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A mostrar mensagens de Agosto, 2010

Do inverno à primavera

Vi folhas dançando no chão nos últimos dias de inverno, folhas que sapateavam no coração em uma manhã fria de sol. Pedi que a dança nunca chegasse ao fim, prometi não desistir dos meus olhos que vêem tudo o que tenta se esconder entre as árvores e a rotina, prometi não desistir das mãos que nada querem deixar escapar, prometi não esboçar o último verso do poema para que o poema seja interminável, descobri a arte de pôr arte em tudo e não vou partir, não vou partir, a beleza me prende e a primavera me espera: eu me rendo às flores.



(aquela inspiração que vem quando se está ouvindo música, esperando o ônibus e vendo as folhas literalmente dançarem na calçada)


Viagem

No mapa do corpo
Os limites da alma
Estradas, na palma,
Da mão, que apalpa
Estradas, que o pé percorre
E nos olhos corre
O mundo inteiro
Imerso no mapa do corpo
O corpo que viaja
Além do Atlântico
E dentro de si mesmo
A esmo

(segundo poema feito em sala de aula, e não é que essa história de espontaneidade artística dá um baita bem-estar?)


Um belo enterro

Esperou cessar o ronco da moto que corria rasgando a madrugada. Atravessou a rua. Tudo estava deserto. Olhava para os lados a cada trinta segundos. No céu, um vazio estonteante. Ao longe o ruído do metrô em sua última viagem da noite. Sentia a respiração densa, os olhos úmidos. As mãos estavam secas e ásperas. Fazia frio. Abriu o portão enferrujado do parque e entrou. Uma coruja deu seus cumprimentos. Um vulto roçou sua canela e desapareceu na escuridão. Devia ser cachorro abandonado. Depois de ter dado uns setenta e dois passos seguindo pelo caminho da direita, ouviu o som abafado do portão sendo fechado. Não olhou para trás. Parou e observou a silhueta de um balanço quebrado. Suspirou. Algo se moveu na copa de uma árvore e alçou voo. Seus olhos esbarraram na Lua que só então se pronunciara. Tornou a caminhar, sem pressa. Deslizava no breu. Tropeçou em uma raiz, mas não caiu. Riu de si. Enfiou as mãos nos bolsos, revirou. Ajoelhou-se diante de um canteiro de flores que não tinham cor…

Escrevam - disse ele

Uma poesia
A menção à poesia
O pensamento na poesia
Roça a alma, acaricia
Assalta do peito a disforia
Abre o apetite e então sacia
A ânsia de sentir colorir o dia
O dia
Que depois da poesia
Se torna a própria poesia


(Acabei de sair da minha primeira aula de Estudos Comparados da Literatura em Língua Portuguesa - nome muito longo para uma única disciplina, por sinal. E foi também a primeira vez que produzi em aula desde o início do curso.)


Divulgações

Meu primeiro livro, Menino sem Nome, está sendo divulgado no portal Guia do Bebê, da UOL, onde O Canto das Artes (o ateliê em que trabalho) anuncia. Para conferir, clique aqui.





Para ver o livro no site da Bienal, clique aqui e digite Menino sem Nome em Título.











" O menino sem nome estava concentrado, meditava. Eu o lia de perfil. Via seus cílios descendo e subindo ao piscar. Via sua boca abrir e fechar ao respirar. Via seu nariz inspirar o ar como se inspirasse vida. A vida que entrava e saía de seus pulmões, que enchia todo o seu corpo, a vida que circundava sua pele, a vida que se enraizava em seus ossos e músculos e a vida que batia junto ao seu coração, que pulsava, que palpitava... Quis assaltá-lo, quis transferir para mim o sopro de energia que seus lábios expiravam, quis roubar a sua força e a sua pureza e a sua vitalidade... Quis sê-lo. Segurei e apertei seu pulso. Ele se voltou para mim. Quatro pupilas se espreitaram. Eu podia ver o meu reflexo nos seus olhos e ali minha…