31 de agosto de 2010

Do inverno à primavera

Vi folhas dançando no chão nos últimos dias de inverno, folhas que sapateavam no coração em uma manhã fria de sol. Pedi que a dança nunca chegasse ao fim, prometi não desistir dos meus olhos que vêem tudo o que tenta se esconder entre as árvores e a rotina, prometi não desistir das mãos que nada querem deixar escapar, prometi não esboçar o último verso do poema para que o poema seja interminável, descobri a arte de pôr arte em tudo e não vou partir, não vou partir, a beleza me prende e a primavera me espera: eu me rendo às flores.



(aquela inspiração que vem quando se está ouvindo música, esperando o ônibus e vendo as folhas literalmente dançarem na calçada)


20 de agosto de 2010

Viagem

No mapa do corpo
Os limites da alma
Estradas, na palma,
Da mão, que apalpa
Estradas, que o pé percorre
E nos olhos corre
O mundo inteiro
Imerso no mapa do corpo
O corpo que viaja
Além do Atlântico
E dentro de si mesmo
A esmo

(segundo poema feito em sala de aula, e não é que essa história de espontaneidade artística dá um baita bem-estar?)


15 de agosto de 2010

Um belo enterro

Esperou cessar o ronco da moto que corria rasgando a madrugada. Atravessou a rua. Tudo estava deserto. Olhava para os lados a cada trinta segundos. No céu, um vazio estonteante. Ao longe o ruído do metrô em sua última viagem da noite. Sentia a respiração densa, os olhos úmidos. As mãos estavam secas e ásperas. Fazia frio. Abriu o portão enferrujado do parque e entrou. Uma coruja deu seus cumprimentos. Um vulto roçou sua canela e desapareceu na escuridão. Devia ser cachorro abandonado. Depois de ter dado uns setenta e dois passos seguindo pelo caminho da direita, ouviu o som abafado do portão sendo fechado. Não olhou para trás. Parou e observou a silhueta de um balanço quebrado. Suspirou. Algo se moveu na copa de uma árvore e alçou voo. Seus olhos esbarraram na Lua que só então se pronunciara. Tornou a caminhar, sem pressa. Deslizava no breu. Tropeçou em uma raiz, mas não caiu. Riu de si. Enfiou as mãos nos bolsos, revirou. Ajoelhou-se diante de um canteiro de flores que não tinham cor porque era madrugada. Com uma mão, cavou um buraco na terra. Cavou, sujou as unhas de terra. Olhou para trás, nada viu. Cavou um pouco mais. A mão que revirava o bolso emergiu e depositou o medo no buraco. Ajeitou-o bem no fundo. Agora era hora de tapar o buraco. Fizera-o com tamanha perfeição que ninguém jamais descobriria que ali havia sido enterrado o medo. Levantou-se, limpou as mãos na camisa, retirou-se e nunca mais voltou para buscar o que viera trazer.


13 de agosto de 2010

Escrevam - disse ele

Uma poesia
A menção à poesia
O pensamento na poesia
Roça a alma, acaricia
Assalta do peito a disforia
Abre o apetite e então sacia
A ânsia de sentir colorir o dia
O dia
Que depois da poesia
Se torna a própria poesia


(Acabei de sair da minha primeira aula de Estudos Comparados da Literatura em Língua Portuguesa - nome muito longo para uma única disciplina, por sinal. E foi também a primeira vez que produzi em aula desde o início do curso.)


4 de agosto de 2010

Divulgações

Meu primeiro livro, Menino sem Nome, está sendo divulgado no portal Guia do Bebê, da UOL, onde O Canto das Artes (o ateliê em que trabalho) anuncia. Para conferir, clique aqui.





Para ver o livro no site da Bienal, clique aqui e digite Menino sem Nome em Título.











" O menino sem nome estava concentrado, meditava. Eu o lia de perfil. Via seus cílios descendo e subindo ao piscar. Via sua boca abrir e fechar ao respirar. Via seu nariz inspirar o ar como se inspirasse vida. A vida que entrava e saía de seus pulmões, que enchia todo o seu corpo, a vida que circundava sua pele, a vida que se enraizava em seus ossos e músculos e a vida que batia junto ao seu coração, que pulsava, que palpitava... Quis assaltá-lo, quis transferir para mim o sopro de energia que seus lábios expiravam, quis roubar a sua força e a sua pureza e a sua vitalidade... Quis sê-lo. Segurei e apertei seu pulso. Ele se voltou para mim. Quatro pupilas se espreitaram. Eu podia ver o meu reflexo nos seus olhos e ali minha imagem era pequena, ínfima; o menino sem nome era redondamente humano e eu não, eu era de outra espécie, eu não existia, quem sabe eu fosse de outro planeta... " ®