avesso do corpo esperando um nobre motivo para serem ensaiados nos lábios. A Lua não, entende? A Lua já estava ali sorrindo com graça no escuro me esperando chegar em casa. Subi as escadas, atravessei o pátio, tomei o elevador. Em meu quarto, abri …

Todo mundo já pousou na janela.

Apoiou a palma das mãos no parapeito, arremessou as pupilas pequeninas ao largo céu onde elas se perderam com encanto ou aflição. Todo mundo já recostou a cabeça no vidro do ônibus, do metrô, do carro e fechou com cuidado as pálpebras só para sentir os cílios oscilando nas maçãs do rosto. Todo mundo já correu para flagrar o beija-flor que fazia espetáculo do lado de fora e lamentou ao ver o passarinho, sem mais nem menos, voar para longe e desaparecer em questão de segundos. Todo mundo já espiou devagar as redondas gotinhas de chuva que gracejam na superfície do vidro ou os raios de sol que desfilam sem pudor pela sala em um dia distinto de verão. Mas, quando se trata da vida, prefiro abandonar a janela, mesmo que custe muita audácia, e sair pela porta renunciando ao papel de espectadora. Todo mundo precisa ser visto do lado de fora por um outro alguém pousado na janela. E fazer tudo o quanto é possível enquanto se está fora de casa com o mundo ao alcance das mãos.



# Ilustração da Luys…

Quem dera ser como as pipas que eu via sacolejar no céu mesmo quando tínhamos mau tempo e chovia.

Nos fins das tardes cinzentas e perigosas eu costumava ficar feito estátua diante da janela da casa da vó. Cobria-me de paz e silêncio e contemplava os trovões - insuficientes para intimidar uma ou outra pipa que sapateava entre as gotas precipitadas. Era de admirar que aqueles losangos coloridos feitos de papel sobrevivessem mais do que cinco minutos debaixo dos grandes temporais a que eu assistia com interesse; mas lá estavam elas, sacolejando daquela maneira peculiar e característica das pipas. Admito que não entendo muito de pipas, de modo geral são feitas para a diversão dos garotos e ninguém nunca me ensinou a empiná-las. Mas de uma coisa eu sempre soube: elas voam alto, bem alto, sem medo... Perto das nuvens carregadas, perto do sol reluzente, talvez até perto do limite do mundo!





# ilustração da Luyse

Alguns tópicos da Poética de Aristóteles

1.
Epopeia, tragédia e ditirambo são imitações com o ritmo, a linguagem e a harmonia, usando este elementos separada ou conjuntamente.

2.
A epopeia é a arte que recorre ao simples verbo.

3.
Poesias há que usam de todos os meios sobreditos, isto é, ritmo, canto e metro, como a poesia dos ditirambos e dos nomos.

Uma dose de silêncio antes de sumir

Tomaram uma dose de silêncio antes de iniciarem a conversa. Ele abriu a garrafa de vidro, serviu os dois. Brindaram sem se olharem, beberam sem que o ato de engolir produzisse um ruído sequer. O silêncio dele era, de algum modo, letal. Ela sabia que morreria em poucos minutos. E precisava dizer. Mas a bebida fazia sua garganta queimar, não conseguia soltar a palavra. Ele não lhe dirigia o olhar nem se aproximava, temendo parecer que estivesse fazendo pressão. Ela observava o nada, sem saber que ele também. Pegou a garrafa, encheu o copo, bebeu devagar. Agora é que ela não falaria mesmo. Ele a olhou com certo desespero. Quis pedir que ela dissesse logo, antes que fosse tarde. Mas ela tomou até o último gole. Quis abraçá-lo para se despedir, mas ele a recusou. Queria apenas as suas palavras. Na verdade, chegou até a empurrá-la de leve, com um pouco de grosseria. Arrependeu-se de ter trazido o silêncio. Agora ela desaparecia aos poucos antes de ter falado. Os olhos dos dois jamais se int…

O subterfúgio

Tentei explicar à minha mãe, sem apelar à subjetividade, porque é que virou moda meter fones nos ouvidos durante viagens de ônibus e metrôs. Se você quer pedir informação, acaba acidentalmente escolhendo (a dedo) o rapazinho na janela, de olhos perdidos na calçada do lado de fora, ouvindo músicas que você talvez nunca descubra quais são (você pensa, talvez seja melhor continuar não sabendo), e que, sentindo-se tremendamente incomodado com a interrupção, lhe responderá de má vontade.
Procurei dizer à minha mãe que o cotidiano é feito de mesmice, que as paisagens se repetem, que as pessoas têm um certo mal-estar social, essas coisas, e que ouvir música rompe, mesmo que por instantes, com a insatisfação de viver sempre do mesmo modo, chacoalhando bruscamente no ônibus, cambaleando no metrô e trombando nos outros pelas passarelas.
Mas, se antes de dizer isso à ela, eu tivesse podido responder por escrito, eu teria dito mais.
Veja bem, teria dito que a melodia paralela ao movimento esboça …

17 de Agosto - Lançamento do Menino sem Nome na Bienal

Um coração comporta extremos

E o pulso ainda pulsa
(Arnaldo Antunes) Comporta o tédio e a ação, o tumulto e a solidão.
Um coração carrega o silêncio e a explosão, a ignorância e a informação.
Um coração atura o tapa e a adulação, a indolência e a emoção.
Um coração aceita o inaceitável.
Aceita a ira e a paixão, o erro e a reparação.
Permite o brilho e a escuridão, a incerteza e a exatidão.
Um coração é elástico: imprecisão.
É volátil, nascido da perturbação.
Um coração incha e se contrai, sem restrição.
Um coração se sustenta na transformação.
Coração: sem interrupção. ®
(inspiração vinda de dentro de um copinho de café, na manhã de hoje, resultou numa série de rimas pobres porque o coração comporta a miséria)